A primeira viagem a gente nunca esquece*

Por Heraldo Campos (*)

A primeira viagem a gente nunca esquece. Principalmente uma viagem feita depois de quase dois anos passados dessa pandemia do coronavírus que está longe de acabar. Mesmo tendo que enfrentar práticas normais, como pegar vários ônibus, para chegar num destino de quase 700 km de distância, dessa vez foi acrescentado o ingrediente de que não podemos vacilar e muito menos deixar de usar máscara, ainda mais nos ambientes coletivos dos ônibus intermunicipais.

Assim, o meu relato de viagem começa quando saí de Ubatuba para Ribeirão Preto, para resolver umas pendências pessoais, para aquela região que um dia foi chamada de a “Califórnia Brasileira” e que, por causa da queimada da palha de cana, muito incomodava seus moradores em boa parte do ano. O ar carregado pela fuligem das queimadas, associado ao ar seco característico do clima da região, além de provocar transtornos respiratórios induziam o uso da “vassourinha hidráulica” para a limpeza dos quintais e calçadas, utilizando das nobres águas subterrâneas do Aquífero Guarani, responsável 100% pelo abastecimento do município.

A maratona rodoviária começa com minha saída da rodoviária de Ubatuba, ás 5 horas da manhã do dia 21 de setembro de 2021, terça-feira, com passagem de idoso no ônibus com direção a São Paulo. Depois de 3 horas e meia de uma viagem de 140 km de distância, desci na via expressa numa paralela à via Dutra, na frente de um hipermercado famoso, em São José dos Campos, as 8 e meia da manhã. Nessa parte da viagem o meu destino era ir ao médico fazer a quarta revisão dos ”tiros de laser” que levei na vista, para ajudar a baixar a pressão ocular, por causa de um glaucoma hereditário e crônico. 

Um pouco antes desse momento da descida, confesso que a pressão da vista deve ter subido, antecipadamente, quando ao perguntar para o motorista sobre o CTA (Centro Técnico Espacial), local como ponto de referência para a chegada em São José dos Campos, ele me disse que não conhecia essa conhecida instituição aeronáutica. Foi quando descobri que a rota do ônibus havia mudado e ele não mais passava na “porta” do CTA.

Mas, no final, acabou dando tudo certo. Depois da consulta, quando foi retirado um dos colírios, porque a pressão ocular abaixou, segui para a rodoviária onde dei uma empacada de 3 horas, porque somente tinha ônibus para Campinas às 2 da tarde. Aqui cabe uma pequena lembrança: durante a espera da minha vez de ser atendido me chamou a atenção o número de crianças pequenas sendo atendidas na oftalmologia. Seria demais especular que a vista dessas crianças pode estar sendo alteradas por causa do precoce uso de celulares e seus derivados? 

Seguindo a viagem, comprei na própria rodoviária de São José dos Campos, a passagem para Ribeirão Preto no ônibus das 6 da tarde. Cheguei na cidade 9 e meia da noite desci, como sempre fazia, no final da avenida do campo do Comercial (Comercial Futebol Clube, popularmente conhecido como “Bafo” e “Leão do Norte”) com a avenida do rio e subi a rua Lafaiete, na busca de um hotel. Acabei parando no alto de um hotel relativamente próximo do centro da cidade e do décimo andar do apartamento pude contemplar uma boa parte da “Califórnia Brasileira”.

Ventou na madrugada inteira e pouco consegui dormir porque a esquadria da janela chacoalhava sem parar e fazia muito barulho. Nessas menos de 24 horas que fiquei na cidade acabei, por sorte, não presenciando aquela nuvem de poeira com chuva, que acabou rolando nas cidades dessa região na semana seguinte. Após as incumbências domésticas resolvidas, ainda no meio da manhã, segui para a rodoviária para “estudar” o retorno para casa. Como ando de ônibus para cima e para baixo há muitos anos essa prática nunca foi difícil de fazer; o problema é que hoje com a pandemia cortaram um monte de horários de ônibus intermunicipais e as conexões acabam sendo um problema. 

