Armadilha financeira silenciosa transformou o aumento da renda em lucro bancário e evasão via apostas, corroendo o capital político de Lula

Por Marco Castello Branco, no Jornal GGN

O Brasil de 2026 vive um paradoxo que desafia os manuais de campanha eleitoral: indicadores macroeconômicos reluzentes — PIB em alta, desemprego em mínimas históricas e inflação sob controle — colidindo frontalmente com uma percepção social de empobrecimento e insegurança econômica. O otimismo dos gabinetes em Brasília não atravessa a porta das casas brasileiras. O motivo? Uma armadilha financeira silenciosa que transformou o aumento da renda em lucro bancário e evasão via apostas, corroendo o capital político do presidente Lula e ameaçando sua reeleição.

A hipótese central para essa desconexão é a falta de consistência na política econômica. Para controlar a inflação, o governo e o Banco Central mantiveram taxas reais de juros nas alturas. Simultaneamente, o governo apostou no crescimento do consumo através do aumento do salário-mínimo, da recomposição das políticas de assistência social, da expansão do crédito consignado e da antecipação do saqueaniversário do FGTS.

O erro de cálculo foi fatal: injetar crédito caro em uma população que no início do governo já estava endividada não gera consumo sustentável, gera serviço da dívida. Entre 2023 e 2025, o volume de crédito consignado saltou de R$ 621 bilhões para projetados R$ 742 bilhões. No papel, injetou-se liquidez; na prática, o comprometimento da renda das famílias com juros e amortizações subiu de 26,1% para 28,2%. Quase um terço do que o trabalhador ganha morre no banco antes de chegar ao supermercado ou na loja da esquina.

O TRIÂNGULO DAS BERMUDAS DA RENDA

A política de antecipação do FGTS, que deveria ser um socorro pontual, tornou-se uma drenagem permanente. Em 2024, o volume de antecipações atingiu R$ 42 bilhões. O trabalhador “vende” seu patrimônio futuro para pagar juros presentes, com taxas que, embora menores que as do rotativo, são aplicadas sobre um saldo bloqueado, garantindo risco zero e lucro máximo às instituições financeiras.

Enquanto isso, as BETs, o “ralo” devorador dos salários criado no governo Temer só foi (mal)regulado em dezembro de 2023 – com regras que passaram a valer apenas a partir de janeiro de 2025 – terminou de esvaziar de vez o bolso do povão. O gasto das famílias com apostas online explodiu de R$ 80 bilhões em 2023 para estarrecedores R$ 270 bilhões previstos para o fechamento de 2025. Estima-se que 2,5% da massa salarial nacional esteja sendo drenada por plataformas de jogos, muitas vezes utilizando recursos de programas sociais e do crédito consignado. O varejo, que deveria ser o motor do PIB de Lula, perdeu cerca de R$ 140 bilhões em faturamento para o setor de apostas apenas em 2025.

A tabela abaixo resume o porquê da “sensação de carestia” apesar dos números oficiais:

Note que a despesa com juros cresceu 16,4% em três anos, 40% acima dos 11,7% que foi aumento da renda no mesmo período. O aumento do salário-mínimo e a isenção do IRPF para quem ganha até R$ 5 mil tornaram-se meros repasses para o sistema financeiro.

O LUCRO DO BANCO E O PREÇO DO VOTO

A ironia política é trágica. Um governo eleito com a bandeira de “colocar o pobre no orçamento” entregou, na prática, um cenário onde o setor bancário registrou lucros recordes (saltando de R$ 104 bilhões em 2023 para R$ 128 bilhões em 2025). O setor financeiro e as BETs foram os verdadeiros beneficiários do “Lula III”.

O problema eleitoral é que banqueiro e dono de BET não votam em Lula, e mesmo que votassem somam poucos votos. Para o povão, o que resta é a ansiedade e a sensação de estar correndo, e correndo muito, sem sair do lugar. Se a economia de “fluxo” vai bem nos gráficos de Brasília, a economia de “estoque” (a dívida e os juros escorchantes) destruiu o que deveria ser um bem-estar percebido das pessoas.

Dificilmente haverá tempo até as eleições para o governo corrigir a trapalhada em que se enfiou. Para desestimular o voto numa segunda aventura bolsonarista e evitar uma derrota deprimente após completar 81 anos de idade, Lula vai precisar agir rápido: assumir que errou e prometer que vai corrigir a trajetória no próximo mandato: o pobre vai continuar no orçamento, mas ele vai jurar que dessa vez o dinheiro ficará no bolso do eleitor ao invés de ir parar na carteira dos banqueiros e no caixa das apostas online.

(*) Marco Antônio S. C. Castello Branco – Eng. Metalurgista, Dr.-Ing. pela Universidade Técnica de Clausthal, Alemanha. Ex-presidente da Vallourec&Mannesmann do Brasil, da Usiminas e da Cia. de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (marco.cbranco@hotmail.com)

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