Radiohead estreia no Festival de Coachella um projeto audiovisual que amplia as possibilidades do documentário de rock – e abre as portas para uma etapa de turnês mais comedidas e seletivas

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Os meandros de KID A MNESIA, “um monstro aprisionado num museu caindo aos pedaços”. Imagem: Divulgação

Em 2004, 2012 e 2017 o Radiohead foi uma das principais atrações do Festival Coachella, na Califórnia. Desta vez, no entanto, o grupo não compareceu em pessoa, mas trouxe ao evento – que termina no domingo, 19/4 – um novo formato de apresentação, que capturou a atenção da imprensa e cativou os diferentes sentidos do público.

No fim de semana passado, o Radiohead estreou no Festival Coachella sua Motion Picture House, uma instalação audiovisual imersiva onde o grupo é visto gravando seus álbuns de 2000 e 2001, respectivamente, Kid A e Amnesiac, num longa de 75 minutos intitulado KID A MNESIA, que foi exibido num espaço fechado do festival, de quase 1.600 metros quadrados, construído especialmente para a ocasião.

Uma ampliação do conceito tradicional do documentário de rock, o projeto expande as possibilidades da música contida nos dois discos seminais – apresentada em nova mixagem, com som espacial surround de seis canais – e acrescenta sequências de animação – assinadas pelo vocalista Thom Yorke e pelo artista Stanley Donwood, seu colega nas aulas de arte na Universidade de Exeter e autor das ilustrações usadas em capas de discos do grupo – que pontuam ou complementam o que se ouve. As próprias artes de Yorke e Donwood também podem ser vistas no local.

Thom descreveu o aspecto visual do projeto como a experiência de se ver “um monstro aprisionado num museu caindo aos pedaços de objetos perdidos e esquecidos, uma lembrança de uma época em que a tecnologia nos poderia ter salvado”.

É um espetáculo itinerante, que a partir de maio fará paradas em Brooklyn, Chicago e Cidade do México, antes de fechar o circuito em São Francisco, em fevereiro de 2027. Sempre sendo montado em locais bem diversos daqueles onde o Radiohead costuma se apresentar, e com características distantes das de um show de rock tradicional. São estúdios de cinema, galpões – e até um palacete de fachada em estilo greco-romano.

Só depois o Radiohead deverá retomar sua agenda de shows. E fazendo apenas 20 espetáculos por ano, para minimizar o desgaste físico dos músicos. Há rumores de apresentações em Estados Unidos, Canadá, América do Sul, Austrália e Nova Zelândia, mas nada foi confirmado, por ora.

Pode ser que o Radiohead opte por residências de quatro shows em cada cidade, como fez em 2025, sua primeira turnê desde 2018. Mas são conjecturas.

O projeto audiovisual nasceu como um híbrido de galeria de arte e jogo eletrônico, lançado em 2021, quando a pandemia de COVID tinha eliminado as possibilidades de realização de shows. Mas acabou sendo modificado e ampliado para o formato atual.

Numa fase em que os integrantes do Radiohead exercem cada vez mais atividades extra-banda, o espaçamento das turnês e a criação de projetos como a Motion Picture House permitem que os integrantes do grupo exercitem diferentes músculos artísticos.

O multi-instrumentista e compositor Jonny Greenwood dedica-se a trilhas de filmes, a arranjos e a espetáculos colaborativos, por vezes com orquestras. O vocalista Thom Yorke se divide entre projetos solo de música eletrônica e colaborações com uma variedade de artistas, atua como DJ e também compõe música para filmes. O guitarrista Ed O’Brien vem desenvolvendo carreira paralela e lança seu segundo álbum solo, Blue Morpho, em maio. O baterista Philip Selway colabora com outros artistas e lança discos individuais, nos quais também canta e toca piano. Isso sem falar no The Smile, o trio formado por Yorke, Greenwood e o baterista Tom Skinner, cofundador do quarteto britânico de jazz Sons of Kemet.

Essa pausa nos shows também pode indicar a possibilidade de um novo disco do Radiohead ser gestado e lançado até meados de 2027. O álbum mais recente do grupo, A Moon Shaped Pool, saiu uma década atrás.

Num momento em que são realizados shows com avatares digitais, artistas montam exposições itinerantes de seu acervo pessoal de instrumentos e roupas e fãs enchem cinemas para ver transmissões de shows de seu astro favorito, o Radiohead parece ter encontrado um formato condizente com sua personalidade de dar a seu público algo inovador e bem pensado. Reservando-se o direito, o tempo e o cuidado de como e quando fazer shows, disposto a, como disse Ed O’Brien numa entrevista no mês passado, “dar absolutamente tudo de nós, todas as noites”.

“Não queremos que pareça que estamos apenas cumprindo tabela ou que estamos esgotados”, argumentou. “Precisamos ser capazes de fazer isso. E sabe de uma coisa? Não somos mais garotos”.

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