
Por Nelson Moraes – no Facebook
É a dimensão das interpretações apressadas (não “afobadas”, mas elaboradas com o único propósito de escapulir do senso comum e sagrarem-se de imediato como “corajosas” ou “autênticas”) que o filme suscita. Ele fala da ditadura, mas não é sobre a ditadura. Fala sobre uma máquina policial corrupta, leniente e festeira, mas não se configura como um filme-denúncia. Fala sobre o aparelhamento ditatorial dos anos 70 nas universidades, mas não cai na vala do panfletarismo. Isso tudo aí é contexto, assim como a fugaz cintilância das lantejoulas do carnaval de rua do Recife.
O filme é essencialmente sobre memória, e, principalmente, o inacreditável apagamento (não apenas orgânico, inercial, mas voluntário e assumido) da memória. Não é à toa que a narrativa nos faz voltar a 1977, pra abrir caminho ao arcabouço memorial que se arrastará até os dias atuais. Aliás, se você ainda não assistiu, pare por aqui, vá direto ao último parágrafo e nos falamos depois.
Senão vejamos: Marcelo/Armando, tecnólogo que chega foragido ao Recife em pleno carnaval, em busca do filho pequeno, é pautado por memórias traumáticas de cunho profissional e afetivo, que moldam seu comportamento: é preciso se inflitrar, se disfarçar, vasculhar nos arquivos da segurança pública a documentação (vale dizer, as memórias) dos distantes e já fugidios laços familiares – pra, no fim das contas, fugir. Da perseguição homicida, do país, de si mesmo. Tudo que deságua nesse enredo fala sobre o impacto da memória: o tubarão (alô, Spielberg) trazendo dentro de si – literalmente – um vestígio comprometedor que precisa ser oficialmente apagado dos registros; a lembrança da imorredoura lenda da perna cabeluda (aliás um divertido parêntese no filme que homenageia os George Romeros da vida); as biografias de cada um dos refugiados no apartamento da impagável dona Sebastiana; o acervo cinematográfico no expediente do projecionista do Cinema São Luiz (onde emerge, quase imperceptivelmente, num brilfhante lance de autoironia, o trailer de “Le Magnifique”, de 1973, em que Jean-Paul Belmodo faz um desastrado – adivinhou – agente secreto). Fala também da memória forjada, mostrando, por exemplo, o personagem de Udo Kier sendo “saudado” pela máquina policial recifense como um “heróico soldado do exército alemão”, quando na verdade – e apesar de seus intraduzíveis e vãos protestos – trata-se de um judeu refugiado: é mais negócio fomentar só as memórias convenientes ou palatáveis; a História que se dane.
Vem dessa confluência a tão discutida conclusão da narrativa que, aguardada como um plot twist, mostra-se aparentemente anticlimática. Mas é justamente esse anticlímax que, revertendo todas as expectativas, se escancara surpreendente, consagrando a ousadia de um roteiro que sinalizava o tempo todo um final pirotécnico – pra acabar entregando “desfechos” memorializados em registros (fotografias no jornal, gravações em áudio) e que são confrontados pela indiferença do personagem do já adulto filho do protagonista: “Não lembro de quase nada, e esses registros, sinceramente, não me interessam”. Ponto pro recado de Kleber Mendonça, que também é Filho: quem age pra deletar a memória também mata.
Oscar? Difícil. “Valor Sentimental” e “Foi Apenas um Acidente”, emparelhados de várias formas com o filme em qualidade cinematográfica, possuem um lobby quantitativo mais relevante. Assim como a interpretação de Wagner Moura, que tangencia o sublime em sua leitura das conflitantes camadas do personagem, mas vai enfrentar a máquina “chalametiana”. A conferir.
Filme maiúsculo. Reitero: se não viu, assista. E guarde bem guardado na memória.

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