Vitória escapa por detalhe

POR GERSON NOGUEIRA

Remo 0×0 Coritiba-PR (Lucas Tocantins)

Os técnicos costumam dizer quando a vitória não vem que só faltou a bola entrar. Nem sempre é verdade, obviamente. No caso do jogo Remo x Coritiba, ontem, Felipe Conceição tem toda razão em lamentar. Por detalhes, a vitória acabou escapando. O Remo fez por merecer, principalmente no segundo tempo, quando envolveu por completo o Coxa.

Aí o caro leitor há de perguntar: e o que faltou para vencer? Ao Remo faltou principalmente contundência ofensiva, que é a capacidade de transformar em chance real o que é apenas ensaio de perigo. Em muitos momentos, o time criou situações extremamente interessantes no ataque, mas faltava presença física na área.

Foi assim no 1º tempo, quando em escanteio cobrado por Mateus Oliveira a bola chegou a Lucas Siqueira embaixo da trave, mas o volante se atrapalhou por cima da trave, lance tipicamente para centroavante. Depois, Lucas Tocantins desviou à direita da trave de Wilson.

Além dessas tentativas, pouco igualadas pelo Coritiba em termos de ataque, o Remo lançou muitas bolas na área sem qualquer objetividade porque não havia ninguém capaz de desviar em direção ao gol.

Os problemas do Remo no 1º tempo nasceram da insegurança pelo lado esquerdo, onde Raimar se atrapalhou com as arrancadas do veterano Rafinha. Isso levou a trapalhadas, como quando o goleiro Tiago Coelho estourou uma bola com Igor Paixão, em lance que quase resultou em gol.

Sem o apoio dos laterais, o Remo careceu de maior presença no ataque. No meio, Marcos Junior, Artur e Lucas Siqueira não funcionaram outra vez. O excesso de falhas nas tentativas de alongar passes comprometeu a transição.

Mateus Oliveira, desligado no começo, melhorou na reta final da partida quando o Remo se lançou com mais intensidade ao ataque. Quando Felipe fez as mudanças habituais no 2º tempo, lançando Jefferson, Pingo, Gorne, Rafinha e Neto Moura, o time cresceu e encurralou o Coritiba.

Logo no recomeço da partida, Tocantins finalizou jogada de Mateus mandando na trave do Coritiba. Foi a segunda grande chance remista na partida. Depois, Gedoz bateu colocado e a bola desviou para escanteio.

Com marcação adiantada, o Remo não permitia que o Coritiba saísse de seu campo. Rafinha apareceu bem em dois lances chutando com perigo e Gedoz passou a funcionar como um ponta-de-lança, apresentando-se para uma finalização que desviou na zaga e passou rente à trave.

O jogo terminou com a frustração pela falta de gols. No minuto final, um grande susto: William Alves ficou cara a cara com Tiago, mas o goleiro saiu bem do gol e evitou a derrota. Cenário típico das oscilações e surpresas que a Série B oferece.

Felipe defende modelo – que pode ser aperfeiçoado

Na entrevista pós-jogo, Felipe Conceição deu algumas explicações para a insistência com alguns jogadores que têm tido baixo desempenho – Lucas Siqueira, Artur e Marcos Junior. Observou que os treinos determinam as escolhas, o que é perfeitamente compreensível.

Disse, ainda, que o torcedor cobra alguns nomes, mas que a responsabilidade dele é com o funcionamento do modelo de jogo que o Remo pratica. Em resumo, algumas peças seguirão merecendo espaço, mesmo que se observe deficiência e um rendimento aquém do esperado.

Cabe apenas observar que é sempre possível aperfeiçoar o modelo, mesmo encaixado e responsável pela segura caminhada do time até aqui.

Poder da grana desequilibra disputa no continente

Que ninguém alimente ilusões patrióticas. A supremacia brasileira nos torneios continentais não é somente de ordem técnica. Acima de tudo, é um poderio de natureza financeira. A crise gerada pela pandemia enfraqueceu ainda mais a economia futebolística de países vizinhos. O futebol brasileiro sofreu também, mas em níveis mais brandos.

O dinheiro jorra fácil – embora parte dele não tenha origem muito transparente – para Flamengo, Palmeiras, Atlético-MG e até Corinthians praticarem pequenas loucuras, só aceitas neste momento em face dos êxitos alcançados na Libertadores e na Sul-Americana.

O fato é que, pelo segundo ano consecutivo, a Copa Libertadores terá uma final brasileira. No ano passado, Palmeiras x Santos. Agora, Flamengo x Palmeiras. Na Sul-Americana, outro embate brazuca: Atlético-PR x RB Bragantino. As duas finais serão em Montevidéu.

Pachecos e afobadinhos de plantão já se arvoram a saudar a hegemonia brasileira, como se fosse assentada em bases sólidas. O RB Bragantino é o único dos quatro clubes envolvidos nas decisões que cumpre um planejamento sério, tanto dentro de campo quanto fora.

Os demais têm muito a explicar e dificilmente resistem a uma pesquisa mais refinada no Google. O Flamengo, poderoso e de imensa torcida, lucra há uma pelo menos década com a vantajosa partilha das verbas de patrocínio, além de se beneficiar grandemente da boa vontade da Justiça – vide o caso Ninho do Urubu.

