Marília Mendonça, rainha da sofrência, não soube o que é o fracasso

Por Gustavo Alonso, na Folha SP

Ao narrar a vida das mulheres, cantora foi cabeça do feminejo e já era o maior nome da música sertaneja havia alguns anos

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O último post do Instagram de Marília Mendonça foi um vídeo em que ela brinca sobre a diferença entre expectativa e realidade de se fazer shows em Minas Gerais. O vídeo abre com ela se encaminhando para o avião, com mala e violão a tiracolo. Sua expectativa –pão de queijo, cachaça, queijo canastra e feijão tropeiro. Em seguida, a realidade da estrela da música nacional –a chata viagem, com malhação e alimentação insossa e dietética.

Não era possível cogitar que a realidade seria tão triste. O avião em que Marília Mendonça voava caiu na tarde desta sexta-feira em Piedade de Caratinga, em Minas Gerais. Mendonça não sobreviveu. Aos 26 anos, seu nome se une a outros da música que morreram tentando ir “aonde o povo está” –Gabriel Diniz, Mamonas Assassinas, Carlos Gardel, Ritchie Valens, Buddy Holly, Glenn Miller, Otis Redding, John Denver, Stevie Ray Vaughan.

A morte no auge aumenta a dor dos fãs. Diferentemente de Gabriel Diniz, morto em 2019, a carreira de Mendonça tinha bem mais que um grande sucesso. E, ao contrário de Cristiano Araújo, morto em trágico acidente automobilístico em 2015, a trajetória de Mendonça não estava mais em ascensão. Ela já havia atingido o topo. Mendonça era a rainha da música brasileira, a rainha da sofrência.

Marília Mendonça tinha mais seguidores no Spotify do que os Beatles. São 36 milhões o número de seguidores no Instagram, 4 milhões a mais que a poderosa ex-BBB Juliette. Mais do que números, Mendonça mudou a face da música sertaneja, hoje a grande música popular do Brasil. Honra máxima na música brasileira, Mendonça recebeu duas citações de Caetano Veloso em seu mais recente disco. Agora, na sua morte, Lula – e também Bolsonaro – publicou um post se declarando sentido pela morte da cantora.

Mendonça faz parte da corrente que se convencionou chamar de feminejo – artistas mulheres que tomaram para si o ato de cantar em primeira pessoa os dramas compostos em grande parte por elas mesmas, como Maiara e Maraísa, Simone e Simaria, Naiara Azevedo e Paula Mattos. Mas sobretudo Mendonça. Ela era incontestemente a artista mais reconhecida não só do subgênero mas de toda a música sertaneja há alguns anos.

Marília Mendonça não conheceu o fracasso. Isso é raro, especialmente entre artistas iniciantes. Roberto Carlos gravou discos sem sucesso algum antes de se tornar rei. Elis Regina gravou três discos sem qualquer repercussão de seu enorme talento. João Gilberto cantou com vozeirão sem nunca ter tido sucesso antes de se tornar um dos criadores da bossa nova. Os Beatles foram rejeitados pela gravadora Decca antes de se tornarem o mito que se tornaram. Zezé Di Camargo penou na carreira, em dupla e solo, antes de acertar com o “É o Amor”.

Mendonça foi precoce. Aos 12 anos já compunha. Aos 15, um conhecido a apresentou a Wander Oliveira, do escritório da Work Show, que se tornaria seu empresário. Oliveira gostou do que ouviu, mas achava que dava para melhorar. Contratou a jovem para fazer parte do batalhão de compositores que trabalham na lógica industrial dos escritórios sertanejos de hoje em dia. Nas palavras de Mendonça, “nos tornamos abelhas-operárias”.

Ela se tornou então proletária da canção. Além de viver a desigualdade do showbusiness na pele, conheceu a relação machista de perto. Suas músicas eram fornecidas a vários artistas homens –”Calma” foi cantada por Jorge e Mateus; Cristiano Araújo cantou “É com Ela que Eu Estou”. Wesley Safadão, Henrique e Juliano, Matheus e Kauan, João Neto e Frederico também cantaram canções suas. Segundo sua parceira Maiara, “ninguém acreditava no meio que mulher virava sucesso”.

