Racismo: a luta é de todos

POR GERSON NOGUEIRA

George Pitbull, volante do Paysandu, denunciou ter sofrido racismo em uma viagem de ônibus - Jorge Luiz/Paysandu

A banalização de casos de racismo é um dos piores sintomas da doença social que acomete o Brasil atual. Quase todos os dias se tem notícia de um gesto, uma palavra ou uma intenção reveladora da carga de preconceito e intolerância. O mais absurdo, tristemente irônico, é que negros e índios são frequentemente os mais hostilizados e insultados.

O volante George Pitbull, do time sub-23 do Papão, denunciou o constrangimento de que foi vítima, junto com o atacante Debu, companheiro de equipe. O incidente ocorreu depois de terem apanhado um ônibus à saída do treino de segunda-feira, na Curuzu. O fato é grave e não pode ser ignorado.

Em meio a viagem, os dois foram convidados a descer do ônibus e tiveram as mochilas revistadas, sob a vista de todos. Os policiais militares abordaram os atletas dizendo terem sido alertados sobre “um comportamento suspeito” de ambos no ônibus.

Segundo um dos PM’s, a denúncia partiu de uma mulher que viajava no mesmo veículo. No baculejo, só foram encontrados uniformes de treino e as chuteiras ainda sujas.

“É um sentimento de vergonha, de humilhação pelo que a pessoa passa por ser negro e tatuado”, disse George, 21 anos, titular do PSC na disputa do Campeonato Brasileiro de Aspirantes. “Não podemos ser julgados pelo nosso estilo, pelo jeito que a gente se arruma”, diz o jogador, nascido em Benevides. Ele admite ter se calado outras vezes diante de abusos.  

No ônibus quase vazio, estavam um rapaz e uma moça loira. Os dois perceberam o incômodo da passageira quando eles subiram. “É como se a gente fosse assaltar ou fazer alguma coisa ruim”. Ao longo do trajeto, entraram outras pessoas, mas a suspeita se concentrou na dupla. Na rodovia BR-316, a polícia chegou e parou o ônibus.

Apesar da humilhação, os rapazes não reclamam dos policiais. Entenderam que eles cumpriam seu papel, o que é no mínimo questionável. A viagem prosseguiu, mas a revolta pelo ocorrido não passou.

O fato foi denunciado por George nas redes sociais, virou notícia em sites nacionais e chegou ao conhecimento da diretoria do PSC, que se solidarizou e manifestou repúdio através de uma nota intitulada “Chega de racismo!”, em defesa de seus atletas.

O racismo, que nem sempre é direto, como nesse episódio, manifesta-se de forma dissimulada ou estrutural, como dizem os especialistas. O país da miscigenação não pode virar refém dos intolerantes e defensores do ódio.

Há uma onda crescente de ataques a vulneráveis, mulheres, crianças e diferentes em geral, com forte coloração extremista e evidente intenção racista. Para derrotar o ódio e a ignorância, é preciso combater implacavelmente em todas as frentes. A denúncia, como fizeram George e Debu, é uma das armas mais poderosas.

Registre-se a atitude corajosa de George, que resolveu encarar o problema de frente. “É muito importante um jogador de futebol falar sobre isso. As pessoas precisam saber o que está acontecendo. Às vezes ficamos calados por medo, por achar que as pessoas vão falar que é ‘mimimi’, e tem muita gente que fala isso mesmo. Mas sem vitimismo: é muito difícil, é vergonhoso passar por isso, você fica abalado psicologicamente”.

Botando os pingos nos ii

Na coluna de ontem, uma incorreção. João Brigatti passou pelo PSC inicialmente como auxiliar técnico, mas não de Dado Cavalcanti, como citei no texto. Ele, na verdade, trabalhou com Mazola Junior.

Série C: portas da esperança estão escancaradas

Os últimos jogos serviram para reacender as esperanças das duas maiores torcidas do Norte quanto ao êxito de seus times na Série C. O PSC, que esteve rondando a zona do rebaixamento, resgatou a confiança com a vitória sobre o Treze da Paraíba na última rodada. A chegada de um novo técnico – João Brigatti – faz com que a equipe também fique ainda mais motivada. No Remo, que já alcançou 22 pontos e é o terceiro na classificação, o clima é de otimismo quanto à conquista de uma vaga.

No cenário atual, a dificuldade maior cabe ao PSC, que tem 15 pontos e precisará superar Jacuipense, Manaus e Ferroviário na briga pela última vaga no G4. Terá que conquistar quatro vitórias e um empate nos seis jogos que restam. Missão difícil, mas perfeitamente possível, tendo em vista os jogos em casa contra Manaus, Ferroviário e Botafogo, além do clássico Re-Pa na rodada final. Fora, jogará contra Jacuipense e Imperatriz, pior time do campeonato.

O Remo tem percurso bem mais tranquilo, pois precisa de duas vitórias e um empate para passar à próxima fase. Terá boas chances de obter os resultados que lhe interessam, recebendo Treze e Santa Cruz em Belém, além do Re-Pa. Longe de casa, terá confrontos com Vila Nova, Botafogo e Manaus. É improvável que, a manter o ritmo atual, não consiga pelo menos três vitórias nos seis compromissos restantes.

E é preciso considerar que todos os cálculos quanto à linha de corte sugerem que 28 pontos serão suficientes para classificar. É provável, dependendo dos cruzamentos nas próximas rodadas, que esta pontuação caia para 27, o que tornaria a cruzada dos paraenses menos árdua.

Tite e a vocação para escolhas infelizes

Tite continua a ser uma esfinge quanto a critérios de escolha para a Seleção Brasileira. Depois de chamar Arthur, em má fase, acaba de convocar Lucas Paquetá, atacante em baixa no futebol europeu e com passagens pífias pelo escrete. Ele vai substituir Philippe Coutinho, cortado por contusão.

Chama atenção a convocação de Paquetá pelo histórico recente do atleta. Fez um gol e deu três assistências desde que se transferiu para o Milan em 2018. Teve muitas chances, mas não conseguiu se encaixar no time italiano, virou reserva e terminou negociado com o Lyon.

Dois anos de baixo nível técnico premiados pelo professor Tite. Gerson (Flamengo) e Marinho (Santos) pedem passagem há tempos.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 29)

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