O ódio da moda é dos russos. Quem odeia outra coisa, odeia errado

Por Airton Centeno*

Odiar não exige nem prática nem habilidade. Odiar é fácil. Não cobra esforço intelectual – pelo contrário, pensar pode atrapalhar o bom curso do ódio. Basta portar-se como uma esponja absorvendo todo o ódio que nos é ofertado. O ódio da moda é dos russos. Quem odeia outra coisa, odeia errado.
Temos excelentes professores desta disciplina que, aliás, não exige disciplina nenhuma. Parte das plataformas de mídia dos Estados Unidos – agências noticiosas, jornais, TV, filmes, rádios, livros, quadrinhos, sites – o melhor ódio encontrável no mercado. Dali esparrama-se pelo planeta. Não há quem explore melhor este filão, fazendo-nos mostrar a pior parte de nós mesmos.
Atingiu um grau de excelência graças ao fato de que cedo madrugou no ódio. Começou adestrando o público interno mas logo ganhou o mundo.
Seu primeiro grande momento tem mais de um século. Em 1915, o cinema estimulou os norte-americanos a odiar os negros. O Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith, é um clássico. Foi o primeiro filme exibido na Casa Branca. É também um dos filmes mais racistas jamais feitos.
Sua exaltação à Ku Klux Klan teve tal impacto que a sociedade secreta que odiava negros, judeus e comunistas ressurgiu com força. Nos anos 1930, odiava-se tanto que, no Sul, até os alunos das escolas eram liberados para assistirem os linchamentos. As vítimas não raro eram castradas e esfoladas até a morte. Vendiam-se postais com negros pendurados em postes e árvores.
Hollywood odiou tantos os índios que todas as crianças acreditavam que os peles-vermelhas eram os bandidos tanto que até escalpelavam os peregrinos. Só mais tarde nos contaram que a prática fora uma ideia dos brancos e que os índios apenas reagiram à maldade. A partir do final dos anos 1950, começa uma lenta reabilitação dos peles-vermelhas.
Veio a II Grande Guerra e russos e alemães viraram alvo preferencial do ódio. Em 1940, nas tirinhas da revista Look, o Super-Homem acabava com o conflito prendendo Hitler e Stalin. Mas aconteceu Pearl Harbour, os EUA entraram na guerra e os russos viraram aliados e amigos para – quase – sempre.
A vilania ficou por conta dos alemães e, sobretudo, dos japoneses. Era o “Perigo Amarelo”. Dentuços, olhos arregalados, traiçoeiros e de aparência repulsiva, os japoneses assim pintados nos gibis foram combatidos pelo Príncipe Submarino e o Tocha Humana. Na guerra também se alistaram Capitão Marvel, Tarzan, Mandrake, Flash Gordon e o Fantasma e outros heróis de papel. Com eles, partilhamos o mesmo ódio.
No Guerra Fria, os russos voltaram à moda com tudo. Os japoneses – que receberam duas bombas atômicas nas cabeças – viraram gente fina. O perigo mudara de cor. Agora era vermelho. É a cor mais temida – e odiada – em filmes como Red Menace (1949), Red Nightmare (1962) e Red Dawn (1984)
O medo da ameaça externa também foi instilado por criaturas quase tão medonhas quanto os russos. Nos anos 1950, as telas dos cinemas do Ocidente receberam uma invasão de seres de outros mundos, todos com a péssima intenção de destruir nosso modo de vida. Os alienígenas serviram como comunistas metafóricos. Tivemos, então, que odiar os extraterrestres porque, assim, odiaríamos os russos.
Como alvos alternativos do ódio pré-fabricado pela indústria cultural juntaram-se os chineses, os coreanos e os vietnamitas. Em 1960, os mexicanos entraram na linha de tiro no épico patriótico O Álamo, onde são exaltadas a virtude e a coragem dos estadunidenses na defesa do Texas, estado que roubaram do México. Mas o ódio alveja quem foi lesado.
Velho caçador de índios, John Wayne mandou-se para o Vietnã em Os Boinas Verdes, de 1968, tentando ganhar no cinema uma guerra perdida na vida real.
Top Gun, de 1986, acompanha Tom Cruise derrubando odiados Migs soviéticos. Em Rambo II, A Missão (1985), Sylvester Stallone segue os passos de John Wayne até o Vietnã para arrancar prisioneiros estadunidenses das odiadas garras vietnamitas.
Rambo fará algo ainda melhor. Em 1988, chegará ao Afeganistão para, ao lado dos mujahedin, tornar-se o terror dos russos. Ou seja, vai encarar os vermelhos tendo Osama Bin Laden como aliado.
Até então, os terroristas que, mais tarde tomarão o poder como talibãs, são gente como a gente.
Aos poucos, surge outro pessoal digno de ser odiado: os árabes. Em De volta para o futuro (1985) os líbios querem matar o herói. No ano seguinte, os palestinos e libaneses são os vilões em Comando Delta. Em True Lies (1994) terroristas árabes ameaçam Arnold Schwartznegger. Compromisso de Honra (2000) coloca soldados norte-americanos impondo respeito no Iêmen.
Também sobra para os latinos. Clint Eastwood desembarca com os marines na pequena ilha de Granada, no Caribe. É O destemido senhor da guerra (1986). Em Batman Ressurge (2012), o arquivilão é o hondurenho Bane.
Mudando um tanto o foco, Atrás das linhas inimigas (2001) caça os sérvios. É a guerra nos Balcãs.
Agora, os russos experimentam sua terceira onda de ódio. Tão vasta que cancela desde o balé Bolshoi a Dostoiesvski passando por Tchaikovsky e o estrogonofe.
Com Vladimir Putin sendo descrito como uma encarnação mais cruel de Darth Vader, esperem só o que aprontará Hollywood. Talvez até os nazistas voltem a ser legais.
 
*Ayrton Centeno é jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado.
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