Como não investir em criptomoeda

Por André Forastieri

Guilherme investiu mil reais em criptomoeda. Sua aplicação hoje vale uns R$ 5.500,00. Depende do dia. Depende da noite; às vezes, ele acorda de madrugada e confere no celular quanto está valendo seu investimento. Gui tem 17 anos.

Tá certo ele. Como disse o pai do rapaz, se você não for correr risco aos 17 anos, vai correr quando?

Concordei mas adicionei um conselho de tiozão: Gui, tira R$ 1500 e deixa o resto lá. Aí, pelo menos você já garante que não perde o que investiu. Realiza um puta lucro de 50%. E compra alguma coisa bacana que você esteja a fim. 

Desconfio que Gui vai deixar a grana quietinha lá investida em cripto. Confio que ele sabe mais do que eu sobre o que faz sentido em 2021. Meu conselho é bom, mas se conselho fosse bom ninguém dava, vendia, reza a sabedoria popular.

Eu vendo conselho, curiosamente. Dei essa sorte: algumas almas caridosas vêem valor na minha experiência e expertise. Aprendi um bocado trabalhando desde 1988, e tenho cabelos brancos e cada vez mais ralos para provar.

No mínimo, posso te poupar de cometer os mesmos erros que eu cometi. É a parte mais importante do que chamo, na maior cara-de-pau, de meu trabalho de “consultor”.

Pois então: dou consultoria grátis de cripto pra você.

Existem mais de oito mil criptomoedas. O total de ativos chegou a dois trilhões de dólares em abril de 2021, hoje é “um pouco” menos, só 1.6 tri. Minerar cripto exige mais energia que a consumida por Amazon, Apple, Google, Facebook e Microsoft, somados.

O que você precisa aceitar sobre Cripto é que Cripto é economia real. O dinheiro que você usa pra comprar é de verdade. O dinheiro que você ganha ou perde na hora de vender é de verdade.

Se é tão economia real quanto o dinheiro que você ganha e perde na roleta, ou em um alqueire de soja, é discutir o sexo dos anjos.

Esse castelo chamado “economia real” foi construído nas nuvens e era feito de cartas. Começou a ruir estrepitosamente com o fim do padrão-ouro, Nixon, 1971. 

A ciranda financeira global escancarou as rachaduras. A digitalização dos mercados acelerou, diversificou, criou novos produtos que nada produzem: Bonds disso e daquilo, derivativos, credit default swaps…

A crise de 2008 exigiu manufatura de novos trilhões de dólares, euros, yens sem nenhuma ligação com nada que você possa, mesmo generosamente, chamar de “lastro”. A maquininha continua imprimindo grana. Não se vê inflação de demanda por conta do quantitative easing. 

Cripto é realíssimo, e é só mais um capítulo na virtualização das moedas, portanto da riqueza e da pobreza. Não será o último. É tudo recentíssimo. A primeira criptomoeda foi criada em 2009. Daqui dez anos não serão oito mil, mas 800 mil criptomoedas; algum dia 8 bilhões, uma para cada ser humano?

Se você juntar à explosão das criptomoedas a desregulamentação crescente das nossas atividades financeiras, mais a proliferação insana de paraísos fiscais, temos um cenário pela frente de volatilidade crescente.

Muitos vão perder, alguns vão ganhar. Como disse Churchill após Stalingrado, não estamos no começo do fim, mas talvez estejamos no fim do começo… do quê? Do Capitalismo.

E quanto você tem investido em criptomoeda, Forasta? Nada, e assim permanecerei. 

Já tomo risco suficiente, vivendo de meus parcos talentos de empreendedor desde 1993. Gosto assim. Diferente do Gui, se acordar de noite demoro pra pegar no sono de novo, tenho que ir fazer lanchinho, ler um livrinho, problemas da vecchiaia.

Quando se trata de investimento financeiro, meu negócio não é o máximo retorno, é o mínimo de stress. Esta semana chego aos 56 anos. Também estou mais perto do fim do que do começo…

OUÇA

Adão Iturrusgarai, legendário cartunista, cronista e artista plástico (!), nosso convidado para um podcast com o tema “Agosto, mês de cachorro louco”!

O site do Adão é muito legal, e sua newsletter Correio Elegante, também. A surpresa dos últimos anos é como ele se provou um pintor expressivo, com punch e identidade.  Visita o Adão! Tem tira e lojinha!

LEIA

novo site do Andre Barcinski

Com lives, aulas, fotos, boas coisas que ele fez em três décadas… e posts novinhos em folha.

Barça é fácil o jornalista mais produtivo da nossa geração. Faz jornalismo cultural com rigor, humor e independência, desde os distantes anos 80 (hei, olha ele com o Lemmy e o Wurzel do Motorhead em 1989!).

Também faz livros muitíssimo bem pesquisados & divertidos, dois podcasts e mais várias coisas que nos dão muito prazer e não lhe dão grana. 

Na prática, o que paga as contas do xará são seus muitos trabalhos no campo audiovisual (você assistiu Hit Parade, certo? A História Secreta do Pop Brasileiro? Os programas do Mojica, Rogéria, Nasi?).

Mas a gente quer que ele continua fazendo tudo que faz e mais um pouco.

Então: a partir de 10 reais por mês, você terá acesso ao site do amigo, e estimula ele a continuar sendo o Barça impagável e imparável que amamos.

Apóie aqui!

ASSISTA

Rocco e Seus Irmãos. Merece ser visto e revisto. Só pela cópia restaurada, estalando. Só pela fotografia de Giuseppe Rotunno. Só pela trilha de Nino Rota.

Mas tem o entrelaçar de neo-realismo e romantismo; tem luta de classes e profundidade psicológica; tem os belos Alain Delon, Annie Girardot, Claudia Cardinale; tem o espírito das Itálias, setentrional e meridional.

E tem Luchino Visconti, filho da mais alta nobreza milanesa, herdeiro de fortuna farmacêutica, conde e comunista, criador de cavalos de raça, diretor de ópera no Scala, amante de célebres e belos, homossexual, intelectual, único. Que bem-nascido se dedicou com tanto talento e paixão a expôr a hipocrisia de sua classe? 

Está no serviço de streaming Belas Artes A La Carte. Até 30 de setembro. A assinatura mensal do serviço custa R$ 9,90, e é impossível você gastar esse valor de maneira mais proveitosa.

Aproveita e vê no YouTube o doc da BBC sobre Luchino, com colaboradores e o próprio falando.

Aqui está outro italianinho que leva jeito com a câmera, celebrando Luchino

Pessoas e palavras de um mundo que nos deixou, que nunca nos deixará…

BUONA SERA

E grazie mille!

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