Parazão: a rivalidade inflamada

POR GERSON NOGUEIRA

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Só é possível alterar campeonato já iniciado – e com regulamento aprovado pelos clubes – com a concordância unânime dos disputantes. A posição foi manifestada pelo representante da FPF, coronel Claudio, durante reunião extraordinária do congresso técnico do Parazão, ontem à tarde, convocada para projetar cenários para a competição paralisada no início de março.

Por videoconferência, os dirigentes dos 10 clubes e a diretoria da FPF discutiram, com direito a altercação verbal em alguns momentos, e o desfecho passou longe de um consenso. Pelo contrário. A velha rivalidade entrou em cena quando a proposta defendida pelo bicolores foi posta em discussão. O Papão quer encerrar o campeonato e ficar com o título de campeão pelo fato de liderar a fase de classificação.

Os remistas não admitem nem conversar a respeito, alegando que a competição não chegou ao final da etapa classificatória e que é inconcebível declarar campeão, vice e classificados às competições nacionais sem que o Parazão tenha prosseguimento em campo.

Para o presidente bicolor, Ricardo Gluck Paul, a competição tem que acabar agora. “Tem que haver solidariedade com o momento do futebol brasileiro, inclusive com a doação pela FPF do dinheiro para as despesas de logística”.

Em declaração feita após o congresso, Ricardo criticou duramente o fato de a FPF não ter aceitado validar a proposta e contestou a presença de assessoria jurídica para mediar a reunião. 

Ricardo argumenta que a crise econômica ocasionada pela quarentena de enfrentamento à covid-19 afeta os clubes e justifica a tese de encerramento da competição. “Ao perceber que a votação iria para um lado indesejado, a FPF escolheu o que poderia ser votado ou não, mostrando que tem um clube preferido. Não há compromisso com o futebol do Pará”, afirmou, observando que a votação iniciada garantiria o PSC campeão.

É natural e previsível que não haja unanimidade e que o rival Remo adote posição contrária. Caso a situação fosse favorável ao lado remista, os bicolores certamente reagiriam da mesma forma, contestando o término do campeonato.  

O encontro terminou sem proposta de mudança aprovada. Por ora, o campeonato deve ser mantido e jogado no gramado, como os demais regionais em disputa no país. 

A maioria das sugestões nem chegaram a ser explanadas porque o impasse ficou estabelecido com a proposta que beneficia diretamente o PSC, validando a classificação de momento do campeonato e encerrando a competição. Remo e Bragantino não aceitaram a proposta, outros clubes apoiaram o PSC e ainda houve abstenções.

Como nada ficou decidido, a FPF deve submeter todas as propostas aos patrocinadores e ao governo, que banca a competição com repasse de verbas através da TV Cultura (pela transmissão dos jogos) e Banpará, que paga as premiações.

O Remo, através do presidente Fábio Bentes, diz até concordar com o fim do Parazão desde que não haja declaração de título e nem rebaixamento.

Fábio alega, sempre com base no regulamento da competição (art. 70), que não há nada que ampare a simples entrega do título a um dos times num campeonato em andamento. “Se só o Remo tivesse sido contra, a proposta não teria sido aprovada. Mas não foi o caso, outros clubes também não aprovaram. O regimento interno da FPF diz que qualquer alteração no regulamento do campeonato só pode ocorrer com a unanimidade de votos”.

E complementa: “Definir na marra classificação e campeão, não rebaixamento, não vai colar comigo. Temos repaldo legal. Nossa lei, que é o regimento da FPF, está acima da vontade individual de cada clube. Topo discutir término do campeonato, mas sem proclamar campeão. Campeão só jogando nas quatro linhas, ganhar na marra jamais vai acontecer. O Remo vai brigar em todas as instâncias, se preciso até na justiça comum”.

O fato é que a rivalidade permeia a dicussão. Argumentos técnicos acabam sufocados pela veia emocional. Paixões acaloradas não permitem ver que a solução mais simples e prática é esperar a situação clarear quanto ao próprio estágio da pandemia.

A CBF tem recomendado isso e algumas federações optaram por esperar mais um pouco. Por que no Pará o campeonato precisa logo de uma definição, sem esperar o resultado natural de campo?

De mais a mais, as seis datas para complementar o torneio podem ser perfeitamente encaixadas ao longo da Série C, aproveitando o intervalo entre uma rodada e outra do torneio nacional. Trata-se, obviamente, de questão de bom senso – e paciência.

Uma reunião nacional que tem consequências estaduais

No plano nacional, o debate continua intenso. A reunião da Comissão Nacional de Clubes, promovida pela CBF na terça-feira, com 37 clubes das Séries A e B, avançou quanto a cenário para a retomada e normalização do calendário nacional. Prevalece entre os dirigentes o consenso de que, sem datas, não há receita possível.

Ficou acertado que o mundo do futebol vai contatar representantes da comunidade médica para estudar a forma segura de antecipar a volta das atividades. Isso deve resultar  em um período de pelo menos dois meses de jogos com portões fechados e protocolos rígidos: testes nos atletas estão em debate, assim como a realização de jogos com presença de 20 a 30 pessoas (no máximo), além dos 22 jogadores em campo.

O plano é estabelecer um diálogo com autoridades, inclusive com o Ministério da Saúde, para não divergir das políticas de combate ao coronavírus. Haverá reuniões de clubes com as federações para começar a traçar um planejamento. Por ora, os jogadores ficam de férias até 21 de abril.

É importante notar que as federações não estão paradas e já esboçam protocolos de conduta. A Federação do Rio defende que cada clube elabore lista de até 40 profissionais fundamentais para o trabalho em dias de jogos e corre para garantir testes rápidos da covid-19 para os dias 27 a 30 de abril.

Por outro lado, finalizar os estaduais é prioridade. A CBF já garantiu que eles devem ser priorizados no calendário para quando ocorrer a normalização das atividades. Clubes do Pará devem ficar particularmente atentos a essa questão, acatando o que se corporifica como consenso nas deliberações nacionais. 

(Coluna publicada na edição do Bola de quinta-feira, 09)

Um comentário em “Parazão: a rivalidade inflamada

  1. No país dos absurdos em que vivemos, mais um absurdo como esse não seria surpresa. Aliás, a própria mídia local noticia a possibilidade como se fosse a coisa mais normal do mundo. Que falta faz a bola rolando em campo.
    Na próxima edição do campeonato, que tal pontos corridos? Assim, o campeão seria quem acabasse com mais pontos. Mas, depois de 2004, ninguém se arrisca a isso.

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