Para fugir da turbulência

POR GERSON NOGUEIRA

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Não dá para imaginar nenhum profissional tendo que trabalhar sob o açoite de vaias, xingamentos e agressões. Deve ser um troço desanimador. Pois jogadores de futebol passam por esses perrengues com frequência cada vez mais inquietante. Na sexta-feira, uma turba furiosa irrompeu no aeroporto para escrachar a delegação do PSC, que iria embarcar para o giro nordestino da Série C.

Um despropósito sem tamanho. Constrangidos, os jogadores demonstravam espanto com a performance dos torcedores uniformizados – com a camisa de uma facção extinta dos estádios por ato da Justiça. Nicolas, sem fazer gols há 14 jogos, foi o alvo preferencial das ofensas. Reagiu com irritação, como qualquer sujeito normal, aos gritos de “se perder, já sabe”.

A inspiração para o afrontoso bota-fora vem certamente de torcidas ditas organizadas de Palmeiras, Corinthians e Atlético-MG, muito ativas no papel de esquadrão clandestino e paralelo na vida das agremiações. Costumam aparecer em momentos de crise sob a justificativa de preocupação com o futuro do clube.

No caso do PSC nem há razão para tamanha algazarra. O time disputou apenas quatro jogos, está numa posição desconfortável na tabela (8º lugar), mas tem perspectivas de evolução – principalmente com as aquisições recentes, como o volante Paulo Roberto e o atacante Luan.

É natural que a torcida se preocupe e critique a campanha, mas a massa alviceleste evidentemente não pode ser representada pelos maus modos de um grupelho de baderneiros. Ao mesmo tempo, a intranquilidade gerada pela selvageria no aeroporto pode ter consequências desastrosas.

Alguns jogadores, como se sabe, reagem muito mal a esse tipo de pressão, caindo de rendimento. Muitos aceitam na boa, nem ligam, mas a insatisfação é inevitável e compreensível. Volto ao ponto citado lá na primeira linha do texto: ninguém trabalha direito sob o peso de chicote.

Acima de tudo, hostilidades gratuitas são expressões de má educação e nenhuma civilidade. Partiu desse mesmo agrupamento de torcedores a tresloucada ideia de criar uma brigada para policiar o comportamento de jogadores em suas atividades extracampo.

Enquanto a diretoria garante que vai apurar responsabilidades, o time encara o Floresta (CE), em Horizonte, hoje à tarde. Jogo fundamental para buscar afastamento da zona de turbulência da Série C. Tem boas chances de êxito, pois poderá executar um jogo reativo, como diante do Jacuipense.

Abismo técnico se amplia entre os continentes

O destino foi cruel com a Copa América. Reservou para o mesmo período a disputa da Eurocopa. Azar do futebol sul-americano, cuja pasmaceira atual é inteiramente desmascarada na comparação com os jogos do torneio europeu. A diferença de nível é espantosa. É como botar lado a lado uma competição de primeira divisão e um torneio de terceira linha.

A ponto de Hernán Crespo, consagrado artilheiro argentino e hoje técnico do São Paulo, observar com razão que a América do Sul está perdendo terreno, ficando para trás, e não é de agora. O ponto comparativo levantado por ele já foi mencionado aqui na coluna.

“Historicamente, os europeus eram fisicamente mais fortes do que os sul-americanos e tinham menos virtudes técnicas do que nós. Mas eles não pararam de crescer. Melhoraram no desenvolvimento físico e aperfeiçoaram o passe e a recepção, enquanto perdíamos o drible. Na Copa América gostaria de perceber mais respeito pelas raízes históricas da região, mais dribles”, escreveu Crespo em coluna no jornal La Nación.

Está prenhe de razão. O futebol jogado na Europa e exposto ao mundo na Euro é incomparavelmente melhor, mais interessante e bonito do que os jogos sonolentos que a Copa América está mostrando. O abismo técnico (e tático) é assustador – e preocupante.

Mesmo um veterano como Cristiano Ronaldo está voando nos jogos da Euro, puxando contra-ataques com a disposição e engajamento que ninguém vê na Copa América. O Brasil joga com o freio de mão puxado, correndo para não chegar, tocando bola interminavelmente no meio-campo, nada acontece na maior parte do tempo.

Portugal e Bélgica se enfrentam hoje pelas oitavas gerando sob expectativa monstruosa no planeta pelo duelo entre CR7 e De Bruyne. Holanda e República Tcheca fazem partida imperdível. Amanhã tem França x Suíça e na terça o clássico Inglaterra x Alemanha. Não há mesmo como comparar.

Bola na Torre

O programa começa às 21h30, na RBATV, discutindo as rodadas das Séries B, C e D para os clubes paraenses. Guilherme Guerreiro apresenta, Giuseppe Tommaso e este escriba de Baião participam. A edição é de Lourdes Cézar.

Estrela verga sob a ação de pilantras de almanaque

A semana terminou com a notícia de que o Conselho Fiscal (CF) do Botafogo reprovou as contas de 2020 e pediu investigação contra a diretoria de Nelson Mufarrej, sob suspeita de gestão irregular ou temerária. O CF não aprovou as contas e acionou a Junta de Julgamento de Recursos para apurar possíveis irregularidades. O grupo também pediu a contratação de nova auditoria independente para analisar as finanças alvinegras.

O Botafogo cumpre a sina de errar dentro e fora dos gramados. A incrível malta de dirigentes salteadores sempre teve vida fácil e impune. Teve um dentista pilantra que incluía até a sogra na folha de pagamentos e deixou o clube à míngua e na 2ª divisão.

Aos que gostam de depreciar o Botafogo, gosto de lembrar que poucos clubes no Brasil aguentariam tanto desgoverno e pirataria. 

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