Black Jesus, GOAT, gênio? Jordan

Michael Jordan: esportista e uma mina de ouro - La Parola

POR GERSON NOGUEIRA

A quarentena nos permite tempo livre para dedicar atenção a coisas que talvez passassem despercebidos em outra situação. “The Last Dance” (Arremesso Final, no título em português) é um desses prazeres que o isolamento trouxe de maravilhoso. Atraente na forma e impactante no conteúdo sobre personagem tão exaustivamente esmiuçado pela mídia. Quem achava, como eu, que não havia nada mais a descobrir sobre Michael Jordan, quebrou a cara.  

Air Jordan, GOAT (sigla que significa “melhor de todos os tempos”) ou Black Jesus, apelido antigo e que Reggie Miller adorava utilizar, irrompe ainda maior e mais gigantesco do que sempre foi. Ninguém tira os olhos da tela porque as entrevistas são encaixadas como a formar um mosaico, mesclando momentos curiosos, dramáticos, engraçados e até bobos, como a pizza fuleira que quase tirou Jordan da semifinal de 1997.

O truque de avançar e retroagir a linha de tempo usado pelo diretor Jason Hehir é elegante e facilita a compreensão. Como se vê, até na linguagem técnica o doc é inovador. Se a ideia era tributar o mais genial jogador da história do basquete, o objetivo foi largamente alcançado.

E o que dizer das imagens inéditas de bastidores do Bulls, como as conversas fiadas entre MJ e seu time de seguranças, numa relação quase paternal em relação ao ídolo? Os quatro estão sempre em torno dele quando fora da quadra, prontos a abrir caminho entre a floresta de microfones e câmeras, ágeis também na missão de afastar os chatos de plantão.

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Há algumas semanas, escrevi comentário sobre a série, que apenas começava a ser exibida. Ao longo das últimas segundas-feiras me acostumei ao prazer de ver um trabalho jornalístico tão competente, minucioso e bem acabado, fiel ao rigor métrico da narrativa cinematográfica.

Jordan é o tema, o norte e dita o ritmo. Conta deliciosas passagens, clareia polêmicas, acrescenta algumas e rebate opiniões de antigos desafetos, como Miller e Isiah Thomas, talvez o mais notório. Scottie Pippen, Dennis Rodman e Steve Kerr são os coadjuvantes, pontuando e enobrecendo a narrativa. Pippen era um valoroso carregador de piano, rei das assistências que garantiam o brilho do astro maior. 

Rodman, cheio de tatuagens e colares, é um show à parte, flertando sempre com o visual bad boy roqueiro. É protagonista de episódios hilários, como a fuga de uma semana a Vegas com a beldade Carmen Electra. Chegou ao Bulls após pontificar como carrapato de Jordan quando defendia o Detroit Pistons, o time mais casca grossa da NBA moderna, pedra no sapato do supercraque.

É fato que o Pistons aprontou e irritou bastante MJ, mas este quase sempre levava a melhor porque, além de incomparável fintador e arremessador, era talhado para duelos em qualquer nível, inclusive embates físicos. Encestava como ninguém, mas saía no soco e no cuspe quando era necessário. Atleta completo, um campeão implacável nos treinos e jogos cobrando sempre mais e mais dos companheiros, sem jamais descumprir metas assumidas. Competitividade no limite da compulsão.

Às vésperas de final de conferência ou decisão de título, Jordan sempre sacava da cartola um motivo extra para se motivar. Servia qualquer coisa, da pinimba com um novato abusado ou a bronca pela perda de um troféu para Karl Malone, por exemplo. “Virou questão pessoal”, decretava, e a frase virou símbolo do estilo Jordan gerando memes hilários na web.  

A mídia bateu palmas para The Last Dance (parceria da Netflix com a ESPN Films), mas espetou Jordan, criticando o culto à personalidade. Bobagem. É justamente o lado pessoal do gênio o que mais encanta na minissérie, que também é uma declaração de amor ao basquete americano, através de imagens espetaculares e inéditas de disputas em quadra.

Há abundância de informação, com abas para passagens da infância de Kerr e recortes da autoridade técnica e moral de Phil Jackson sobre a trupe de Chicago. Nem o futebol, esporte das multidões, conseguiu até hoje produzir obra tão monumental sobre um time ou um craque.

Jordan venceu mais uma vez. Assistam.

Flamengo alia-se a negocionistas pelo fim do isolamento 

O Brasil superou as 17 mil mortes pela pandemia, mas o Flamengo parece viver em outra dimensão. Obcecado em voltar aos gramados, o clube decidiu, através de sua diretoria, aliar-se à campanha que o presidente da República move diariamente contra o isolamento social.

Ontem, surgiram imagens ainda mais preocupantes: o time está treinando normalmente e descumprindo normas do governo estadual e da prefeitura do Rio. Em choque direto com as imagens, o clube tornou a emenda pior do que o soneto e negou que tenha desrespeitado a quarentena.

O convescote de anteontem com o presidente, em Brasília, foi um show de deboche em relação à covid-19. Ao lado do presidente do Vasco, o flamenguista Landim apareceu risonho e animado nas fotos com Bolsonaro e seu filho Flávio. Ninguém usava máscaras de proteção.

O cinismo sem limites da cartolagem irresponsável

Enquanto o clube amarga um déficit de R$ 394 milhões, o ex-presidente do Cruzeiro, Vagner Pires de Sá, em resposta a denúncias de gastos extravagantes com o cartão corporativo do clube, teve a pachorra de dizer que as críticas visam queimá-lo com a torcida. O sujeito torrou um dinheiro pesado indo a restaurantes e casas de prostituição no exterior, mas entende que não é um problema relevante.

O cartola não lembra nem se gastou no almoço ou no jantar o dinheiro do clube. Administrava o Cruzeiro como se fosse o puxadinho de casa, sem a menor preocupação com o controle das finanças, como se fosse um sheik árabe dono de poços de petróleo.

Para tentar abrandar o peso das denúncias, Pires de Sá chega ao cúmulo de dizer que o valor pago a uma acompanhante em Portugal chegaria a 2 mil euros, como se isso atenuasse a gravidade de suas gastanças.

Agora, chega a conta amarga de tanta irresponsabilidade. Condenado pela Fifa a iniciar a Série B com 6 pontos a menos por conta de uma dívida com o Al Wahda, dos Emirados Árabes. Pior ainda: a nova direção do clube foi avisada ontem de uma pendência de R$ 9 milhões, referente a débito com o Zorya Luhansk, da Ucrânia, pela compra do atacante William, em 2014. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 21)

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