De Pitadas do Sal

Idealiza a cena:

O riff entra cortando o silêncio como navalha elétrica. A bateria cresce. Rita Lee vem rasgando tudo. E no meio daquele vendaval chamado Fruto Proibido existe uma guitarra que não apenas acompanha a música. Ela fala. Ela provoca. Ela empurra o rock brasileiro para outro lugar.

Luiz Carlini partiu, “foi beijar o céu”.

E eu confesso que escrever isso ainda parece estranho.

Existem artistas que ultrapassam o limite da técnica e entram num território mais raro: o da memória afetiva coletiva. Carlini era isso. Um guitarrista capaz de transformar poucas notas em identidade. Um músico que ajudou a construir a linguagem do rock brasileiro quando tudo ainda era descoberta, improviso, amplificador no talo e vontade de fazer história.

Muito antes de algoritmo, trend ou fórmula pronta, Carlini já entendia algo essencial: música precisa ter verdade.

Sua guitarra em “Ovelha Negra”, “Agora Só Falta Você”, “Esse Tal de Roque Enrow” e tantas outras canções não envelheceu. Continua quente. Continua viva. Continua perigosa. Porque ali existia personalidade. Existia alma. Existia um cara tocando para a canção crescer, não para alimentar vaidade técnica.

Recebê-lo no Pitadas do Sal foi uma honra gigantesca para mim. Carlini carregava aquela mistura rara de grandeza histórica com simplicidade humana. Falava sobre música com brilho no olhar. Como alguém que ainda acreditava no impacto transformador de um riff atravessando o peito da gente.

E atravessa.

O rock brasileiro perde hoje um de seus arquitetos centrais. Um homem que ajudou Rita Lee a incendiar padrões, desafiar conservadorismos e construir um dos discos mais importantes da história da música brasileira.

Mas certas pessoas não desaparecem completamente.

Enquanto existir alguém colocando Fruto Proibido para tocar no volume máximo, Luiz Carlini continua vivo.

Escrevi um texto especial no blog do Pitadas do Sal sobre a trajetória, a importância histórica e o legado desse gigante da guitarra brasileira.

Hoje o rock brasileiro toca mais baixo.

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