Forasta News: como enfrentar turbas com tochas

Por André Forastieri

Regridem rápido as liberdades nos Estados Unidos. O retrocesso tem apoio resoluto do establishment acadêmico, veja só, de tradicionais instituições de defesa dos direitos civis, imagine, e dos mais prestigiosos bastiões da imprensa, acredite se quiser.

São diários os julgamentos sumários nas redes sociais. Raros rendem muito no noticiário. Virou rotina por lá, como jovens psicopatas fuzilando coleguinhas nas escolas.

Os casos se multiplicam. O roteiro entedia, porque se repete.

Turbas com tochas digitais exigem a punição de supostos pecadores por supostos crimes,  a maioria de impossível apuração. O réu têm julgamento sumário, fundamentado exclusivamente em chocantes depoimentos de testemunhas. Do condenado se exige sempre a mais abjeta confissão, que não o livrará da mais dura pena possível.

O caso mais recente, e particularmente repulsivo, é a demissão de Donald McNeil, premiado repórter de saúde do New York Times, que em 2020 fez muito sucesso com sua cobertura da pandemia.

Foi resultado de um abaixo-assinado de 150 de seus colegas, menos de 10% da redação. A direção do jornal em princípio o defendeu. Pusilânime, cedeu à pressão da turba. 

O grande crime de McNeil: em 2019, respondendo à pergunta de um estudante adolescente sobre o uso de uma “palavra proibida” por um colega, usou esta mesma palavra. 

Sinceramente, dá nojo de entrar nos detalhes. É uma história de tamanha sordidez, e uma performance tão pusilânime do New York Times, que desanima ter esta profissão, fazer parte desta espécie e viver nestes tempos.

Mas estou lendo tudo sobre isso, e você precisa saber desta história. Para que ela não se repita? Não, porque ela vai se repetir, e vai se repetir aqui.

Este artigo diz quase tudo que precisa ser dito, na minha opinião (e do Álvaro, que o compartilhou no seu twitter).

este outro o New York Times preferia que você não lesse. 

Os Estados Unidos são o campo de batalha pelo futuro da liberdade – e sim, dramaticamente vamos assumir que esta é a questão. O país com a cultura mais influente do planeta, com uma legislação avançada na proteção dos direitos civis, e defesa radical da liberdade de expressão na sua própria constituição.

Borboleta que voa lá causa furacão mundo afora. É confortável e ilusório concluir que esses enfrentamentos são frescurite de americano, fru-fru de país rico e livre, “classe média sofre”. Há evidências de que a caça às bruxas se internacionaliza.

Como se já não fosse problema suficiente a manutenção da maior parte da humanidade sob regimes de censura e opressão. Como se não víssemos a ascenção econômica da imperial China, que jamais fingiu ter qualquer interesse pela democracia.

Entre os britânicos há longa tradição de universidades e jornalismo livres. Mas uma passada de olhos na seção de opinião do The Guardian, o mais lido jornal em língua inglesa do mundo, “de esquerda”, não dá razão para otimismo.

A Europa resiste mais no continente. A França está batendo de frente. Macron aproveita o gancho pra cantar de galo e fazer média à direita, pátria do iluminismo etc. 

Os franceses não engolem vozes americanas passando pano pra bombardeio de cartunista e degola de professor de história. Fazem muito bem. Aqui no Brasil mesmo, na época do Charlie Hebdo, deu ânsia de vômito ver gente influente com discurso na linha de “eles fizeram por merecer, precisam respeitar os valores do Islã”.

Os europeus se mataram durante milênios ininterruptos. Têm crimes de guerra, raciais e coloniais que jamais pagarão. Sua união deu um basta institucional a picuinhas regionais e étnicas.

Estão aprendendo que vivem em um megacontinente que vai de Gibraltar ao Cabo da Boa Esperança a Vladivostok, onde valorizar semelhanças em vez de estimular diferenças é estratégia chave de convivência e sobrevivência. Lá, mais que nos EUA, há grande risco no fundamentalismo “woke” balcanizador.

Essa patrulha puritana e histérica é um câncer, e a metástase está aí, à vista. Há método por trás de tanta loucura.

É preciso fiscalizar o discurso, para que corra solta a exploração. É importante estimular a falsa transformação social, para que não busquemos a verdadeira transformação econômica. É preciso dividir para conquistar.

Não é por outra razão que aqui mesmo nos nossos melancólicos trópicos todas as atenções se voltem para a milésima edição do reality show. O cast é escolhido a dedo para causar, o programa pautado e editado para gerar o máximo de revolta nas redes sociais.

Lacrar dá clique, “monetiza”, e enquanto se debate os xingamentos na casa dos brothers, esquecemos dos 33 milhões de brasileiros sem trabalho, da reação caótica e bárbara ao Covid, da violência sem fim, da nojeira cotidiana de milicianos, corruptos e fundamentalistas no poder.

Se não há pão, dê circo; e se dá para levar os próprios espectadores a se odiarem e digladiarem, melhor ainda. 

Uma multidão de jovens cresceu com estes valores distorcidos, lá e aqui. Ainda é uma minoria? Aumenta a cada dia. Abomina o debate livre, aberto, informado. Influi, pauta o discurso dominante na mídia e normaliza a caça às bruxas.

As turbas encontram coragem na certeza de que são guiados por uma missão sagrada de justiça contra os impuros. Historicamente, têm sido derrotadas. Mas a História tem idas e vindas e atalhos e desvios. 

O que nos cabe? O arroz com feijão, bem temperadinho.

Façamos o possível para enfrentar a sanha de sangue na academia e imprensa. São duas instituições que, por sua própria natureza, precisam da liberdade para vicejar. 

Vamos valorizar nossa humanidade em comum e enfrentar as patrulhas que nos dividem. Vamos insistir em enfrentar os desafios da liberdade com mais liberdade, nunca com menos.

E jamais nos esqueçamos de que nenhuma pessoa deve ser desvalorizada por sua raça, gênero, pátria, religião, idade. E nenhuma deve ser valorizada, exatamente pela mesma razão. O que contam são nossas ações, não o que a gente “é”.

Uma antiga lição, mais presente que nunca…

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