Ucrânia e a ameaça americana na fronteira com a Rússia

Por Gabriel Rocha Gaspar

Com o fim da União Soviética, o Pacto de Varsóvia colapsou. Acabada a contraparte ao Leste, era de se imaginar que a Otan seguiria o mesmo rumo, certo? Washington pensou diferente. No pós-queda do muro, a Otan tornou-se efetivamente o instrumento imperial que mantém os “aliados” europeus vassalos de Washington. Por meio da Otan, os EUA praticamente controlam a política de defesa de países como França e Alemanha.

Os russos nunca foram trouxas e sabiam que o Império não abdicaria de um instrumento de controle desse porte. Por isso, exigiram à época do colapso que a Otan não se expandisse ao leste, incorporando Estados membros da antiga URSS. Reagan acatou a exigência e prometeu a Gorbachev que essa expansão não aconteceria. Antes que as mãos dos dois esfriassem, a Alemanha Oriental já era membro pleno. Menos de 10 anos depois, em 97, República Tcheca, Hungria e Polônia foram incorporadas.

Seguiram-se Albânia, Bulgária, Croácia, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Macedônia. Em 2020, jogando lenha na fogueira, a Otan passou a reconhecer Bósnia Erzegovina, Geórgia e Ucrânia como aspirantes a membros. Essa é a linha vermelha para Moscou.

Extrema-direita da Ucrânia é pró-nazista

E tem razão histórica pra isso: a extrema-direita ucraniana – que tem uma linhagem direta até o Euromaidan – foi a responsável pelos principais pogroms da segunda guerra. Não é a toa que foi a partir dali que o exército nazista invadiu o território russo, num movimento que causou a morte de 27 milhões de cidadãos soviéticos entre civis e militares. Existe um trauma histórico com nazistas de suástica em riste ameaçando aquela fronteira leste da Ucrânia. Gostem ou não do Putin, os EUA estão construindo uma ameaça naquela fronteira há três décadas.

O objetivo é simplesmente manter o controle sobre o abastecimento energético da Europa, o controle econômico da região e o consequente controle da política de defesa europeia. O gasoduto Nord Stream 2 é a gota d’água porque significaria a independência da Alemanha. A Rússia não depende desse projeto de infra-estrutura, mas a Alemanha, sim. Até porque a alternativa, infinitamente mais poluente e cara, é a importação de gás de xisto, adivinha de onde? Um sorvete pra quem falou Estados Unidos.

Agora, por conta desse histórico, a Rússia, com Putin ou sem Putin, não tem alternativa senão proteger o Donbass, que é 80% culturalmente russo. Não tem alternativa, como não tinha alternativa quando anexou a Crimeia, único porto de águas quentes próximo da federação, que esteve sob risco de tomada pelas forças nazistas de Kiev. O que podemos torcer não é para um lado ou outro, mas para a ação militar russa ser tão rápida e decisiva quanto foi na Crimeia.

Porque se essa guerra se estender, os dois lados (tanto a Otan quanto a Rússia) têm protocolos para o uso de armas nucleares. Uma ogiva de 500 kg seria o suficiente para matar mais de 100 mil pessoas em qualquer uma das duas capitais na primeira meia hora, colapsar o sistema econômico e sanitário. E os dois países têm mais de 1000 ogivas desse tipo cada um. Sabe o que 300 dessas poderiam fazer, atiradas em qualquer parte do mundo? Tapar a penetração de luz solar, extinguir todas as espécies desenvolvidas nos últimos 10 mil anos e colapsar a segurança alimentar do planeta, matando a humanidade de fome. Quem diz isso não sou eu, foi o nobel da paz de 1985, Dr. Ira Helfand, que presidiu a organização internacional dos Médicos contra a Guerra Nuclear.

Gabriel Rocha Gaspar é jornalista, foi correspondente na França para diversos veículos de mídia no Brasil e repórter na RFI, em Paris. É mestre em literatura pela Sorbonne Nouvelle Paris 3 e co-apresentador do podcast FRONTeiras.

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