Aprendizado de mão dupla

POR GERSON NOGUEIRA

Thiago Ennes volta a treinar com bola no Remo — Foto: Samara Miranda/Ascom Remo

De vez em quando, aparece alguém dizendo que o Remo precisa aprender a conviver com o modelo singular de disputa da Série B, com sua tabela apertada, jogos que se repetem a cada três dias e um batalhão de jogadores lesionados por semana. É verdade. O clube teria que se preparar bem para uma disputa diferente de todas que encarou nas últimas décadas. Está pagando o preço de uma certa inexperiência, principalmente quanto ao planejamento e ao perfil das contratações.

A frequência de contusões e suspensões põe à prova a qualidade do elenco. Recentemente, o time ficou sem seus laterais titulares, Tiago Ennes e Igor Fernandes. Perdeu há quatro rodadas o principal zagueiro, Romércio, e o melhor meia de ligação, Erick Flores.

As baixas se sucedem e muitas vezes quando dois jogadores voltam do DM, outros tantos desfalcam a equipe, como Lucas Tocantins (lesionado) e Kevem (suspenso), baixas do jogo com o Brasil de Pelotas. Para o jogo contra o Botafogo, Tiago Ennes volta e Fredson, há muitos jogos afastado, reaparece para refazer dupla com Rafael Jansen.  

Diante desses contratempos típicos da Série B, é importante observar que o aprendizado em relação à competição não deve ser uma preocupação apenas do clube, mas dos torcedores também. Até a maneira de torcer sofre mudanças numa competição importante, a segunda do calendário nacional.

Todo mundo quer ver seu time campeão ou conquistando o acesso. Na Série B a ambição é chegar ao topo, alcançando a Série A. O torcedor precisa, porém, ajustar suas prioridades. De pouco adianta mirar a Primeira Divisão se o time não tem investimento e estofo para encarar uma competição tão difícil.

O mais sensato, no caso do Remo, é disputar a Série B com intenção de permanência. Sem as receitas proporcionadas por grandes patrocinadores, como ocorre com outros clubes, o Leão luta para continuar na Segunda Divisão e, a partir da estabilização, começar a planejar voos mais altos.

Boa parte da torcida não entende dessa forma e se inquieta com a oscilação característica de um campeonato de pontos corridos. Entende como acomodação a ideia de brigar por um objetivo mais modesto.

Algumas decisões de diretoria também geram reações fortes entre os torcedores. É o caso da parcimônia com que o clube tem buscado contratar. Acostumado às barcas de reforços de outros tempos, o torcedor custa a entender os cuidados que os gestores demonstram trazer novos atletas.

A responsabilidade é interpretada como incompetência ou falta de ambição. O processo é longo, mas educativo. Só o tempo vai clarear as coisas e mostrar que nem sempre o açodamento é a melhor política num campeonato seletivo e tão disputado.

Fascínio da Copa atrai veteranos e facilita negociações

A revoada rumo ao Brasil de jogadores que atuavam na Europa e Ásia já se tornou algo corriqueiro, quase tradicional, nos meses que antecedem uma Copa do Mundo. Em geral, são atletas em fase declinante da carreira, mas que acham que podem arranjar uma boquinha na Seleção Brasileira.

Às vésperas de 2010, 2014 e 2018, principalmente, vários veteranos marcharam em direção ao Brasil abrindo mão de possíveis acordos melhores no futebol estrangeiro. Agora, a coisa se repete de novo.

Daniel Alves foi o primeiro a voltar, assinando com o São Paulo para garantir (apesar da idade) um lugar no escrete. A escolha se mostrou acertada. Já ganhou a medalha olímpica e é cotadíssimo para ir ao Qatar.

Hulk, Renato Augusto, Diego Costa e Willian são os nomes mais badalados da estação. David Luiz também chegou a ser cogitado no Flamengo e no Corinthians. Outros ainda devem aparecer por aqui nos próximos meses.

Nem sempre o projeto dos atletas se mostra satisfatório em termos de resultados para os clubes, que investem alto para conseguir bancar estrelas caras para o nível salarial do futebol brasileiro.

No Galo, a importação de veteranos está funcionando. Hulk chegou e passou a comandar a artilharia do time. Diego Costa ainda está se recondicionando, mas deixou sua marca na estreia diante do Bragantino.

O Corinthians trouxe Renato Augusto e conseguiu a façanha de tirar Willian do rico futebol inglês, onde o meia-atacante ainda tinha mercado. Nas entrevistas, Willian caprichou nas declarações de amor ao Corinthians, mas é óbvio que a decisão de retornar tem muito a ver com a possibilidade de ficar mais próximo da Seleção de Tite.

É claro que muita coisa vai acontecer até a Copa, que será disputada no final do ano que vem, mas jogar futebol no Brasil sob os olhos do comandante da Seleção é sempre um trunfo importante, principalmente porque a chance de brilhar é grande em competições niveladas por baixo.

Fazendinha permanece onde é titular absoluto

Um camisa 10 é seguramente o maior sonho de consumo do PSC nos últimos anos. Situação que chegou ao limite da exasperação nesta edição da Série C. O time não consegue dar liga, cria poucas situações de gol, principalmente porque não tem um especialista para organizar as ações de meio-de-campo. Nos jogos fica visível a carência criativa da equipe.

Para agravar a situação, o único especialista existente no elenco não funciona. Ruy chegou para o Campeonato Paraense, mas até hoje não emplacou. Por força da necessidade, o clube voltou suas vistas para William Fazendinha, que faz excelente Série D pelo Castanhal.

Acontece que, mesmo tendo a opção contratual de sair, Fazendinha optou pelo Castanhal. Não explicou as razões, mas pessoas próximas garantem que pesou na decisão a vontade de lutar pelo acesso e o título da Série D, além do receio de virar ocupante do banco de reservas no Papão.

Fazendinha certamente considerou o fato de Danrlei ter sido barrado sem maiores explicações pelo técnico Roberto Fonseca, mesmo sendo notoriamente melhor que os demais atacantes que o PSC tem. Entre a titularidade inquestionável no Castanhal e as incertezas no Papão, não teve dúvidas na hora de decidir. Não se pode discordar da decisão dele.   

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 02)

2 comentários em “Aprendizado de mão dupla

  1. A decisão de permanecer no Castanhal foi a melhor coisa que Fazendinha fez.
    A presença de jogadores regionais nós elencos dos “gigantes” paraenses causam verdadeiras crises “alérgicas” nos técnicos oriundos de outras federações.
    O Paysandu, em particular, tem tido uma sina de contratar técnicos de currículos abaixo do regular, assim como, trazer jogadores de qualidades sofríveis que só servem para inchar a folha de pagamento.
    O Remo está com um grupo melhor qualificado e tem a certeza de manter-se na série B por mais um ano.
    O Paysandu mesmo classificando para a próxima fase já tem certeza de uma vaga na terceira divisão nacional, o time é fraco, os jogadores não têm compromisso com a instituição e da chave B os clubes estão num nível um pouco mais acima, tanto que são apontados como favoritos ao acesso.
    Vou aguardar o ” milagre ” acontecer, mas como Bicolor de Coração, este escrete que temos é o pior dos últimos cinco anos.

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  2. Pegando carona no comentário do xará Miguel, deixo ao Gerson a pergunta impertinente do dia: esses pseudos “reforços” que chegam semanalmente ao Paysandú, a maioria com 3 a 6 meses inativos, ou bichados, são para a disputa do Parazão/2022 ????

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