Forasta News

Por André Forastieri

Ninguém sabe ser tão louco ou tão careta quanto americano. São os mais destrambelhados e os mais certinhos.

Nos EUA sempre me sinto como um escriba da periferia da antiguidade, visitando a Roma dos césares. Impossível não ficar admirado com tanto poder e prazer, mas sei que jamais serei cidadão do império.

E é Império, não se engane. Os EUA ocupam militarmente, financeiramente, culturalmente – espiritualmente? – o planeta. 

Voltar ao Brasil é sempre brutal. Que solavanco na qualidade de vida e do debate público, nas exposições nos museus, da adaptação das calçadas paulistanas a cadeirantes.

No que dá pra comprar! Ou dava, quando o dólar tava mais razoável.

O ponto alto e baixo da civilização americana é o mesmo: sua defesa apaixonada da ideia de liberdade individual. O que se traduz maravilhosamente (ou se reduz tristemente) na incrível liberdade de consumir de que gozam os americanos.

Há lugares em que se vive mais e melhor, mas em nenhum lugar você pode consumir tanto quanto na América. É um ótimo país para ser rico e remediado.

Nem tanto para ser pobre. Mas os pobres nem sempre percebem, porque não sabem como é em outros países. Pelo menos enquanto mantém em dia os pagamentos do cartão de crédito. O Covid mudou isso.

Sim, é duro ser negro nos EUA, mas menos que no Brasil ou Nigéria. Complicado ser muçulmano, mas menos do que na Arábia Saudita ou China. E desafiador ser LGBT, mas – você entendeu.

Na América você pode ser quem você quiser, contanto que siga as regras. Você pode se fantasiar de Patolino e sair patinando pela calçada, mas não pode pisar na grama, mesmo que esteja de terno.

Pode fumar maconha tranquilo nas ruas de São Francisco, mas para fumar um cigarro comum precisa estar a cinco metros da entrada do restaurante. Está liberado para fundar um partido que pregue a destruição do Governo Federal, contanto que pague os impostos em dia.

Tenho grande admiração pelos Estados Unidos, especialmente quando se trata de liberdade de expressão. Mesmo nestas décadas pós-Torres Gêmeas, o país ainda goza de liberdades sem paralelo em quase nenhum outro canto do planeta. 

Tudo permitir é tudo neutralizar, dizem, e verdade, mas não muito. Sim, o “sistema” é ótimo para absorver os golpes, e reempacotá-los e vendê-los em versões aguadas e adocicadas. Mas sociedade nenhuma escapa intocada de tanta porrada. As contusões e olhos roxos são o que chamamos de “democracia”, e eventualmente progresso.

AMERICA UBER ALLES

Tem alguns aspectos dos Estados Unidos que francamente dão bode:

– A convicção de que os EUA são caso único de civilização avançada, distinta de todas as outras, ungida pela História, talvez por Deus, o que faz até progressistas repetirem sempre “America is the greatest nation on Earth”

– A tranquila ignorância sobre o resto do mundo

– Festa tem hora certinha pra começar e acabar, geralmente às 22h

– A guerra às drogas que prende milhões lá

– A guerra ao terror que martiriza milhões mundo afora

– O puritanismo

– As bizarras e inexplicáveis ausências de direitos comuns nos países avançados, como licença-maternidade e férias remuneradas

– A separação dos imigrantes em micro-culturas estanques, bairros separados, esse papo de chinese-american, armenian-american, african-american etc.

– A entonação adocicada e pseudo-boba que passa por voz de uns 70% das moças americanas

– Política identitária

– Essa obsessão chatíssima com celebridades.

Que, aliás, faz com que muito americano comum se porte como estivesse o tempo todo sob os cliques dos paparazzi. É só ver como se portam algumas figuras nas filas dos Starbucks. Donde, redes sociais e Donald Trump.

E nem vamos entrar no apoio e financiamento de ditaduras cruentas por décadas, inclusive aqui no Brasil, das guerras permanentes com bomba americana matando civil no terceiro mundo e tal. 

Dá pra passar um dia listando todas as mazelas da América, e outro dia o tanto que há de admirável. A civilização americana tem óbvias qualidades e defeitos bem à vista.

Até porque todos nós vivemos na civilização que a América criou, em graus diferentes, de Uberlândia a Djibouti a Pequim.

O Brasil pode e deve se espelhar no que os Estados Unidos têm de melhor, e rejeitar o joio. Infelizmente, temos feito o contrário.

Em vez de imitarmos o melhor do Império, nos contentamos com uma superfície de civilização “méricana”. Com a tintura loira e o outlet, com a pseudo-liberdade de personalizar o mocha frapuccino e a placa do carro, o neopentecostalismo entre católicos e evangélicos, o universo musical sertanejo-country & bunda music, o tesão por metrancas, o conservadorismo boçal…

Uma boa parcela dos brasileiros abraça essa caricatura de americano, que de fato é a realidade de muitos americanos, e assumiu esse discurso de “defesa intransigente do nosso modo de vida”. Trump não é causa, é sintoma. Como Bolsonaro não é causa, é sintoma.

