Equilíbrio e ineditismo

POR GERSON NOGUEIRA

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Quando entrarem em campo hoje, às 20h, Remo e PSC estarão fazendo história, mais uma vez. Peço até desculpas, pois a expressão foi banalizada pelo uso quase sempre injustificado, mas desta vez o adjetivo é cabível. O clássico mais disputado do Brasil nunca viveu situação tão insólita como a desta decisão: futebol sem a ruidosa presença do torcedor, pela primeira vez na história dos titãs da Amazônia. Em função da pandemia, os jogos não têm público e o futebol perde muito com isso.

A emoção do torcedor, sempre intensa nos clássicos, estará ausente pela primeira vez nesta história secular. Não significa que a disputa fica tecnicamente mais pobre, mas é indiscutível que o espetáculo sai bastante prejudicado sem o colorido e o som que vem das arquibancadas.

Vi um dos jogos das finais do Campeonato Brasiliense na semana passada e, sinceramente, não se notava nada de estranho em campo, pelo simples fato de que os clubes estão acostumados a jogar sem plateia.  

Cenário inteiramente oposto ao que costuma reunir clubes de massa, como a dupla Re-Pa. O incentivo e até as vaias são componentes obrigatórios da grande catarse que é um clássico entre bicolores e leoninos. Será curioso ver os dois times em ação naquele ambiente cujo silêncio só é quebrado pelos gritos dos reservas e dos técnicos.

Quanto ao duelo em si, o equilíbrio é evidente e não há favoritismo destacado. Prevalece, porém, um nivelamento por baixo, a levar em conta os últimos dois jogos de ambos no Brasileiro da Série C.

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O PSC perdeu na capital amazonense praticando o futebol mais pobre e sem inspiração desde que as competições foram retomadas. O próprio técnico Hélio dos Anjos admitiu a omissão e o descompromisso do time em campo, sujeitando-se à dominação de um Manaus apenas esforçado, que até então era lanterna do campeonato.

Em Belém, o Remo tropeçou no Vila Nova-GO jogando abaixo do que rendeu nos últimos jogos. O esquema cauteloso funcionou mal e atraiu o time visitante para o campo de defesa remista durante boa parte do tempo. Apesar de ter evoluído na etapa final, a atuação foi frustrante para quem precisava vencer para alcançar a liderança.

É justo destacar que o Remo tem cartel pós-quarentena superior ao do rival. Está invicto: em oito partidas (quatro pelo Parazão e quatro pelo Brasileiro), venceu seis e empatou duas. Encabeça a pontuação geral do Estadual, com 29 pontos, e é o 3º colocado no grupo A da Série C. Já o PSC jogou oito vezes, venceu quatro, empatou uma e perdeu três. É o 2º na classificação do Parazão e o 7º no Brasileiro da 3ª Divisão.

Ocorre que decisões entre PSC e Remo, historicamente, não são pautadas pela lógica cartesiana de retrospectos ou estatísticas, passadas ou recentes. Quando a bola rola as forças se equiparam.

Os técnicos têm acentuado ainda mais o equilíbrio com afirmações de que irão manter a mesma filosofia de jogo empregada até agora. Como ambos padecem de dificuldades ofensivas, a tendência natural é de um jogo de prudência e pouco farto em gols. Mas, como citei acima, a lógica nem sempre prevalece. De repente, os rivais podem nos surpreender.

VAR à brasileira periga virar um desserviço ao futebol

Depois da derrota diante do Internacional, sábado, no estádio Nilton Santos, o goleiro Gatito Fernandez não resistiu ao passar diante da estrutura que sustenta o aparelho do assistente de vídeo e deu uma bicuda, botando abaixo a geringonça. O gesto deve custar ao goleiro botafoguense um gancho de pelo menos quatro jogos, mas nas redes sociais Gatito foi aplaudido. Sua reação foi compreendida como uma justa reação aos erros cometidos pela arbitragem contra o Botafogo.

A mídia esportiva também entendeu o gesto do goleiro. Benjamin Back, da Fox, disse que o uso do VAR é péssimo e equivocado. Apontou falta de critério e demora nas tomadas de decisões, além de interferência na dinâmica do jogo. Viu mudança de comportamento dos árbitros de campo, que transferem a responsabilidade para os árbitros de vídeo.

“O Gatito ficou transtornado, chutou, quebrou tudo. O Gatito é rock’n roll. Sabe o que acontece? Ele vai pegar um gancho, uma suspensão, mas ele mostrou revolta, a sensação de impotência do jogador. É difícil. Eu que não estou jogando, às vezes estou no sofá vendo o jogo, tenho vontade de fazer isso… parecia o Axl Rose, quebrando tudo”, comentou Benja.

Gatito exprimiu a irritação acumulada com uma série de erros em jogos do Botafogo contra Fortaleza, Atlético-MG, Flamengo e Inter. “O VAR chegou para ficar e está ajudando bastante o futebol no Brasil e em todo o mundo. O que não pode acontecer é termos profissionais completamente despreparados para usar tal ferramenta”, resumiu Gatito.

No fim de semana, na 6ª rodada do Campeonato Brasileiro, após as falhas de interpretação (gol anulado por falta inexistente e pênalti não revisado pelo VAR), o tema teria amplitude no jogo Santos x Flamengo, quando o Peixe teve dois gols anulados pelo VAR.

Outro comentarista, Arnaldo Ribeiro, se solidarizou com Gatito. Crítico assumido do árbitro de vídeo desde o período de testes do sistema, ele radicaliza e defende a extinção do VAR. “O VAR não é uma coisa que agora está sendo testada, já vem há muito tempo e já é tempo de a gente fazer uma análise, parar e concluir que o VAR não ajudou o futebol como se imaginava. Acho que está no tempo de ser revisto para que não estrague o jogo, porque ele tem o potencial de estragar o jogo”.

Acrescenta que o Brasil tem o pior combo de VAR do planeta: árbitros fracos e intervencionistas demais. Segundo ele, a ausência de público agrava ainda mais as coisas, pois a arbitragem fica mais à vontade para interromper as partidas e assumir o protagonismo.

Nisso tudo falta enquadrar a Comissão de Arbitragem da CBF, presidida por Leonardo Gaciba, responsável pela má utilização do VAR. A máquina pode funcionar, mas os operadores são de carne e osso e continuam errando como antes, quando só havia a marcação de campo.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 02)

Um comentário em “Equilíbrio e ineditismo

  1. O VAR está para o futebol brasileiro assim como a delação premiada está para a operação lava-jato. O problema não está no instrumento, mas em quem o opera.

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