O passado que não passa e o passado que encanta

Por André Forastieri

A queda de Dilma e a ascenção de Bolsonaro começaram, pensando bem, com a instauração da Comissão da Verdade. 

Os algozes jamais perdoaram sua vítima. Os torturadores jamais aceitaram uma torturada na presidência. Seguem não aceitando. E hoje têm mais poder que dez anos atrás.

Conversando semana passada com Marcelo Rubens Paiva, no nosso podcast, lembrei do texto abaixo. É do distante, saudoso, inocente 2012.  

Foi instaurada com toda a pompa a Comissão da Verdade. Com ex-presidentes que enfrentaram o regime militar, Lula e FHC. E Sarney e Collor, crias e cúmplices da ditadura, cujas presenças automaticamente achincalham a Comissão já no berço. Dilma, ex-guerrilheira, chorou na cerimônia.

O objetivo da Comissão não é a punição nem o perdão. O objetivo é descobrir a verdade.

Bem, a verdade está aqui perto da minha casa. A verdade é que Harry Shibata, médico legista da ditadura, é meu vizinho.

Shibata escondia as verdadeiras causas das mortes dos guerrilheiros. Assinava laudos explicando a morte sob tortura como atropelamentos, tiroteios, suicídios. O resultado foi não só mortos, mas mortos sem explicação – ou desaparecidos.

O caso mais famoso é a fraude do óbito do jornalista Vladimir Herzog, assassinado.

Um dos casos mais horríveis é o de Sonia Maria de Moraes Angel Jones. Depois de torturada, teve seus seios arrancados a alicate e foi estuprada com um cassetete. Shibata assinou o laudo dizendo que ela foi morta em tiroteio.

Mas ele não só encobria as ações da repressão. Ensinava os torturadores a não deixar marcas externas no corpo das vítimas, para que não pudessem ser acusados posteriormente. É um monstro.

Shibata vive tranquilo na Rua Zapara, 81, no bairro de Pinheiros, aqui pertinho. É enojante saber que essa pessoa anda pelas mesmas ruas que a minha família. É impensável o que vive a família de Marcelo Rubens Paiva. 

Ele soube esses dias que um dos responsáveis pela morte de seu pai, Rubens Paiva, mora na rua Marques de Abrantes, 218, Botafogo, Rio, onde Marcelo passa com frequência. É o general da reserva José Antonio Nogueira Belham, ex-chefe do Doi-Codi no Rio.

Marcelo, em sua coluna no Estadão, promete jamais desviar do seu caminho. Vai passar na rua onde vive tranquilo o militar que tem o sangue de seu pai nas mãos. Quer justiça, não vingança. É um homem bem melhor que eu.

Há um movimento, chamado Levante, que promove manifestações de esculacho a estes bandidos impunes. Já aprontou umas boas.

No último dia 14 de abril, eles fizeram barulho em 14 cidades de 12 estados. Sempre apontando, apupando e humilhando acusados de torturar a mando da ditadura militar.

No Guarujá, denunciaram um dos responsáveis pela tortura de Dilma Rousseff, o capitão Maurício Lopes Lima, apontado pela própria presidente. 

O site do Levante tem tudo que se espera da esquerda estudantil convencional. Os meios que estão usando são bem atuais. Usam a grande imprensa e mídias eletrônicas a seu favor.

Temperam raiva com humor. Fazem o serviço que as instituições ignoram. É como se faz política em 2012, não com comissões empoeiradas.

Entre 1964 e 1979 foram feitas 1918 denúncias de tortura. Nenhum torturador foi a julgamento. Os números são apontados por Paulo Moreira Leite, que defende a Comissão da Verdade: “Não é revanchismo. Não tivemos uma guerra civil. Tivemos um massacre. Não deixaram o outro lado vivo para contar a história.” 

É importante que a Comissão da Verdade sirva para algo concreto. Prevejo resultados burocráticos. Um documento que renderá umas reportagens, não será lido por ninguém, e pouco efeito prático terá. Sou mais a turma do Esculacho.

Pelo menos a rapaziada constrange os torturadores, na frente dos vizinhos. Por mim, a rapaziada passa logo da gritaria para tacar ovo, tomate, e por que não, tijolo mesmo.

Os ex-torturadores hoje são velhinhos e só querem viver em paz? Pois que antes respondam pelos seus crimes de guerra. E se os tribunais do Brasil são de mentira, que sejam julgados na verdade das ruas. 

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(A Comissão da Verdade durou de 2011 a 2014. As ruas calaram. Os resultados foram burocráticos, e  estamos onde estamos. O registro histórico vale, sobrevive, não mente e inspira para o futuro. O relatório completo está aqui.)

ASSISTA

E reassista Luis Buñuel. Porque só o surrealismo explica nossa História de ontem e hoje, pois não? 

Este feriado teve sessão de “Tristana”, com a brilhante, hipnótica Catherine Deneuve e o irresistível anarquista Fernando Rey (“eu vivo mal, mas não trabalho”).

De “A Via Láctea”, episódico passeio por heresias importantes – ou desimportantes?

E de “Simão do Deserto”, ainda o filme sobre fanatismo religioso mais zoeira que você pode encontrar por aí.

Verás todos nesta caixinha. Tá fora de catálogo, mas tem no Mercado Livre

LEIA

“Burr”, o primeiro volume da épica heptalogia de Gore Vidal sobre sua América. A dos que mandam e seus asseclas, ideólogos, companheiros de jornada, construção e butim.

Gore levou 33 anos escrevendo a saga, com muitas outras aventuras, amantes, artigos, romances pelo caminho. Mudou de cabeça nestas três décadas, quem não? 

Vidal está fora de moda em todo lugar e, por aqui, de catálogo também. Se puder, leia em inglês. Se não te arriscas, o único caminho é a Estante Virtual.

Ele publicou os romances fora da ordem cronológica. Começou pelos anos 40, em 1967, “The Golden Age”, e regrediu para o começo da república em “Burr”, publicado em 1973.

Faço igual e diferente. Já li este ano “Lincoln”, “1876”, “Empire” e “Hollywood”. A prosa prazeirosa nos puxa pra dentro da História como ela é, interesseira, inspiradora, putanheira, patulesca – humana.

+

Mas antes de tudo, você precisa saber: que diabos acontece no seu cérebro quando você lê um romance

OUÇA

Andei ouvindo um álbum novo (pra mim) todo dia. Mas dei um tempo esta semana. 

É uma boa temporada para nostalgia – quando não é? – com o eterno retorno do Duran Duran. Agora ainda mais chique, com Graham Coxon, do Blur, na guitarra.

E temos Billy Idol, com seu primeiro single em sete anos. Uma música muito simples, muito tocante, muito Billy Idol. 

Billy está um vôzinho. Literalmente. Olha ele aqui babando pra netinha, Poppy Rebel

É reconfortante assistir este papo entre Billy, 65, e John Taylor, 61, talvez os roqueiros mais desejados de sua época, falando das baterias da infância, do reggae da adolescência…

John, grande baixista e grande figura, se distraiu na quarentena batendo papo no Instagram com gente assim – de Mark Ronson à eternamente irresistível Susannah Hoffs

THERE’S AN ORDINARY WORLD

E a gente se distrai gostosamente com ele. Que vive e sobrevive nos livros, filmes, músicas do passado – cada vez mais longo, mais rico, mais promissor.

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