
Por Carolina Brígido, no Estadão
Kassio Nunes Marques nasceu no subúrbio de Teresina (PI). Vendeu laranja na rua onde morava, empresariou um carrinho de cachorro-quente, foi dono de lotérica e comprou uma franquia da marca Hering. No percurso entre esse mundo até chegar a uma das 11 cadeiras do Supremo Tribunal Federal (STF), venceu não apenas os 1.700 quilômetros de distância geográfica, mas o abismo social que o separava do centro do poder com a ajuda dos amigos influentes que fez pelo caminho.
Antes de alçar os holofotes, formou-se em Direito em 1996 e abriu um escritório de advocacia. Defendeu empresas como Eletrobras, Banco do Estado do Piauí e Rede Ferroviária Federal. Também foi diretor jurídico de um conglomerado de planos de saúde que inclui a Unimed. Não era o suficiente.
Chegou ao Judiciário em 2008, nomeado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para uma vaga no Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI). Dois anos depois, foi reconduzido ao cargo. Se aproximou de José Sarney e de Romero Jucá, ambos do MDB, e acabou escolhido por Dilma Rousseff para uma vaga de desembargador do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1), em Brasília, em 2011.
A chegada à capital federal deu a Nunes Marques a chance de se aproximar de poderosos. Tinha no foco uma vaga no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Um dos apoiadores era Dias Toffoli, do STF, com quem fez amizade quando virou desembargador.
Nunes Marques caiu nas graças do Centrão pelas mãos do senador Ciro Nogueira (PP-PI). É por causa dessa relação “íntima e notória” que senadores pediram a suspeição do ministro para analisar a abertura de uma CPI do Master.
O STF foi acionado no dia 25 de março por um mandado de segurança para tornar obrigatória a instalação de uma CPI para investigar o caso do banco de Daniel Vorcaro, depois que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ignorou os requerimentos que pediam a abertura da comissão. Nunes Marques foi escolhido por sorteio como relator do mandado de segurança, mas até hoje não deu uma decisão.
Segundo investigação da Polícia Federal, Ciro Nogueira recebia mesada de R$ 500 mil do dono do Banco Master, além de hospedagem em hotel de luxo e despesas com cartão de crédito pagas pelo banqueiro em troca da defesa dos interesses dele no Congresso.
O próprio ministro se viu envolvido no caso Master após a revelação pelo Estadão do pagamento do banco a uma consultoria que depois contratou um dos seus filhos (mais detalhes abaixo).
Foi por meio de Ciro Nogueira que Nunes Marques chegou perto de Jair Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho “01″ do então presidente, foi o principal cabo eleitoral do hoje ministro. Bolsonaro gostou tanto do candidato que preferiu lhe dar uma cadeira no STF em outubro de 2020, em substituição a Celso de Mello, que se aposentara.
A partir deste mês de maio, em decorrência de um sistema de rodízio, o ministro presidirá o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a disputa deste ano pelo Palácio do Planalto. Flávio Bolsonaro deve se registrar como um dos concorrentes.
A forma como chegou ao Supremo deu a Nunes Marques a pecha de bolsonarista, mas ele nunca teve relação estreita com o ex-presidente. A proximidade era com integrantes do PP e do União Brasil. Ou seja: o ministro era um nome do Centrão. Quando tomou posse no STF, ampliou os horizontes políticos e se consolidou como habilidoso articulador de bastidor. A principal arma do ministro para manter a influência em Brasília são as festas que promove em casa, no Lago Sul, bairro nobre de Brasília.
Com a habilidade política de conversar com todo mundo – uma lição aprendida na cartilha do Centrão –, Nunes Marques é capaz de reunir no mesmo evento o ex-presidente Michel Temer, os cantores Diogo Nogueira e Jorge Aragão, os ministros do STF Alexandre de Moraes e André Mendonça, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e os senadores Ciro Nogueira e Otto Alencar (PSD-BA).
“Eu falo com todo mundo”, diz o ministro. Para quem assiste às sessões do Supremo, não parece. O ministro tem estilo discreto, tom de voz baixo, raramente participa de bate-bocas no plenário e não costuma dar entrevista. Nas festas, deixa os convidados à vontade. Não puxa assunto sobre polêmicas da política ou do tribunal.
