A bolsa ou a vida

Por Francisco Celso Calmon

Os larápios de antigamente chegavam para assaltar as senhoras e antes de uma violência maior anunciavam a opção: a bolsa ou a vida? Se fosse com senhores era: a carteira ou a vida? Diante da opção, a vida era, em regra, a escolhida, por uma razão simples: a sobrevivência levaria a adquirir uma nova bolsa ou carteira. 

A dicotomia entre a vida e a economia, no fundo é falsa, porque a economia só existe se houver vida. 

Entretanto, faz sentido a contradição porque há os adeptos do darwinismo social e da teoria de Malthus. A primeira teoria exorava a sobrevivência dos mais aptos (os da nobreza, os de raça ariana, os puros, os ricos …). A segunda defendia que o mundo deveria, sim, ter doenças, guerras, epidemias, para equilibrar a produção de alimentos com crescimento populacional.

Na história da humanidade todos os seres de nossa espécie foram imprescindíveis para chegar à contemporaneidade. E a compreensão da importância da sobrevivência elevou a vida a um direito garantido por lei.  

Artigo 3° da Declaração Universal dos Direitos Humanos: Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

O Pacto de São José de Costa Rica, em seu art. 4, n. 1, determina: Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei […]. 

Art. 5º da Constituição brasileira – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida […]

Sem a vida humana não existiria sociedade e consequentemente não existiria economia.  

O bem jurídico primígeno do ser humano é a vida, sem a qual não haveria trabalho. E sem o trabalho não haveria o capital, pois é fruto da mais-valia do trabalhador. Tudo é produto do trabalho, até o capital que o explora.

Dessa conclusão pode-se afirmar que a partir desse direito basilar os demais direitos existem e podem ser exercidos. 

direito à vida torna o Estado o zelador da vida dos indivíduos, garantindo direitos como saúde, educação, moradia, etc.  

O sociopata do Planalto não pensa e não age consoante a essa concepção e obrigação das obrigações. Pensa e age como outros sociopatas da história, como Nero, Hitler, Idi Amim Dada, cujo valor da vida era nenhum frente aos seus interesses e projetos de grandeza de domínio. Bolsonaro se orienta por ideias malthusianas e darwinistas-sociais, tornou-se um pregoeiro da morte, do desprezo pela vida dos brasileiros, principalmente dos idosos e pobres em geral. 

Eliminar 30 mil ou 300 mil ou mesmo Um milhão de cidadãos, afirma como natural e inevitável, porque segundo o seu raciocínio os idosos morrerão mais cedo ou mais tarde, desse vírus, Covid-19, ou de outro qualquer,  e manipula seus colaboradores a ponto de transformar o ministro da educação, médico, em ventríloquo de sua ideologia nazifascista.

Ninguém se salva, a exceção dos “bananinhas”, nem mesmo os ministros e assessores militares. 

Ele irá comprometer o Exército indelevelmente como cúmplice do genocídio que está em curso. 

O sociopata nunca desiste de seus planos, por isso, por mais pressão que haja, a renúncia não está no seu radar, salvo se os seus delinquentes filhos estiverem sob iminência de desmoralização e até prisão, ou se o respaldo do Exército desaparecer.

Seu estratagema é claro: irá polarizar com todas as medidas de governadores e prefeitos para posteriormente os culpar pela inexorável recessão econômica, que levará o PIB a incríveis números negativos. Ele não está preocupado nem com a economia e nem com a pandemia, está centrado em preparar a defesa do desastre econômico do seu governo.

Entre a vida e a bolsa (de valores), o caminho é a sua interdição imediata.

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

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