O silêncio por testemunha

POR GERSON NOGUEIRA

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Como o PSC agarrou-se à medieval “lei do silêncio” como estratégia para sanar seus problemas internos, são precárias as informações sobre a preparação do time para enfrentar o Botafogo-PB neste domingo (18h), em João Pessoa. Sabe-se, porém, que os bicolores terão duas baixas importantes: o meia José Aldo e o centroavante Danrlei, ambos lesionados.

As baixas acrescentam dramaticidade a um cenário já naturalmente complexo para o projeto de acesso à Série B. O técnico interno Wilton Bezerra, que assumiu o comando após a demissão de Roberto Fonseca, terá que encontrar soluções para o apagão defensivo visto diante do Ituano na rodada passada.

Ao mesmo tempo, Bezerra precisa formatar um time minimamente ofensivo para buscar a vitória, único resultado que interessa ao PSC a esta altura da disputa. Derrota ou empate sela a eliminação do Papão antes mesmo da rodada final do quadrangular da Série C.

A defesa não muda. Perema e Denilson no centro e Leandro e Diego Matos nas laterais. As coisas começam a ficar nebulosas quando se fala de meio-campo, onde ninguém sabe ao certo qual a formação definida por Bezerra: Paulo Roberto, Ratinho e Ruy ou Paulo Roberto, Marino e Jonathan.

Sem Rildo, que pediu as contas amedrontado pela selvageria das facções organizadas, o ataque deve ter Marlon, Grampola e Luan Santos. São poucas as variações possíveis e, acima dos nomes, o que importa é como o PSC pretende batalhar pela vitória sem se descuidar do setor defensivo.

Em tempo: a história do futebol moderno registra somente um caso bem-sucedido de lei do silêncio. Foi em 1982, quando a seleção da Itália decidiu não dar entrevistas durante a Copa do Mundo disputada na Espanha. Paolo Rossi e seus companheiros estavam irritados com o noticiário ácido da mídia italiana em relação ao time de Enzo Bearzot.

O técnico bancou a causa, prestigiou os jogadores e extraiu deles o melhor possível. Sob descrédito geral, a Azzurra eliminou o favorito Brasil de Telê e avançou rumo ao título da Copa. Não se pode dizer que tenha servido de inspiração para a mordaça de jogadores e técnico do PSC, mas é fato que esse tipo de ação nem sempre tem final feliz. 

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa deste domingo, a partir das 22h30, na RBATV. Destaque para as séries B e C e Copa Verde. Valmir Rodrigues e este escriba de Baião participam dos debates. A edição é de Lourdes Cézar.

Insultos racistas e homofóbicos são intoleráveis

Um novo caso de injúria racial estourou na Série B. Desta vez, o alvo foi o atacante Jefferson, do Remo, chamado de “macaco” por um torcedor do Cruzeiro, no estádio Independência, em Belo Horizonte. O jogador comemorava o segundo gol remista e as imagens ganharam de imediato as redes sociais.  

Não é um caso isolado, como muitos pensam. Xingar alguém em função da etnia ou orientação sexual tornou-se mais comum do que deveria, desde que a sociedade brasileira passou a conviver diariamente com o ódio e a discriminação, fomentados por quem deveria lutar para contê-los.  

O ato contra Jefferson foi imediatamente denunciado à CBF pelo presidente do Remo, Fábio Bentes. A imagem de vídeo capta os gritos, mas não mostra o rosto de quem insultou o atleta, mas as câmeras do estádio podem facilmente identificar o torcedor.  

Atento aos riscos de uma punição – como ocorreu com o Brusque em relação ao jogador Celsinho, do Londrina –, o Cruzeiro pediu desculpas públicas a Jefferson e ao Remo, posicionando-se contra o comportamento do torcedor e afirmando que fará o possível para identificar o agressor.

Aliás, vem de Minas Gerais também outro caso que expressa bem esses tempos de intolerância. O jogador de vôlei Maurício Souza, do Minas Tênis Clube, foi demitido por causa de comentários homofóbicos nas redes sociais dirigidos a uma HQ do Super Homem.

Maurício, negacionista e apoiador de Jair Bolsonaro, direcionou sua metralhadora giratória contra uma cena de dois homens se beijando numa história em quadrinhos. Para ele, e alguns defensores da mesma causa, manifestar esse desagrado constitui liberdade de opinião.

Não é. Declarações homofóbicas e discursos de ódio constituem crime, conforme legislação vigente desde 2019. Para os especialistas, as palavras têm o poder de abrir caminho para formas de violência mais profundas.

A lei avacalhada pelo “comum acordo”

Como tudo no Brasil, a norma implantada neste ano de limitar a demissão de técnicos nas Séries A, B e C já foi olimpicamente avacalhada. A ideia era disciplinar o setor e evitar o festival de mudanças de treinadores. Foi adotada a regra de que cada clube só pode fazer uma troca de técnico durante a competição. Se um segundo treinador for dispensado, o clube terá que efetivar alguém que já esteja registrado pelo clube junto à CBF.

Os espertos, porém, bolaram logo um truque para burlar a lei. Criou-se a figura da rescisão de “comum acordo” para mascarar demissões. Mesmo em casos óbvios de dispensa do profissional, o clube anuncia que tudo foi feito de forma amigável, o que permite contratar outro técnico.

Alguns técnicos – como Felipe Conceição em relação ao Cruzeiro – se rebelaram e contestaram a potoca. Outros admitem, sigilosamente, que foram demitidos, mas tiveram que concordar em assinar um termo de conciliação para que a diretoria pudesse chamar novo treinador.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 31)

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