Aos 82 anos, morre Paulo Diniz, ícone da música popular nos anos 70

Na manhã desta quarta-feira (22), morreu o cantor e compositor pernambucano Paulo Diniz, aos 82 anos, conhecido pelo sucesso “Pingos de Amor”, música gravada por vários intérpretes. Segundo o produtor musical Saulo Aleixo, o cantor morreu por volta das 7h, em sua residência, no bairro de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, por causas naturais.

“Eu estava administrando as redes sociais dele e muito feliz pelo trabalho que estávamos fazendo, estava sendo meu presente de 15 anos de profissão como produtor. A gente se encontrava pouco, por causa da Covid, mas trocávamos muitas ideias”, disse o produtor, que produz, ao lado da cantora Cristina Amaral, um projeto em homenagem a Diniz.

O velório será realizado nesta quinta-feira (23), no Recife, e deve ser reservado à família e aos amigos. Além da esposa, Iluminata Rangel, o artista deixa uma filha, duas enteadas, três netos e dois bisnetos.

Em matéria do JC Online, há quatro anos, ele revelou passagens de sua vida. “Depois de se virar fazendo biscates, conseguiu ser contratado pela Rádio Jornal do Commercio, de onde foi despedido sumariamente, depois de, numa emergência, substituir o locutor do Repórter Esso. A demissão foi por errar todas as pronúncias das palavras e nomes em inglês. Sorte dele que, desempregado, decidiu ir para o Rio de Janeiro: ‘Cheguei meia-noite, meio-dia era empregado da Tupi, depois fui pra Globo. Passei por algumas rádios menores. Eu vou me gabar um pouco, nunca tinha feito música. No Rio, não conhecia artistas. Mas sou muito malandro e tenho muita música em mim'”.

Três anos depois, Paulo Diniz estaria cantando no programa Jovem Guarda, estourado em todo Brasil com o iê-iê-iê O Chorão, de Edson Mello e Luiz Keller, autores poucos conhecidos mas de muitos sucessos populares. O Chorão, gravado na Copacabana, foi o que se chama hoje de “viral”. Canção de letra engraçada, com apenas dois acordes, viralizou país afora.

“Eu queria gravar uma música e não achava. Era locutor da Rádio Globo, todo mundo me dava versões. Gravei versões como a de Western Union, dos Five Americans. Versão de Rossini Pinto, com o título de Meu Benzinho. Fui acompanhado por todo mundo, era um pouco de cada conjunto, de Renato e seus Bluecaps, com gente dos Fevers. Mas quando gravei O Chorão sabia que ia estourar. Ela tocou por muito tempo, me levou para programas como o Jovem Guarda e o Rio Hit Parade, na TV Rio, ganhei muito dinheiro, comprei uma fusca. Um dia parei o carro em frente ao Solar da Fossa, e fui morar lá”.

Diniz passou pelo Solar da Fossa, protótipo do conceito de flat. Um enorme casarão, dividido em pequenos apartamentos, localizado onde hoje está o Shopping Rio Sul, em Botafogo, Zona Sul carioca. Entre 1964 e 1971, o Solar da Fossa, nome surgido entre os próprios inquilinos, abrigou uma constelação inacreditável, para os tempos atuais, de cantores, compositores, atores, cineastas, escritores. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Torquato Neto, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Tim Maia, Darlene Glória, Naná Vasconcelos, Paulo Leminski, entre muitos outros.

“Eu sou índio de Pesqueira, ficava lá, deitado numa rede. Quando Leminski chegava, ia pro seu quarto, levava um violão, a gente bebia vinho, fumava uma coisinha. Rolava tudo, tinha um filhinho muito lindo, Kiko, mas foi uma amizade ligeira. Por acaso, ele disse que ia me dar um tema para uma música”. O tema do poeta deu nome a um dos sucessos de Paulo Diniz, “Ponha um Arco-Íris na sua Moringa” (do álbum Quero Voltar pra Bahia, 1970).

