O Brasil que deu certo está na França

Lula e Anne Hidalgo em Paris

Por Gustavo Conde

A miséria intelectual, a gente lamenta.

A aversão ao intelecto, o preconceito de si, a certeza da insignificância, a conformidade com as coisas postas, com as leis, com os significados chãos das palavras… Tudo isso é o que nos torna tão vitais para o ‘sistema’.

A moeda não é o dólar, o real, o iene. A moeda somos nós. Nós fazemos funcionar o sistema com a nossa força de trabalho associada a nossa ignorância.

Nós somos moeda e mercadoria. Somos commodity. A carne, o gado têm mais direitos do que nós. Têm mais assistência médica, sanitária. No Brasil, são até livres (andam pelo pasto).

Por isso Lula é essa ‘ameaça’ toda. Ao colocar um pouco de dinheiro na mão dos pobres ele reinventou a economia. Colocou valor monetário no seu hospedeiro sistêmico, o indivíduo.

O passo seguinte seria libertar o ser humano dessa condição de ‘moeda de troca’. Os brasileiros estávamos indo nessa direção, mas as notas maiores (as notas de cem, a classe média, os acumuladores monetários compulsivos) fizeram a revolta de 2013 e devolveram o sistema para a casinha do bom comportamento opressor.

Não sou ingrato. Foi bom experimentar a liberdade. Não durou muito, mas poucas pessoas na história tiveram a chance de ter esse gosto.

Eu me lembro de como era ter um país. Como era ter essa segurança em minha existência para pensar em outras coisas, na literatura, na arte, na teoria, no futuro.

As amizades eram mais leves, menos atravessadas pela desconfiança, pelo medo. Dava orgulho pensar que meu filho teria direito a uma universidade pública de qualidade, a um emprego, a assistência médica.

Hoje, a gente vê o país aos pedaços, as pessoas se matando para ganhar um centavo nas ruas.

Legiões religiosas fanáticas se agrupando em igrejas fraudulentas, focos de crimes e violência… Polícias assumindo sua face assassina e homicida sem mais nenhum tipo de pudores institucionais (já que a institucionalidade do país foi retorcida, moída e incendiada).

A lógica das classes covardes que destruíram o país maravilhoso que ia nascendo é, hoje, mandar seus filhos para o exterior.

Eles detestam o Brasil, sempre detestaram. Não são capazes de conviver com quem ama este país. Desconhecem o sentimento de amor, não só pela pátria, mas pela vida e por si próprios.

Gastam seu tempo assistindo novelas, assistindo o telejornalismo da Globo. Passam os dias lavando calçadas (lavam até paredes), trocam de carro (afundam-se em dívidas para manter um status que é pura falsidade), instalam portões eletrônicos, cercas elétricas, alarmes.

Muitos desses já tombaram com os governos Temer e Bolsonaro. Alguns estão morando nas ruas. Os que sobraram ainda não se desvencilharam de suas vidas miseráveis, regadas a mais profunda ignorância e a ausência completa de consciência política.

São assassinos. Eu não tenho pena, tenho ódio. E meu ódio não é ódio de classe. É ódio de sangue.

O tempo adicional de lazer que nos foi ofertado pelo país maravilhoso do passado recente – pelos governos civis de Lula e Dilma – foi mal aproveitado por todos nós, mas foi muito bem aproveitado por essa legião boçalizada que massacra tudo que vive ou anda.

Na ausência de intelecto para fazer brotar inovações e arte, o tempo lhes foi tóxico. Eles só conseguiam… Trocar de carro, lavar a calçada, instalar alarmes e edificar cercas elétricas…

E detestar os governos civis que lhes empurraram garganta adentro direitos trabalhistas para as ‘domésticas’.

Francamente? Eu me sinto feliz em não ser um deles. Isso me basta. Eu abro o sorriso e aproveito a vida, esquivando desses antissujeitos que potencializam minha percepção política de mundo e de ser.

A vida simples de jogar conversa fora é boa, ativa a memória, atávica e afetiva. Mas a responsabilidade em não se viver apenas para que o topo da pirâmide se alimente de minhas vísceras e trabalho é a condição básica para não se jogar toda uma existência no lixo.

É quase a diferença romântica entre homens e animais – com todo o respeito aos animais, que têm uma relação com o meio muito mais verdadeira e inteligente do que todos nós. Se for viver para procriar e predar, que seja para predar sentidos e procriar sonhos.

É assim que os donos do dinheiro nos veem a todos, intelectualizados ou não: como animais.

Esse Brasil que deu certo, hoje, está na França. É quase uma consagração, tardia e dolorosa, do mundo civilizado àquilo que nós, ‘selvagens’, construímos em tempos recentes: uma sociedade democrática, vibrante, inclusiva, criativa e alegre.

O retorno à selvageria é nosso pesadelo de turno. Mata-se mais indígenas hoje do que na época do descobrimento (mata-se simbólica e biologicamente). Perto desse governo, Martin Afonso de Souza era um ‘democrata’.

A memória, no entanto, é ingrata e insidiosa. É aquele comichão histórico que jamais vai se desprender dos sonhos dos justos e dos pesadelos do boçais: está cravado na história que todos nós, justos e boçais, fomos felizes um dia.

Para o indivíduo de uma espécie biológica que se acostumou, ao longo dos séculos, em organizar sentidos através da fala e da palavra escrita, não é pouca coisa.

Pode inclusive acionar um significante muito expressivo e exclusivo: a palavra ‘saudade’.

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