Por Laysa Zanetti, no UOL

A polêmica do dia nas redes sociais reúne o suprassumo dos assuntos que mais geram discussões acaloradas e dividem opiniões nas bolhas do cotidiano na internet: relação entre pais e filhos e inteligência artificial. Se até um pai que comprou sorvete para a filha após ela fazer uma cirurgia virou motivo de cancelamento no Twitter, como um comercial de carro que usa a tecnologia para reunir Maria Rita e Elis Regina estaria a salvo? O vídeo em questão traz cenas contemporâneas de Maria Rita dirigindo um carro elétrico e, paralelamente, Elis Regina também conduzindo o modelo clássico da Kombi, no passado. Paralelamente, as duas cantam a mesma música: “Como Nossos Pais”, escrita por Belchior em 1976 e eternizada na voz de Elis.

A ideia é fazer uma homenagem aos 70 anos da marca em questão, e ao mesmo tempo criar uma alusão à ideia de continuidade e modernização de um veículo específico. O vídeo usa a letra da canção para enfatizar que, apesar de muita coisa ter se transformado (como o carro em questão ter se tornado um modelo elétrico), ainda vivemos como nossos pais e levamos as tradições adiante.

A ideia, obviamente, dividiu opiniões. Enquanto alguns ficaram emocionados com a reunião de Maria Rita com a mãe, ícone da música e da cultura popular brasileira que morreu quando ela tinha quatro anos, outros notaram certa estranheza e acharam a ideia um pouco bizarra. O vídeo usa “deep fake” e aplica uma técnica de IA para criar a imagem de Elis Regina jovem, que morreu em 1982, e colocar ela dirigindo o carro lado a lado com Maria Rita, atualmente aos 45 anos.

Há quem repudie a ideia e ache toda a coisa um tanto mórbida, sobretudo levando em consideração que se trata de um conteúdo publicitário, que utiliza a imagem de uma pessoa que já está morta para vender um produto. Quando “Star Wars” reuniu imagens de arquivo de Carrie Fisher para o Episódio 8 da saga, também houve estranheza, ainda que a família tivesse autorizado a prática. A grande ironia, no entanto, parece ser uma certa falta de memória ou incapacidade de interpretação.

“Como Nossos Pais” é uma letra que trata do conflito de gerações, e põe luz sobre uma juventude desiludida e sem esperanças de transformação. Foi composta por Belchior em 1976, em meio à ditadura militar. O regime autoritário, o capitalismo e a manutenção de um sistema opressor que só favorece quem já está por dentro do status quo são pontos duramente criticados pela letra, e o comercial parece exaltar tudo isso.

Soma-se a isso uma aparente falta de memória, e parece de muito mau gosto escolher uma música que é contra a ditadura militar para exaltar a história de uma montadora que apoiou o mesmo regime. Enquanto a letra declara que “minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, os personagens do comercial se reúnem em uma praia e comemoram a continuidade de gerações soltando fogos de artifício.

Em outro trecho, Belchior fala que quem lhe deu “a ideia de uma nova consciência e juventude” está em casa “contando vil metal”, numa profecia talvez trágica do que aconteceria com a imagem de Elis. No máximo, dá para enxergar a coisa toda como uma autocrítica velada, ou uma prova de que Belchior continua sendo um enigma depois de mais de quatro décadas.

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