Leão encara batalha na serra

POR GERSON NOGUEIRA

Remo 1×0 Itupiranga (Lucas Siqueira e Wallace)

Anotei aqui algumas coisas que o Remo não pode se dar ao luxo de fazer hoje, na serrana Bento Gonçalves (RS), frente ao Esportivo. O jogo, que é uma decisão como quase todos os da Copa do Brasil, vai exigir foco, estratégia e organização. Por essa razão, nem por sonho o time pode jogar em ritmo de feriado, como fez na partida do meio da semana com o Itupiranga.

Não pode também abrir mão da postura propositiva, criando condições para ataques variados, tanto pelos lados como nas ações mais centralizadas. Times visitantes normalmente caem na armadilha do recuo excessivo, permitindo que os donos da casa – mesmo limitados – cresçam e se estabeleçam no jogo.

Não deve se permitir desfigurar o time a partir dos 15 minutos do segundo tempo, ocasião em que frequentemente Paulo Bonamigo faz trocas por atacado, geralmente enxertando a equipe com a garotada. Não deu certo contra o Gavião, nem contra o Bragantino e mesmo contra o Itupiranga. Não dará certo contra o Esportivo.

Entendo, ainda, que o volante Uchoa está longe do Uchoa que arrancava elogios nos tempos de PSC. Longe de um entrosamento com Lucas Siqueira, o volante recém-contratado está fora do ritmo ideal, não tem mostrado combatividade e se movimenta muito pouco. Jefferson Lima pode ser uma alternativa mais interessante.

O ataque não pode depender exclusivamente dos homens de lado. Wellington e Marlon são jogadores que apoiam muito, participativos, mas muitas vezes param na marcação. Por isso, Bonamigo tem que criar opções de chegadas e inversões pelo meio, através de Dioguinho e Felipe Gedoz, já regularizado. Renan Oliveira evoluiu pouco, parece travado.

Por último, embora não menos importante, a área central da defesa não pode continuar tão exposta – problema verificado desde que Uchoa entrou como primeiro volante – a cruzamentos e investidas do adversário. Rafael Jansen e Fredson têm altos e baixos, mas no Parazão as falhas têm mais a ver com o entorno e a falta de combatividade à frente da área.

Muricy: a grosseria tratada com condescendência

Muricy Ramalho é um fenômeno de sobrevivência de imagem no país do futebol. Um caso que desafia a lógica. Grosseiro, ácido e até tóxico na relação com jornalistas no período como técnico do São Paulo, valendo-se da popularidade junto ao torcedor e do arrivismo de boa parte da chamada mídia especializada, em geral medrosa e temente de represálias.

Passou anos humilhando repórteres e, não raro, calando-os sob o peso da truculência verbal em entrevistas coletivas que alguns beócios consideravam apenas “folclóricas”, como se grosseria fosse algo engraçado. Cansei de ver comentários e risinhos nas resenhas da TV diante do mais recente show de diatribes de Muricy.

Fiquei surpreso quando, anos depois de se aposentar como técnico, apareceu todo pimpão, sorridente, ar de tiozão simpático, na bancada de comentaristas do Sportv. Monossilábico, de parco vocabulário, ruminando resmungos incompreensíveis, enganou ali por um tempo. E, prova insofismável da viralatice da profissão, foi abraçado com carinho e generosidade até por alguns que tinham sido vítimas de suas patadas.

Nunca ouvi um pedido, mesmo dissimulado, de desculpas ou retratação em relação ao comportamento anterior. É como se nada houvesse ocorrido antes. Como o hábito do cachimbo faz a boca torta, o cidadão Muricy reapareceu em todo o estado de beligerância habitual, cena documentada em vídeo que circula pela internet.

Em discussão acalorada com guardas de uma praia no litoral paulista, questionou a obrigatoriedade do uso da máscara como proteção pessoal e de terceiros. Indignado, esbravejou impropérios, voltando duas vezes agressivamente como se pretendesse peitar os policiais que o tratavam com cordialidade. Saiu cuspindo marimbondo, furioso e reafirmando que não é obrigado a usar o acessório de proteção.

A rigor, nada me surpreende nesse tipo de figura. A única razão deste tópico é apenas reafirmar minha repulsa à hipocrisia e carimbar o que já disse dezenas de vezes, agradecendo por não ser repórter nos tempos do Muricy papel-de-embrulhar-prego, persona que ele acaba de ressuscitar estrepitosamente.

Suspensão do Parazão é ato de bom senso e responsabilidade

Os efeitos práticos do decreto de lockdown, baixado pelo governador Helder Barbalho, só serão observados mais à frente. Lembro que, no ano passado, quando houve um fechamento quase completo, a pandemia experimentou um recuo expressivo em todo o Estado.

Como parte do rol de atividades não essenciais, o futebol não podia permanecer em atividade. A paralisação do Campeonato Estadual, que defendo desde o mês passado, certamente contribui muito com o esforço pelo enfrentamento da doença no Pará.

Afinal de contas, os atletas e integrantes de comissão técnica podem até estar protegidos pelos protocolos sanitários, mas há todo um grupo de profissionais que atua no entorno das atividades do futebol nos clubes. São auxiliares de limpeza, pessoal da segurança, porteiros, cozinheiros e outros.

O risco maior, porém, estava no deslocamento de delegações entre cidades. Doze clubes participam do Parazão e semanalmente tinham que viajar a outros municípios, de ônibus ou avião, o que amplia o risco de contágio.

A interrupção dos jogos vem em favor do bom senso e atende ao clamor público. Não há prejuízo maior para o calendário das competições, nem impacto pecuniário, visto que a torcida está afastada dos estádios.

A demora da FPF e dos clubes em tomar a decisão foi compensada pelo respeito pleno aos termos do decreto. Melhor do que acatar o negacionismo explícito dos dirigentes da CBF, inimigos declarados do isolamento social e das regras básicas de combate ao novo coronavírus.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 17)

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