“O contato com tantos talentos instigou Paulo Diniz a compor. Logo, ele encontraria o parceiro com quem assinaria hits como Pingos de Amor, Um Chope pra Distrair, Piri Piri e a citada Ponha um Arco-íris na sua Moringa: “Ele me viu na TV e um dia chegou perto de mim dizendo que tinha uma música. Gostei do que mostrou. O cara só andava com o violão na mão, fizemos primeiro Brasil, Brasa Braseiro, em 1967, tirando sarro. Ele morava perto do Palácio do Catete, Odibar Moreira da Silva, acho que o nome era uma mistura de Odilon e Baracira, a mãe dele, uma baiana, boa de cozinha”, lembra Paulo Diniz.”

O sucesso chegou para Paulo Diniz através das páginas do semanário O Pasquim, surgido em 1969, e que revolucionou a imprensa brasileira. Amargando a residência forçada em Londres, Caetano Veloso mantinha uma coluna no jornal, escrita no formato de cartas. Foi a inspiração para “Quero Voltar Para a Bahia”, parceria com Odibar, que Wilson Simonal quis lançar:

“Mas eu não dei. Fiz Um Chope pra Distrair, que achei caber na voz dele. Ele não gostou. Até pra me amostrar um pouco, toquei Quero Voltar pra Bahia, e ele pediu para gravar. Disse que aquela era minha, eu precisava de um sucesso”. Intuição que se provou acertada. Foi uma das músicas mais tocadas no Brasil em 1970, com dezenas de gravações. Com essa canção, ele levantaria a plateia do Maracanãzinho, em 1971, no Festival Internacional. Não concorreu, fez um show especial de abertura.

Curiosamente, Quero Voltar pra Bahia, mesmo referindo-se claramente a um artista persona non grata à ditadura militar, banido do país, não esbarrou na censura: “Quando ele voltou ao Brasil, nos encontramos perto do Teatro Opinião, acho que foi num show de Alceu. Ele tomando um cafezinho, num bar, em pé, e pergunta pra mim, quem fez Quero voltar pra Bahia, eu falei que fui eu. Ficou nisso, ele nunca deu bola pra mim”, comenta Paulo Diniz

(Caetano Veloso cantou Quero Voltar pra Bahia em 2014, no Rio, durante show no Circo Voador, vídeo postado acima, e incluiu também a canção em vários shows recentes, sempre fazendo citação elogiosa a Diniz. Em 1971, ele a gravou em seu primeiro disco no exílio em Londres a canção If Hold a Stones, na qual cita versos de I Want To Go Back To Bahia).

Se com Caetano Veloso ele ainda trocou algumas palavras, Paulo Diniz nunca sequer viu o poeta Carlos Drummond de Andrade, autor de José, musicado pelo pesqueirense, que batizou a canção como ‘E Agora José?’ (verso inicial do poema), que também deu nome ao LP (de 1972). Paulo Diniz até hoje não sabe se Drummond aprovou ou não o uso de “José”: “Li uma vez, num jornal do Rio, ele dizer que não conseguia mais ler o poema sem se lembrar da melodia”.

Com o poeta, de Palmares, Juarez Correya, ele assinou a maioria das faixas de Estrada (1976), o penúltimo pela Odeon, e que fechou a série de sucessos nacionais de Diniz. A Odeon só lançou em CD o álbum de 1970, os demais são raridades em vinil, que nem o artista tem. Ele diz que pretende gravar disco de inéditas, cita DJ Dolores e o Maestro Forró como parceiros com quem gostaria de trabalhar. Não é muito de pensar no passado, não que se arrependa do que fez ou deixou de fazer.

“Ganhei muito dinheiro, gastei tudo, com champanhe, mulheres. Não me arrependo. Se tivesse com muito dinheiro agora, de que me serviria?” (Com informações de Folha de SP, Diário do Centro do Mundo e JC Online-PE)

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