A festa chilena foi linda. E agora?

Por Carlos Alves

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O neoliberalismo sofreu seu mais duro golpe na América Latina com a vitória de Gabriel Boric ontem na eleição chilena. Mais até do que o triunfo da esquerda ba urna, derrotou-se um modelo econômico que era apontado pela direita como exemplar. A repulsa do povo chileno foi clara. Mas quem é Boric e como chegou, com apenas 35 anos, ao triunfo? Bem, para começar, Boric não é um quadro clássico da política.
Boric foi um dos líderes das manifestações estudantis de rua de 2011 que escancararam a desigualdade monstruosa da Educação chilena. O modelo imposto pela ditadura de Pinochet tornou o acesso à Saúde e boa Educação praticamente impossível aos mais pobres. O Estado ausentou-se de quase todas as suas obrigações aí.
Depois, Boric, filho de uma família de classe média para alta, optou pela vida parlamentar. Mesmo com a pouca idade, marcou a atividade pela defesa intransigente de causas identitárias e dos direitos humanos. Ao mesmo tempo, firmou-se como hábil negociador, o que sempre alimentou olhares de lado da esquerda ortodoxa.
Na verdade, Boric presidente era improvável. Para começar, entrou como zebra na eleição primária que a esquerda fez para escolher seu candidato presidencial. O favorito e tido como imbatível era Daniel Jadue, do Partido Comunista. A disputa interna era meio que uma formalidade, diziam quase todos, já que Jadue era bem mais popular. Boric surpreendeu e ganhou. Pausa necessária. A esquerda anos 60 no Brasil e, em publicações em rede social, insinuou fraude na eleição interna. Tão ridículo que Jadue e o PC chileno imediatamente assumiram a campanha de Boric.
O jovem presidente eleito tem quase uma obsessão sobre a luta pelos direitos das mulheres. O compromisso foi bem enfatizado ontem no discurso da vitória. É também, bem mais que a esquerda tradicional da América do Sul, militante das causas climáticas e pelo respeito às diversidades.
Boric é mesmo um sujeito fora do figurino tradicional. Recentemente, surpreendeu o Chile ao assumir que sofre de TOC e se internou 14 dias para tratamento psiquiátrico. Não escondeu o fato, pelo contrário. Na política internacional, também não veste o figurino tradicional da esquerda da região. Considerou a última eleição na Nicarágua uma “fraude” de Daniel Ortega e detesta Maduro. Recentemente, o presidente da Venezuela tuitou sobre o avanço do campo progressista no Chile, tentando se aproximar de Boric, mas levou uma voadora em resposta, apontando o desrespeito aos Direitos Humanos na Venezuela.
Boric tem compromissos claros para desmontar a herança de segregação social deixada pelo pinochetismo. Não terá tarefa fácil, no entanto. Provavelmente, a mais simbólica das perversidades, a Previdência, será um dos mais difíceis problemas para resolver. No Chile, a aposentadoria e seus benefícios são administrados por fundos privados, o que empurra para a pobreza e a miséria quase todos os trabalhadores que têm acesso às pensões. É o modelo de higienização social definitiva que Paulo Guedes sonha em implantar no Brasil.
A questão mapuche, povo originário, também exigirá solução. O Boric deputado sempre foi fiel defensor dos mapuches. A partir de março, terá a caneta na mão.
Mais até do que no Brasil, a riqueza chilena está concentrada em torno de 15 famílias de bilionários. Boric provavelmente vai introduzir alguma maneira de taxar essa turma e, assim, distribuir renda e acessos para quem precisa. Não será fácil. Afinal, o candidato fascista foi derrotado mas teve expressivos 45% dos votos. Não é pouco e mostra que o conservadorismo é ainda protagonista de relevo no Chile. De qualquer maneira, pode-se apostar que a vida política do Chile vai começar um período fascinante em 2022. Uma esquerda diferente, em muitos pontos importantes dúbia, vai assumir com um presidente de 35 anos a enorme responsabilidade de desmontar uma política econômica excludente. Tarefa para fortes. Viva Chile!

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