Com a posse na presidência do TSE agendada para terça-feira, 12, Nunes Marques, de 53 anos, já planeja o primeiro ato no cargo: comemorar com uma festa de arromba em um salão de Brasília. Como em posses de outros presidentes da nata do Judiciário, a celebração será organizada por associações de magistrados.
Sai Bolsonaro, entra Lula
Quando chegou ao Supremo, Nunes Marques se descolou de Bolsonaro, com quem já não mantinha contato antes mesmo da condenação e da prisão por tentativa de golpe. Ao mesmo tempo, aproximou-se de Lula quando o novo presidente tomou posse, em 2023.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, que conhece Nunes Marques desde a época que os dois moravam no Piauí, foi o principal articulador da aproximação do ministro com o petista. Nunes Marques retribuiu o favor quando aderiu à campanha de Messias no Senado – que acabou rejeitado para vaga na Corte pelos senadores.
Lula demonstrou simpatia com Nunes Marques à primeira vista. No início do mandato atual, foi ao STF para uma visita de cortesia. Apertou a mão de todos. Quando chegou a vez de Nunes Marques, o presidente deu-lhe um abraço e um tapinha nas costas.
Em caráter reservado, um ministro do tribunal disse que Lula gosta de Nunes Marques. Ele acredita que a explicação para a afinidade imediata foi a origem comum dos dois, que vieram de famílias humildes nordestinas.
De forma pragmática, Lula apagou da memória o voto contrário de Nunes Marques à anulação de sentenças do então juiz Sérgio Moro na Lava Jato. Preferiu construir uma ponte com quem comandará o processo eleitoral deste ano, em que vai tentar se reeleger, a declarar guerra ao ministro.
Como a presidência do TSE é definida por um sistema de rodízio entre ministros do STF, é possível saber com antecedência quem presidirá a Corte em ano eleitoral. Nunes Marques já estava predestinado a ocupar o cargo em 2026.
O ministro também precisa de Lula. Comendo pelas beiradas, Nunes Marques hoje é ouvido pelo presidente para a escolha de ocupantes de postos importantes do Judiciário. Uma das vitórias foi ter emplacado o amigo Carlos Brandão no STJ. Também foi padrinho de alguns escolhidos para o TRF-1, de onde foi desembargador – entre eles, Newton Ramos.
Embora tenha se aproximado do presidente, ele não faz parte hoje do grupo de ministros que Lula ouve no Judiciário. Os principais interlocutores do petista são Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Alexandre de Moraes também era próximo do presidente. Depois que trabalhou contra a indicação de Messias para o Supremo, o mais provável é que se distancie de Lula agora.
Longe de Bolsonaro
Logo que tomou posse no STF, Nunes Marques demonstrava alinhamento maior aos planos de Bolsonaro. No primeiro mês como ministro, votou contra a reeleição de Rodrigo Maia à presidência da Câmara e colocou uma série de empecilhos para a vacinação obrigatória contra a covid-19.
Passou a aparentar descolamento do presidente que o escolheu para o cargo quando foi contrário à concessão de salvo-conduto a Bolsonaro para evitar sua prisão pela acusação de golpe de Estado.
Nas primeiras votações sobre o 8 de janeiro de 2023, defendeu, assim como André Mendonça, absolvições e penas mais brandas em relação às propostas por Alexandre de Moraes. Mas, nos julgamentos seguintes, ficou mais alinhado a Moraes, em respeito ao entendimento já cristalizado pela maioria em plenário. Mendonça seguiu firme na posição original.
Mendonça, que foi nomeado por Jair Bolsonaro ao Supremo em 2021, tem perfil diferente: era concursado e comandou a Advocacia-Geral da União (AGU). A amizade com o ex-presidente e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro o catapultaram ao STF. Entrou na cota do “terrivelmente evangélico” e ainda hoje mantém-se fiel ao bolsonarismo em decisões judiciais. Ele será o vice-presidente do TSE.
Rei das festas
A agenda social na residência de Nunes Marques se assemelha à de uma casa de eventos. O cardápio conta sempre com uísques, vinhos e charutos. Segundo os convidados, a comida é farta e de boa qualidade.
