Elza Soares: a voz rouca e suingada de um Brasil que deu certo

Por Hugo Sukman – O Globo

E Elza Soares, que parecia eterna, se foi no mesmo 20 de janeiro de Mané, como ela chamava seu grande amor, que o mundo tratava de Garrincha. Como se fosse um drible (dele) no espaço-tempo. Ou como uma inventiva divisão rítmica (dela): uma síncope inesperada, o acento da voz rouca no tempo fraco, deixando a orquestra e o público como que suspensos, encantados num Brasil que deu certo.

Faz sentido que Garrincha e Elza tenham morrido no mesmo dia, e no dia do padroeiro da cidade que lhes serviu de palco. Se Mané foi as pernas (tortas) desse Brasil, Elza foi a voz. Igualmente torta. Ou melhor, rouca, a mais suingada das que já apareceram por aqui.

Em primeiro lugar, e sempre, foi a voz. Quando Elza chegou ao auditório da Rádio Tupi em 1953, mal-ajambrada no vestido da mãe gordíssima ajustado por alfinetes ao seu corpo magérrimo para concorrer nos “Calouros em Desfile”, o apresentador Ary Barroso não conseguiu segurar sua ironia: “De que planeta você vem minha filha?”. “Do planeta fome, seu Ary”, na primeira das infinitas respostas que precisou dar na vida até que a deixassem começar a cantar. E aí ela cantou e, a Ary e à plateia suspensos diante daquele Brasil improvável dando certo ali na frente deles, só restou dar a nota máxima e a primeira das muitas consagrações que Elza conquistaria pela voz.

Foi pela voz que, mesmo com uma música já velha de mais de 20 anos e marca registrada de outro cantor, Ciro Monteiro, Elza Soares surpreendeu a todos com sua versão quente e inventiva do samba “Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues, e tenha se tornado em 1959 estrela da música brasileira de uma hora para outra, logo na primeira gravação. Foi pela voz que em 14 insuperáveis discos gravados entre 1960 e 1970, Elza tenha estabelecido um estilo próprio, uma bossa negra que superava qualquer dicotomia, bossa como as mais modernas, negra como as mais telúricas. Ou vice-versa.

Foi sua voz que, anos 1970 adentro, foi ficando cada vez mais sambista, cantando macumbas e partido alto, lançando “Malandro”, de Jorge Aragão, mais uma vez revolucionária apresentando ao mundo a Geração Cacique de Ramos. Foi a voz que a salvou de sucumbir às dificuldades da vida cantando “Língua” de Caetano Veloso nos 80, até ser redescoberta por uma nova geração nos 90 e chegar no século XXI de novo como porta-voz das meninas e mulheres brasileiras, sobretudo as pobres e das periferias como ela, a dizer em samba diretamente aos homens que as violentam: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim/Cadê meu celular/Eu vou ligar pro um oito zero/Vou entregar teu nome…”.

Como curador, fui instado a encerrar uma história do samba. E quem me salvou foi Elza. Num filme ainda inédito para o MIS de Copacabana sobre uma História Social do Samba, o dilema de como terminar uma história imensa como a do samba – e sobretudo “social”, ou seja, da gente do samba – foi resolvida com Elza cantando “A voz do morro”, de Zé Kéti, linda, moderna, em preto e branco, improvisando ao final, “samba, eu sou o samba, samba, eu sou o samba”. E é mesmo.

Hugo Sukman é jornalista e escritor, autor de “Nara – 1964” (ed. Cobogó) e “Martinho da Vila – Discobiografia”

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