Na rodoviária fui em todos os boxes possíveis para ver as conexões e acabei decidindo voltar por Campinas e São José dos Campos, novamente, porque tanto as rodoviárias quanto os ônibus estavam relativamente vazios nos trajetos que fiz até chegar em Ribeirão Preto. Porém, sabia que poderia dar uma empacada no meio da viagem e dei mesmo, por falta de conexão. Cheguei em São José dos Campos perto das 9 da noite e num outro ônibus fui para Taubaté, onde não tinha mais ônibus para descer a serra para Ubatuba.

Eram 10 da noite e me lembrei de um bar distante da rodoviária e que frequentava em Taubaté nos anos 90, quando trabalhei e morei na terra de Monteiro Lobato, mas que valeria a pena o deslocamento, tomar umas porque ninguém é de ferro e descobrir um hotel próximo para dormir. Deu certo, tomei uns “bombarniques”, comi um excelente bolinho de bacalhau e o dono do bar, um velho conhecido e amigo, acabou pedindo para um dos seus funcionários me levar de carro num o hotel das proximidades. 

No dia seguinte, peguei o ônibus Guará-Paraty, meu velho conhecido dos tempos que trabalhei e morei em Guaratinguetá, as 9 e 40 da manhã, e cheguei  em Ubatuba na hora do almoço. Como esse ônibus desce pela rodovia Oswaldo Cruz e tem um trecho de serra parecido com um “saca-rolha” a sua carroceria tem que ser mais curta para fazer as curvas na descida, quando não tem que dar uma pequena marcha a ré para dobrar algumas curvas extremamente fechadas. Detalhe: nesse tipo de ônibus, geralmente sem banheiro, para uma viagem de 90 km, as janelas abrem e aquele vento na cara, com o ar úmido da Serra do Mar, é impagável.

O trecho foi repetido, entre Ubatuba e São José dos Campos, para uma quinta consulta oftalmológica, depois de um mês. Dessa vez sem problemas para descer na frente do um hipermercado famoso mas, se não estou atento, o motorista iria somente parar o ônibus para minha descida chegando em outra unidade do hipermercado em São Paulo, pois ele havia entendido que era na “marginal” da via Dutra que eu iria desembarcar. Após a consulta, voltei a usar 2 colírios porque a pressão ocular subiu, novamente.

Dessa vez a volta para Ubatuba foi relativamente tranquila, sem muita espera nas rodoviárias de São José dos Campos e de Taubaté, para o embarque nos “pinga-pinga” que fazem esses trajetos, na via Dutra e na rodovia Oswaldo Cruz. Mas, o que chamou a atenção, o que retardava um pouco as paradas dos ônibus na beira da estrada, era que várias pessoas que iam embarcar não estavam usando máscara para subir no transporte coletivo. E não precisamos dizer que até o cidadão achar onde estava “escondida” a bendita da máscara, alguns minutos da viagem “franciscana” (com muitas paradas para embarque e desembarque) eram consumidos por essa “desatenção”.

Para encerrar, registro que mesmo tendo 67 anos e portador de 5 carteiras de idoso, de algumas companhias de ônibus, não consegui viajar, gratuitamente, em trechos da viagem apesar de vários ônibus estarem quase vazios, com menos de 1/3 de sua ocupação e com muitas poltronas disponíveis.  Por que essa situação não muda, com a oferta de poltronas disponíveis nos ônibus para os “velhinhos” que precisam viajar? No mais, sempre é bom lembrar que estamos no meio de uma pandemia e que todo cuidado é pouco, ainda mais nos coletivos urbanos ou intermunicipais. O uso de máscara é fundamental e como diz o outro “cochilou o cachimbo cai”.

*Heraldo Campos é graduado em geologia (1976) pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Mestre em Geologia Geral e de Aplicação (1987) e Doutor em Ciências (1993) pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo – USP. Pós-doutor (2000) pelo Departamento de Ingeniería del Terreno y Cartográfica, Universidad Politécnica de Cataluña – UPC e pós-doutorado (2010) pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo – USP.

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