No lado palmeirense, as dúvidas são ainda maiores. A parceria com empresa que surfa na onda de empréstimos a altos juros tem prazo de validade. Ainda mais com a descoberta do bombástico escândalo Pandora Papers. Vale lembrar que, há três décadas, o Palestra quase foi à lona após a passagem do furacão Parmalat.

Hoje, o real vale mais que as demais moedas do continente, o que permite ao Atlético-PR ter o melhor jogador do futebol uruguaio e ao Galo ter o mais destacado meio-campista argentino e garante ao Palmeiras a proeza de contar com o melhor zagueiro do Paraguai.

Com grana, os principais clubes brasileiros importam veteranos que ainda dão um caldo – só no Brasil, obviamente – e ainda se dão ao luxo de tirar figuras importantes dos demais clubes do continente. Não há milagre, apenas realidade de mercado. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 05)

6 comentários em “Vitória escapa por detalhe

  1. Apesar de abominar boa parte dos atuais ocupantes de cargos de direção do Mengo, aqueles que rezam pela cartilha fascista, acho reducionismo infanto/clubísitco atrelar o faturamento rubro negro a eventuais mecenatos e cotas de patrocínio(televisivo?).
    Não é, assim como os resultados espetaculares ora alcançados não são obras apenas desses que não perdem a oportunidade de posar como ‘pais da criança’.
    O Flamengo é hoje marca mundial, seus produtos vendem aqui, acolá e em qualquer lugar onde habite um amante do futebol. Não por acaso, semana passada, as mídias rubro negras puderam comemorar a marca alcançada do faturamento de R$1 bilhão, este ano, apesar de ainda estarmos a três meses do fim deste exercício.
    Só com a venda de jogadores o Flamengo faturou quase o mesmo que recebeu de cota de televisão(R$144 milhões) este ano; a Fla TV alcançou mais de 3 milhões de espectadores na final do Campeonato Carioca, recorde absoluto no setor; um álbum comemorativo esgotou em horas, apesar do preço, enfim, hoje o Flamengo é um modelo de gestão totalmente diferente daquilo que se acostumou a ver no Brasil, a ponto dos atuais mandatários terem a noção exata da necessidade de andarem na linha, nem que essa retidão de comportamento ocorra apenas por malandragem.

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  2. Os mecenas do CAM e do Palmeiras estão encrencados no Pandora Papers. Os negócios do futebol brasileiro e mundial envolvem muita lavagem de dinheiro. O mais querido da imprensa movimenta valores absurdos em venda e contratações sem uma explicação plausível. Não à toa, esses clubes são os mais bem sucedidos aqui e agora parecem que vão dominar a América também.

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  3. Venda de camisas e outros badulaques não rendem o suficiente para pagar transferências e salários milionários de jogadores. Café pequeno, servem mais para manter acesa a paixão pelo clube e arrebanhar novos torcedores. Os clubes brasileiros ainda dependem muito da venda de ingressos, renda muito afetada nesses tempos de pandemia. A renda de sócios pagantes mensalistas é pífia. O câmbio desfavorável é outro empecilho na hora de adquirir, repatriar jogadores de fora do país e pagar os salários destes cotados em dólar. O São Paulo F. C., do rico futebol paulista, vive seu inferno astral com o caso Daniel Alves. O trivolor é o exemplo acabado da situação atual da maioria dos clubes do futebol brasileiro. Barcelona, Atlético de Madrid e Real Madrid tiveram que adequar seus orçamentos às regras da federação espanhola. São potências mundiais, com milhares de sócios pagantes, mas foram afetados pelos tempos bicudos atuais e tiveram de baixar a bola nas contratações e demais despesas. A consequência disso é a participação discreta desses clubes na atual Champions. Então, como disse um dia o economista e prêmio Nobel Milton Friedman, não existe almoço grátis. Há algo de podre no reino da Dinamarca e o segredo não vai durar cem anos como o da vacinação (ou não) do Bozo.

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    1. Chamar de badulaques vendas de centenas de milhares de camisas a 400,00 é brigar com os fatos, assim como colocar em dúvida de forma gratuita, sem nenhum fato comprovando, a venda de jogadores não passa de adoção mecânica daquilo que nos acostumamos a ver, porém, pelo menos por enquanto não é o caso presente do rubro negro.

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      1. Já que vc tem tanta certeza sobre as receitas auferidas por teu time apresenta o balanço contábil ou diz onde encontrá-lo para verificação. Ninguém viu até hoje tal balanço onde se apure as receitas e despesas de venda de jogadores, salários pagos, vendas de camisas e outros badulaques (badulaques sim, pois com certeza a receita disso não deve pagar o salário de um jogador figurão sequer durante um ano). Esse balanço deve mistrar ainda o quanto de dívida referente a impostos a pagar, previdência, justiça do trabalho, fornecedores, justiça comum (caso da morte dos meninos nas dependências do clube) e outras rubricas mais. Mas fique tranquilo, pois essa omissão não é exclusiva do teu time. A maioria dos times brasileiros não precisa mostrar balanço pra constatarmos a pindaíba em que se encontram, principalmente no momento atual pós-pandemia. Quanto a camisa de R$400,00 a unidade, certamente que muitos torcedores do teu time, que chamamos de massa, devem estar deixando de comer pra comprar a tal camisa. E pra quem é do ramo sabe que a parte do leão nesse comércio de camisas fica com o fabricante e o dono da marca.

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