Na Inglaterra, toda a pressão do dinheiro sobre a Premier League

O Liverpool de 2019/2020, com o título essencialmente assegurado

Por Sílvio Lancellotti

Os povos das nações da Grã-Bretanha já praticavam o Ludopédio, ou um jogo parecido, quando, na noite de 26 de Outubro de 1863, na vetusta Freemason’s Tavern de Blackheath, Londres, 13 rapazes comandados por um tal Ebenezer Morley esboçaram a base das suas regras. E foi exatamente em 23 de Março de 1888 que, no Anderton Hotel da capital do Império que, sob a liderança de um forasteiro na cidade, William McGregor, diretor de uma agremiação de Birmingham, aquela do Aston Villa, um grupo de seis cartolas tornou formal uma entidade que já se esboçava desde 1884, a Football Association.

Além do Villa, se comprometeram o Blackburn Rovers, o Bolton Wanderers, o Preston North End, o Stoke City e o West Bromwich Albion. A oficialização da FA, com a criação de um campeonato regular, aconteceria logo depois, em 14 de Abril, numa reunião em outro lugar, no Royal Hotel de Manchester.

Do primeiro título, abiscoitado pelo Preston, temporada de 1888/89, até hoje, a FA fermentou o suficiente para ostentar 72 clubes profissionais, 69 na Inglaterra e três no País de Gales. Ostenta três divisões e supervisiona o mais antigo certame de todo o planeta. Desde 1992 batizada de Premier League, a mais importante dessas divisões ocorre por pontos e em turno e returno.

A entidade ainda realiza a FA Cup, inclusive com agremiações de diletantes, 736 no total em 2018/2019, obviamente no sistema de mata-matas. E mais o EFL Trophy, com 64 clubes, igualmente em duelos eliminatórios. Trata-se de contendas que, só com os direitos de TV, puderam acumular, na sua última temporada, a preciosa bagatela em torno de R$ 15bi. Os patrocinadores, que anteciparam uma parte considerável desse montante, já ameaçaram romper o seu volumosérrimo contrato. O caos dentro do caos.

Neste dia 23 de Março de 2020, tão formidável portento pretendia celebrar com festanças o seu 132º aniversário. Acaba de ser assolado, todavia, por um microrganismo ultra-insidioso, um novo coronavírus, o causador de uma pandemia, a Covid-19. Não interessa, neste texto, quantos britânicos já se contagiaram – afinal, o volume se altera minuto a minuto. Muito mais significativo afirmar que o governo de Sua Majestade interrompeu até mesmo a solene, tradicional troca de guarda diante dos portões do Palácio de Buckingham. E o Futebol? Por enquanto, em recesso integral.

Apenas duas vezes, no passado, a FA suspendeu o seu campeonato. De 1915 a 1919, conseqüência da I Guerra Mundial. De 1939 a 1945, por causa da II. Infortúnio do Liverpool, 82 pontos em 87 possíveis, o absurdo de 25 à frente do Manchester City. Estupidamente injusto, caso o certame não acabe, a FA não entregar a taça aos “Reds”. Pela pressão dos patrocinadores, porém, se especula que o campeonato ressuscite em 1º de Junho, sem platéias.

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