2022 terá carnaval?

Por José Marcos Araújo

Tenho lido nas redes sociais diversos textos questionando a realização do Carnaval em 2022 e até condenando as ações que estão sendo empreendidas para a retomada das festas carnavalescas. Algumas impregnadas de preconceitos contra a festa de manifestação cultural, outras preocupadas com a questão sanitária e outras apenas repetindo as vozes contra a sua realização. Em primeiro lugar é importante registrar que o povo que constrói o carnaval, em todo o país, somam centenas de milhares de pessoas que, em nenhum momento fizeram qualquer mobilização para que a festa popular se realizasse em 2021, sem que as condições sanitárias permitissem. Com toda a dificuldade que uma decisão dessas traz, as entidades Escolas e Blocos acataram a orientação da ciência e mesmo com fortes prejuízos financeiros para às instituições e para os profissionais que fazem e vivem do Carnaval, suspenderam os ensaios, a produção, os folguemos e o desfile do ano passado.

Como diz a canção “eu não brinquei e você também não brincou. Aquela fantasia que eu comprei, ficou guardada…”. É importante esclarecer que o carnaval não é apenas o ou um desfile. São dezenas de milhares de pessoas que tem no evento a sua manutenção econômica. São os artesãos, as costureiras, os músicos, os sapateiros, ferreiros, decoradores e uma dezena de categorias de profissionais que sofreram o desemprego em uma atividade que além de econômica, envolve empatia e amor.

O objetivo de todos, carnavalescos, engenheiros, operários, comerciários e toda sociedade é que possamos realizar a vacinação de todos, que possamos respeitar e aplaudir a ciência, seus ensinamentos e importância, para que possamos superar o quadro que já nos arrancou mais de 611 mil pessoas, mortas pela pandemia e pela negligência de quem optou por caminhos que não nos protegeram. Nossa busca é, superado esse quadro dantesco, posamos ir reorganizando a vida social, adequada às lições desse mal, que deixará obrigatoriamente mudanças de paradigmas de respeito a higiene, ao meio ambiente, à ciência, onde objetos como máscaras e álcool gel deverão permanecer em nossas vidas.

Hoje (14/11), com cerca de 73,56% da população parcialmente imunizados (156.918.899 pessoas). E, com 58,78% da população está totalmente imunizada (125.380.340 de pessoas). E a dose de reforço foi aplicada em 11.948.110 pessoas, ou 5,6% da população. São esses números que levaram a redução dos números de óbitos causadas pelo Covid19 e que está orientando as decisões de retomada das atividades econômicas.

Os bancos começam a retomar o atendimento pessoal, as casas comerciais ampliam os horários e regras de funcionamento, os restaurantes, as casas de eventos, jogos de futebol e outros eventos esportivos e sociais. Porque será que apenas o carnaval está fadado a se manter silente, imobilizado? Isso nos faz lembrar a época, não tão longínqua, até meados do século XX, onde a simples posse de um instrumento de percussão, como um tamborim era motivo de perseguição e até cadeia para seu portador, que logo era acusado de vagabundagem é chamado de bandido.

São muitas as histórias como do sambista João da Baiana (1887-1974), que enfrentou problemas com a polícia por andar com seu pandeiro pelas ruas do Rio de Janeiro, quando a polícia apreendia o instrumento como prova da “vadiagem” do compositor. Mesmo que o samba hoje seja um dos mais populares ritmos brasileiros, já sofreu muita perseguição, por sua origem racial, onde aos negros era negado os direitos de acesso a felicidade.

Desse “mal” sofreu também a capoeira, o rap e o funk. O professor de Direito Penal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Reinaldo Santos de Almeida, em entrevista recente à BBC News Brasil, afirmou ser “indissociável” a relação entre a perseguição ao samba e o racismo. “A perseguição no início do século passada é tão racista quanto o sistema de justiça criminal brasileiro, cujo critério determinante é a posição de classe do autor, ao lado da cor de pele e outros indicadores sociais negativos, tais como pobreza, desemprego, falta de moradia”, disse ele, cujo doutorado abordou a criminalização do samba.

Segundo Almeida, sambistas não eram enquadrados apenas quando portavam instrumentos, mas também quando tinham calos nos dedos ou fossem flagrados em rodas de capoeira. Até o formato de desfile nas avenidas, pelo Brasil afora, após a criação das escolas de samba, foi uma forma de controle do estado, com aplicação de regras e regulamentos para o desfile, substituindo os “entrudos”, formato popular até então, o para “conter as classes perigosas e as massas populares nas ruas da cidade”, afirmou Almeida. Não queremos realizar o desfile oficial de carnaval, as rodas de samba e botar os blocos na ruas de forma irresponsável, mas não aceitamos que sejamos o único ou o último segmento que irá ter a concessão de retomar as ações, por causa de nossa origem, de cor ou de classe.

Queremos vacina, queremos ciência, defendemos a vida é os cuidados sanitários, queremos que o samba e o carnaval possa buscar as condições de realizar esse tributo respeitoso à cultura, até em homenagem a todos os trabalhadores do samba que – não foram poucos – perdemos para o genocídio atual. José Marcos de Lima Araújo Bancário, aposentado e benemérito do Império de Samba Quem São Eles.”.

2 comentários em “2022 terá carnaval?

  1. O texto parece ter sido elaborado antes das últimas notícias vinda da Europa, com aumento de casos de Covid, principalmente na Alemanha, e da África, com o surgimento de nova variante do vírus, que aparenta ser mais perigosa que as já conhecidas. Misturar coisas como veto ao Carnaval por questões sanitárias, em um país com índice de imunização da Covid abaixo do recomendado, com preconceito por ser uma fasta popular parece um pouco forçado. Há quase dois anos trabalhadores, empresários e população em geral sofrem as agruras financeiras em consequência da pandemia e não só o carnavalesco e demais envolvidos na festa de Momo.

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  2. Nossa, complicado falar disso, ne ?? adoro carnaval, sempre desfilo, mas desde a pandemia fica muito dificil fazer prevalecer nossas vontades. Sinceramente acho que vou ficar mais uma ano longe,,,,,,

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