Um integrante do TRF-1, que sempre vai às festas organizadas por Nunes Marques e preferiu não ser identificado, diz que o ministro não ataca para conquistar o que quer, mas “vai com jeitinho” – “ele tem um jeito nordestino de oferecer comida e tratar as pessoas com gentileza”. Claro que as pessoas também têm interesse na proximidade, por se tratar de um ministro do Supremo, reconhece o juiz.
O anfitrião gosta de misturar autoridades do Judiciário e da política com celebridades da música. A lista de frequentadores das festas inclui os sertanejos Gusttavo Lima, Leonardo, Natanzinho Lima e Henrique e Juliano; os sambistas Diogo Nogueira, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho; e os forrozeiros Xand Avião e Edson Lima, vocalista do Limão com Mel.
Em abril de 2024, por exemplo, Nunes Marques abriu a residência para um jantar em homenagem a Michel Temer. A festa foi oferecida a pedido de Alexandre de Moraes. Lá estiveram o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, e o então governador Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal. Do STF, compareceram Gilmar, Mendonça, Zanin e Toffoli.
Em junho do mesmo ano, quando tomou posse como vice-presidente do TSE na gestão Cármen Lúcia, Nunes Marques voltou a abrir as portas de casa para uma festa. O prestígio político do ministro foi afiançado pela presença do então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSB-MG), e de integrantes do STF, do STJ e do TSE. O evento também foi cenário para o lobby de candidatos a vagas que estavam abertas no STJ.
Quem assiste às sessões de julgamento do STF enxerga uma divisão ideológica marcada entre os ministros. Na vida social, essas divisórias caem. Moraes, Zanin, Dino, Gilmar, Toffoli e Mendonça frequentam as festas na casa de Nunes Marques.
Até o presidente do Supremo, Edson Fachin, que tem um perfil mais discreto, vai aos eventos. Numa ocasião, pegou o microfone e cantou. Por lealdade, as testemunhas preferiram não revelar a música entoada pelo presidente da Corte.
Nunes Marques diz que um dos segredos para reunir presenças ilustres é não tocar em temas espinhosos. “É um momento para relaxar um pouco”, afirma ele.
Moraes fez isso em junho de 2025. Logo depois de uma sessão de depoimentos de réus da trama golpista, incluindo Bolsonaro, o ministro foi à festa junina de Nunes Marques. Lá também estavam presentes o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), Ibaneis Rocha, Ciro Nogueira, Hugo Motta, os ministros Vital do Rêgo e Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), 15 ministros do STJ, quatro do Supremo e 25 desembargadores do TRF-1.
Nunes Marques também se aproximou de Luiz Fux antes mesmo de ser nomeado para o STF, mas o amigo não tem o hábito de ir a festas em Brasília.
Amizades com músicos
Quem frequenta os eventos conta que, exceto quando já está tudo previamente combinado, Nunes Marques não pede para os músicos se apresentarem. A tática é tocar algo do mesmo estilo musical no aparelho de som e, se o cantor quiser, fica à vontade para se apresentar. Alguns famosos se empolgam e pegam o microfone; outros preferem economizar a voz.
Nunes Marques não paga em dinheiro, mas em prestígio. Sempre que pode, comparece a shows e gravações de DVDs dos artistas de quem é amigo, especialmente quando as apresentações são em Brasília.
O ministro também aposta em artistas menos famosos. Em agosto de 2025, por exemplo, foi flagrado em um samba no Gama, região administrativa do Distrito Federal. Na ocasião, ele se deixou fotografar dançando com um copo na mão, descontraído, na Feira do Gama. O cantor Jean Mussa havia pedido a Nunes Marques para ir prestigiar a gravação de um DVD. Ele também já cantou na casa do ministro.
No caso de Gusttavo Lima, a relação próxima com Nunes Marques foi exposta em setembro de 2024, quando foi divulgada a presença do ministro na comemoração do aniversário do sertanejo em um iate na Grécia.
O cantor fazia publicidade para o site de apostas Vai de Bet e teve a prisão decretada, mas ela foi revogada no dia seguinte. A suspeita é que o portal teria lavado dinheiro obtido por meio de atividades ilegais, como o jogo do bicho. José André Rocha Neto, dono da casa de apostas Vai de Bet, e a mulher dele, Aislla Sabrina Rocha, também estavam na festa e foram considerados foragidos.