Começou a ganhar dinheiro próprio aos 17 anos, quando pingaram em sua conta corrente os primeiros direitos autorais. Até os 18 foi só uma compositora requisitada. Desde que começou sua trajetória de cantora, arrolou uma sequência de sucessos que a tornaram um fenômeno.

Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso –Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha).

Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a muitos. Ela se tornava também bela para o mercado. Mas definitivamente não foi isso que o Brasil viu nela.

Nascida em Goiás, Mendonça era a cara do Brasil. Mas de um Brasil que mostrava novas caras a partir de meados dos anos 2010. Ela cantou a versão da mulher traída, como o fez em seu maior sucesso, o bolerão onipresente “Infiel”. Mendonça cantou a amante em “Como Faz com Ela”, esse personagem tão discriminado numa sociedade em que o matrimônio ainda é visto como algo sagrado –”Tudo o que eu preciso/ É saber se você faz amor comigo como faz com ela/ Se quando beija morde a boca dela/ Fala besteira no ouvido, como faz comigo”.

Em “Amante Não Tem Lar”, Mendonça vestiu em primeira pessoa a renegada. Com Felipe Araújo, cantou “Amante fiel” –”Amante fiel/ Esse nosso compromisso não depende de um anel/ Somos presos por esse nosso relacionamento aberto/ Nem preciso me chamar, eu vou estar sempre por perto”.

Longe de ser convencional, Mendonça cantou também a prostituta em “Troca de Calçada”. “Se alguém passar por ela/ Fique em silêncio, não aponte o dedo/ Não julgue tão cedo/ Ela tem motivos pra estar desse jeito/ Isso é preconceito/ Pra ter o corpo quente, eu congelei meu coração/ Pra esconder a tristeza, maquiagem à prova d’água/ Hoje você me vê assim e troca de calçada/ Só que amar dói muito mais do que o nojo na sua cara.”

A prostituta já havia sido personagem abordada em diversas canções da música brasileira. Da “Geni” de Chico Buarque à “Bailarina” de João Mineiro e Marciano e à amante por quem Odair José ia largar tudo em “Eu Vou Tirar Você desse Lugar”. Mas quando alguém cantou em primeira pessoa sua voz?

Ao narrar a vida das mulheres atuais, Mendonça também aderiu ao feminismo massivo que se espalha em diversas frentes na sociedade brasileira. Em “Supera”, ela cantou afinada ao discurso de autoajuda da militância feminista atual, buscando “positivar” a mulher que deseja novos relacionamentos fortuitos. “Para de insistir, chega de se iludir/ O que você tá passando, eu já passei e eu sobrevivi/ Se ele não te quer, supera.”

Mendonça era também a cara do Brasil nas suas contradições. Afirmava a poética da autoaceitação, mas aparentemente teve que mudar sua imagem e emagrecer ao longo dos anos de showbusiness. Em 2018, ela participou brevemente do movimento #EleNão contra Bolsonaro. Sofreu uma onda de críticas de seu meio, em grande parte simpático ao então candidato de direita. Mendonça então tirou o time de campo e pediu desculpas por se pronunciar politicamente. Em live de agosto do ano passado, fez uma brincadeira maldosa com um músico de sua banda que teria saído com uma transexual. Pediu desculpas em seguida nas redes sociais.

Um dos seus maiores sucessos comerciais e de público foi o disco “Em Todos os Cantos”, gravado ao vivo. Nele, Mendonça fez aquilo que Milton Nascimento já tinha recomendado e foi aonde o povo estava. O DVD do show foi gravado nas 27 capitais brasileiras. Diversas cidades, mas o mesmo público ensandecido com a cantora que, no começo, parecia feita para ficar nos bastidores. Mas que foi além.

Sua morte teve o amargo “suco de Brasil” de 2021, época de aberrações e fake news –enrolações e disse-me-disse da assessoria da cantora (que chegou a afirmar que ela estaria viva no hospital), transmissão ao vivo em rede nacional da retirada dos corpos do avião, programas policiais de fim de tarde especulando causas sem qualquer prova concreta.

Houve até boatos negacionistas de WhatsApp dizendo que o piloto teria se vacinado contra a Covid e por isso passara mal, causando a queda da aeronave. Em sua estupidez, a morte sempre ilustra a vida que vivemos. Marília Mendonça, em sua breve vida, forjou uma nova sensibilidade para a música popular massiva brasileira, tocando milhões de corações. Todo mundo vai sofrer.

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