Dito isso Trump fez, nestes últimos quatro anos, muito mais merda do que a gente podia imaginar. Acho que só ficou faltando começar uma guerra em algum lugar, bombardear o Irã ou que o valha. Cala-te boca…

A História não é feita por grandes homens. Nem por homens pequenos em posições de grande poder, como nestes casos. Mas um canalha completo com a caneta na mão pode fazer grande estragos.

O sistema americano, com suas deficiências, é permeável a mudanças. A democracia american-style, junto com o capitalismo ianque, têm a grande virtude da flexibilidade. Por isso sobrevivem e se infiltram nos lugares menos esperados  – até no Partido Comunista Chinês, veja só.

Continua melhor  viver sob a constituição americana que na maioria dos lugares do mundo. Mas o lustro se foi. 

O sonho americano serviu bem para os americanos, que viviam muito bem em berço esplêndido e exportavam injustiças para o terceiro mundo. Não mais. A crise por que passam não é cíclica, é permanente.

A crescente integração e interdependência econômica e financeira do mundo – vamos chamar de “globalização” – não foi acompanhada de integração política e social, coordenação, representatividade.

Temos um mercado só, ou quase. Mas não temos uma única moeda, nem um único governo, um corpo legislativo que nos represente a todos, um judiciário que garanta justiça nos quatro cantos do planeta.

A corrida em busca de custos baixos de produção deprime salários; o sistema financeiro desregulamentado vive à beira do abismo, sempre exigindo novos e maiores esforços e recursos públicos para sobreviver.

Os americanos não podem mais viver isolados da Terra. E o resto de nós não poderá viver com os padrões de consumo dos americanos. 

Donde que vivemos os estertores do “Século Americano”, o século 20, em que tivemos muitos, mas muitos ganhos mesmo. Talvez ele acabe nesta quarta-feira.

A história do século 21 será a história da integração do planeta em uma única sociedade. Este é o desafio desta e das próximas gerações, e não crescer para ser presidente ou bilionário. Tecnologia – e dinheiro e poder – precisam ser meios, não fins. Vai ser, está sendo difícil. Vai doer.

O ataque ao World Trade Center e a crise de 2008 atrasaram esta pauta. A tripla ameaça do Covid, crise econômica e Aquecimento Global nos forçam a abraçar a transformação. No caso do Ocidente, com o desafio adicional da ascensão da China e rápida expansão de sua área de influência e seu modelo de capitalismo autocrático, antidemocrático. Trump falhou em todos estes quesitos.

MELHOR UM CENTRISTA NA MÃO QUE UM DITADOR VOANDO

Donde a eleição desta semana nos EUA é a mais importante da nossa era. Disse alguém uma vez que a eleição americana é tão importante para o planeta todo, que todos os seres humanos deveriam ter direito a votar…

A grande virtude da chapa Biden-Harris é que eles têm que atender a base democrata lá. Mais que isso: precisam atender à expectativa que uma administração democrata criaria, pós-Trump, neste 2019 tão enrolado, no restante do mundo.

Tirando a distante infância duranga, Biden é tão perfeito representante do establishment americano quanto Trump. Mas presidente, será em grande parte prisioneiro de seus compromissos, principalmente se tiver maiorias na Câmara e Senado.

Fato: seu imperfeito programa de governo é mesmo assim o mais ambicioso, progressista, transformador desde… Franklin Roosevelt? Por aí.

Com 78 anos, Biden parece mais preocupado com entrar para a História, do que com pautinhas menores. Sabe que, eleito, terá pouca chance de concorrer novamente. Eleito terá uma chance, finalmente, de ser grande, depois de quase cinquenta anos na política. Você não agarraria?

Dito tudo isso, uma pulga atrás da minha orelha ainda tá lá, repetindo: Trump vai ganhar, Trump vai ganhar… 

Mas por hoje vamos acreditar que nos livraremos de Trump e que a mudança vai acelerar. Que de um grande esforço coletivo nascerá um mundo melhor do que jamais tivemos antes; e que ele se assemelhará em muitas coisas com o melhor do sonho americano. Quem tem filho, tem esperança… 

O século 21 pertence as novas gerações. Que elas sejam melhores que nós!

NÃO ESQUEÇA

Aqui no Brasil também vai ter eleição, e você tem duas opções: ou não votar (sempre uma posição muito defensável), ou votar contra os candidatos do Bolsonaro.

Se der, os mais contra possível.

Se não der, vamos na cola dos americanos, escolhe o Biden aí da sua cidade, e vamos começar a tirar nosso sub-Trump do poder…

Good riddance to bad rubbish!

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