A farsa

Por Heraldo Campos (*)

Mais uma vez, vivendo e aprendendo. Confesso que não sabia que a maravilhosa “This Masquerade”, eternizada por George Benson e também, porque que não dizer, pelos Carpenters, “é uma canção escrita pelo cantor e músico americano Leon Russell” conforme consta na Wikipédia, a enciclopédia livre, e que ela foi “gravada originalmente em 1972 pelo próprio Russell para seu álbum Carney”, sendo muito bonita quando ouvida na versão do autor.

Assistia muito as apresentações do Leon Russell, num programa que passava aos sábados a tarde na TV aberta, nos anos 70 do século passado, chamado “Sábado Som”, apresentado pelo Nelson Motta.  

Numa tradução, obtida na internet, “This Masquerade” ou “Esta Farsa”, a bela canção diz que “Estamos realmente felizes aqui / Com este solitário jogo que jogamos? / Procurando pelas palavras certas para dizer / Buscando mas não encontrando / Compreensão de qualquer jeito / Estamos perdidos nesta farsa”. 

Tudo bem que é uma canção que se refere ao relacionamento de duas pessoas, mas se estendermos os versos desse trecho da canção aqui, adaptando para o país da jabuticaba, será que poderíamos nos perguntar: estamos perdidos nesta farsa?

Ou será que esse governo, que foi colocado no poder por 57 milhões de eleitores, não tem nada de farsa ou muito menos foi um ouro de tolo (pirita) que enganou esse monte de gente mas, que pretende, com a contínua militarização das instituições, ficar mandando no país durante por uma geração inteira?

Lembremos que a ditadura que antecedeu a essa proto-ditadura, instalada pelo golpe de 1964, durou mais de duas décadas e muito dos seus descendentes políticos estão aí no Congresso Nacional e nos ministérios do Executivo.

Leonel Brizola, que num dos acalorados debates para presidente da república, na redemocratização, chamou de “filhote da ditadura” um dos candidatos, iria ficar horrorizado, hoje, com a proliferação dessa triste figura para tudo quanto é lado. Proféticas foram as palavras do Brizola na época.

Precisamos de um norte e de um projeto de futuro, mesmo que isso seja um chavão para ficarmos repetindo. Porque, convenhamos, qual o efeito prático, para permanecermos na última das transgressões autoritárias desse governo, que pode causar a decisão do Superior Tribunal Federal (STF), condenando o dossiê produzido pelo Ministério da Justiça contra os antifascistas? 

Se um efeito prático, somado a outros tantos que já poderiam ser considerados, não é o de conduzir o governo ao processo de cassação da chapa militar-presidencial eleita em 2018 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), todo dia, ao se acordar de manhã, vai ser a mesma coisa de sempre.

“É você olhar no espelho / E se sentir um grandessíssimo idiota / Saber que é humano, ridículo, limitado / E que só usa 10% de sua cabeça animal / E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial / Que está contribuindo com sua parte / Para nosso belo quadro social”. (trecho de “Ouro de Tolo” de Raul Seixas de 1973).

*Heraldo Campos é Graduado em geologia (1976) pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Mestre em Geologia Geral e de Aplicação (1987) e Doutor em Ciências (1993) pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo – USP. Pós-doutor (2000) pelo Departamento de Ingeniería del Terreno y Cartográfica, Universidad Politécnica de Cataluña – UPC e pós-doutorado (2010) pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo – USP.

2 comentários em “A farsa

  1. Prezado Gerson
    Boa tarde.
    Acabei de ouvir o Leon Russell, cantando “This Masquerade”, pelo acesso que você publicou junto com o texto.
    Mais uma vez agradeço a possibilidade que você nos proporciona no seu blog de podermos encontrar boas músicas nesse mundo cada dia mais perverso.
    Abraços,
    Heraldo

    Curtido por 1 pessoa

  2. Nós que agradecemos pelas opiniões que partilha conosco em seus artigos. De mais a mais, gosto muito de linkar música e texto nas postagens.

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