CBF trata Série C como xepa

POR GERSON NOGUEIRA

Taça da Série C do Campeonato Brasileiro — Foto: Fernando Roberto/Ituano FC

Há quem veja motivo para comemoração na premiação definida para a Série C 2022. Avalio que os valores correspondem a pouco mais de uma esmola aos 20 clubes participantes – cada um deles ganhando uma cota de R$ 250 mil por participação. Até o ano passado, a coisa era ainda mais constrangedora: os clubes não ganhavam nada.

Desta vez, após forte pressão na acalorada reunião do conselho técnico, sexta-feira, a CBF concordou também em recompensar meritocracia na competição. Vai pagar um prêmio de R$ 400 mil ao campeão, R$ 300 mil ao vice, R$ 200 mil ao 3º colocado e R$ 100 mil para o 4º colocado. Além disso, campeão e vice ganharão um automóvel da Fiat.

Há um lado a ser considerado. A CBF nunca havia pago cota alguma a clubes da Terceira Divisão, embora tenha dado uma migalha (R$ 200 mil) a cada um em 2020 por conta da pandemia. No ano passado, a entidade fez dois aportes de R$ 200 mil como ajuda de custo, ainda devido à pandemia.

Para este ano, os clubes reivindicavam R$ 4 milhões de cota, caso se a Série C fosse disputada em turno e returno (como as Séries A e B). Como ficou definido que a competição será em turno único, queriam receber R$ 1,5 milhão de cota. Um valor mais compatível com as dificuldades vividas pelos clubes participantes.

Só para efeito de comparação, a Série B do ano passado pagou quase R$ 8 milhões brutos de cota para cada clube.

Ao liberar R$ 250 mil de cota para cada participante da Série C, além de mais 1 milhão de meritocracia em rateio, a entidade está disponibilizando um total de R$ 6 milhões para distribuir a todos os clubes, mais dois carros 0km – valor inferior à cota paga a cada clube da Segunda Divisão.

Por tudo isso, não é exagero dizer que a Série C é uma espécie de xepa entre as três divisões principais do futebol brasileiro e a CBF não faz a menor questão de disfarçar essa condição. Para uma instituição cujo orçamento anual gira em torno de R$ 1 bilhão, o que ela destina à Terceira Divisão é pouco mais que uma esmola.

Os 11 clubes que se dispuseram a enfrentar abertamente a má vontade da CBF, entre os quais PSC e Remo, demonstraram dignidade e coragem. Graças a eles, saiu esse agrado financeiro e o campeonato terá uma forma de disputa mais próxima do que se pode considerar justo.

Com formato definido em turno único, Remo e PSC escaparam da condição de principais vítimas da tabela (a partir de deslocamentos insanos caso ficassem no grupo do Sul-Sudeste). Os quadrangulares entre os oito primeiros também parecem menos injustos do que em anos anteriores.

No fim das contas, nem tudo ficou tão bom quanto poderia ser, nem tão ruim quanto normalmente era.

Leão entre a cruz e a caldeirinha

Contra o Itupiranga, neste domingo, em Parauapebas, o Remo tenta se aprumar no campeonato e se recuperar perante o torcedor. As duas primeiras apresentações deixaram uma impressão negativa do time dirigido por Paulo Bonamigo.

Sempre cabe ressaltar que o Remo é o time que mais tem respostas a dar neste Parazão. Tudo porque na edição passada, também com Bonamigo no comando, a equipe surfou na arrogância e acabou entregando de mão beijada um título que era dado como líquido e certo.

Foi tão confusa a campanha azulina que, mesmo invicto e com maior número de pontos, o Leão acabou alijado da decisão devido a um tropeço na semifinal diante da aguerrida Tuna.

Esse passivo continua a pesar na avaliação que o torcedor faz do time atual, com o aspecto agravante de que o rebaixamento da Série B ainda está muito vivo na memória de todos.

Em função de tudo isso, uma campanha decente é o mínimo a ser entregue à torcida, ainda mais com o rival batalhando pelo tricampeonato e com um elenco inteiramente renovado.

A partida contra o Itupiranga adquire ares ainda mais importantes porque o Remo vive situação incômoda no Grupo C, o grupo da morte, dividindo posição com Castanhal e Independente, todos com quatro pontos, e somente um ponto à frente do Caeté.

O retorno de Felipe Gedoz e a entrada de Ronald na lateral esquerda são as novidades da escalação, mas o modelo de jogo deve ser completamente alterado em relação às primeiras rodadas do Parazão. A conferir.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, a partir das 20h, na RBATV. Participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Em debate, as partidas da 3ª rodada do Parazão. A edição é de Lourdes Cézar.

Um clarão de consciência no reino dos alienados

Cria das divisões de base do São Paulo e um dos destaques do Ajax, Antony luta por uma vaga na Seleção Brasileira e foi autor de um golaço na vitória sobre o Paraguai (por 4 a 0), no meio da semana. Na comemoração, o garoto brilhou mais ainda.

Com lucidez rara para quem vive em meio aos alienados da bola, dedicou o gol ao jovem congolês Moïse Kabagambe, brutalmente espancado até a morte em um quiosque da Barra da Tijuca, no Rio. “Pra você, Moïse, nossos pensamentos com você e sua família”, disse Antony.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 05)

Um comentário em “CBF trata Série C como xepa

  1. Há algum tempo escrevi neste espaço sobre a conveniência de os jogos da Série C serem disputados no sistema de todos contra todos. Do jeito que a coisa se desenhava, um dos grupos poderia ser a Copa do Nordeste II, com inegável favorecimento aos times dessa região.

    Acho que os torneios envolvendo clubes profissionais devem ser auto-sustentáveis e deixarem de lado a excessiva dependência financeira dos promotores, no caso, federações e confederações. Isso envolveria mudanças radicais nas administrações de clubes e entidades promotoras e de mentalidade, inclusive de torcedores, imprensa e até de gestores públicos.

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