O recuo do falso valentão

Por Gerson Nogueira

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E a montanha pariu um rato, como era de prévio conhecimento até das pedras que circundam os jardins do Palácio do Planalto. Bolsonaro é enrolão, misógino, mentiroso, sem caráter, fanfarrão, cínico. O que diz hoje, desdiz amanhã sem qualquer constrangimento. Inexistem traços morais básicos na figura. O país sabe disso. Seus apoiadores bovinos, também – embora até finjam o contrário. Aliás, muitos dos que o seguem mitificam-no justamente por vê-lo como espelho, gostariam de poder ser exatamente assim.

A conveniente cartinha de bons princípios parida sob os auspícios do golpista Temer, que se denomina um fino constitucionalista embora não passe de um arcaico repetidor de clichês, nada mais é do que a expressão da personalidade de Bolsonaro. O que Temer rabiscou ali é tudo o que o miliciano não crê e nem pretende fazer. Em dois dias, no máximo, voltará a brandir ataques rasteiros a instituições e autoridades.

Sempre foi assim, desde que ainda era um recruta desajeitado e dado a faniquitos (há relatos de ex-amigos de caserna). Assim que se considerou pronto para desafiar a hierarquia castrense, lançou mão de retórica rasa para arrebanhar apoio. O ponto culminante dessa escalada foi o plano para explodir um gasoduto no Rio. Descoberta a trama terrorista, foi expulso do Exército, embora sob o manto de um quase honroso desligamento, como costumam ser os arranjos nos quarteis.

Portanto, o golpista contumaz vai seguir acreditando na possibilidade de subverter as normas e leis. Não se adequa a elas, sente-se mais confortável no papel de franco-atirador – não por acaso, cultiva a imagem da arminha sempre mirando inimigos imaginários. O recuo tático visa apenas abrandar a ira legítima do Supremo, mas ninguém de bom senso acredita naquelas linhas mal traçadas.

A nova falácia é a construção da narrativa do “acordão” para justificar a meia-volta que o falso valente viu-se obrigado a fazer diante da forte reação aos seus chiliques no 7 de Setembro. Na real, a mansidão aparente tem a ver com o medo dos julgamentos que se avizinham mirando os filhos malfeitores. Não há como impedir que venham a ser condenados por malfeitos, os fios desencapados estão todos pelo caminho.

Apesar do medo pelo que pode recair sobre os filhos, Bolsonaro logo voltará a bravatear e soltar palavras toscas para açular suas falanges. Sabe que o alcance de sua influência está minguando, mas a verborragia tosca é um tique irrefreável e sem controle. No fundo, desespera-se com o cenário já desenhado. A reeleição é algo cada vez mais distante no horizonte. Até lá, vai seguir martelando na ideia de um golpe no qual só ele põe fé. Os cúmplices dessa fantasia continuarão por perto, como moscas, mas até eles logo perceberão que o “mito” é um engodo.

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