A comemoração reuniu cerca de mil pessoas na ilha grega de Mykonos. Nunes Marques alegou à época que estava em um compromisso acadêmico em Roma, na Itália, e aproveitou para passar pela Grécia para dar um abraço no amigo famoso. Explicou, ainda, que não sabia das relações de Lima com os investigados antes de ser decretada a prisão. As investigações contra o cantor foram arquivadas três meses depois.
Processos sob relatoria do ministro
Entre os processos que o ministro relata no STF está a Operação Overclean. A investigação mira fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro com a participação de políticos com foro privilegiado. O inquérito tramita sob sigilo, mas está na fase final, com a conclusão dos últimos pedidos de diligência da Polícia Federal.
Em outra frente, Nunes Marques é o relator das investigações contra o ministro do STJ Marco Buzzi, acusado por duas mulheres de importunação e assédio sexual. O inquérito foi aberto em abril e, portanto, ainda não há previsão de conclusão. A tendência é que Buzzi seja condenado em processos administrativos abertos no STJ e no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Ele deve amargar o mesmo fim no processo criminal que está no Supremo.
O filho do ministro e o caso Master
O maior percalço que Nunes Marques enfrentou perante a opinião pública desde que chegou ao STF foi a publicação de reportagem do Estadão revelando a ligação de um de seus filhos, o advogado Kevin de Carvalho Marques, com o Banco Master. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, o Master e a JBS repassaram R$ 18 milhões à Consult Inteligência em troca de serviços. A empresa de consultoria fez pagamentos de R$ 281,6 mil ao filho do ministro, também por serviços prestados.
Os pagamentos foram feitos por meio do escritório de Kevin Marques, do qual ele é o único responsável, de acordo com registros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A consultoria, por sua vez, declarou faturamento de R$ 25,5 mil. Os dados aparecem em documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Em sua defesa, o advogado afirmou que o pagamento é lícito, decorrente do exercício regular da advocacia. O ministro não comentou.
Com apenas um ano de OAB, Kevin Marques teria conquistado, segundo o próprio site dele, uma carteira com mais de 500 clientes e solucionado ao menos mil processos. Um dos clientes é a Refit, a refinaria de Ricardo Magro interditada em uma fiscalização da Agência Nacional do Petróleo (ANP). O processo para o qual o advogado foi contratado para atuar tramita no TRF-1, Corte que Nunes Marques integrou entre 2011 e 2020 e ainda mantém influência.
Em abril, Newton Ramos, aliado de Nunes Marques, deu uma decisão liminar favorável ao filho do amigo. Como mostrou o Estadão, em novembro do ano passado, o desembargador e o ministro haviam voado para Maceió juntos. A viagem foi bancada pela mulher de Newton, a advogada Camilla Ewerton Ramos – que, por sua vez, já atuou em causas do Master. Em abril do ano passado, dois filhos do ministro – entre eles, Kevin –, pegaram carona em outro avião com o casal Ramos, com destino a Trancoso (BA).
Outro filho de Nunes Marques se formou em Direito em julho de 2025. O terceiro está no meio do curso. O ministro considera natural o caminho dos herdeiros. “Se eu tivesse pai no Supremo, eu faria Direito também”, diz.

Sem chance para Bolsonaro
Ainda que Nunes Marques replique o pensamento bolsonarista em vários posicionamentos jurídicos, isso não seria suficiente para, à frente do TSE, livrar o ex-presidente da inelegibilidade. Bolsonaro está impedido de se candidatar até 2060, em decorrência da condenação no STF pela tentativa de golpe de Estado. Não há caminho processual para o TSE reverter essa situação.
A interlocutores, Nunes Marques tem dito que vai tentar despolarizar o País nas campanhas deste ano. Para isso, quer como marca de sua gestão enterrar de vez a desconfiança sobre as urnas eletrônicas. Como ministro indicado por Bolsonaro, grande propagador das suspeitas em torno do sistema de votação, ele acredita que sua atuação nesse sentido pode ter mais peso para os seguidores do capitão que insistem em questionar a credibilidade do processo eleitoral.
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