Sobre drogas

Por André Forastieri

Desregramento dos sentidos não é obrigatório para fazer Arte, mas ajuda. Sem substâncias que alteram a consciência, boa parte da cultura que me interessou e entreteve esses anos todos – rock, pra começar – nem existiria.

Drogas recreativas ajudam a perceber outros mundos, a enfrentar o assustador, a conectar com energias extremas, a acordar de manhã. Tomou seu cafezinho hoje? Café já foi droga ilegal e cocaína, legal. 

A definição de Droga depende da década e da geografia. Em boa parte do mundo consumir álcool, que é a minha cachaça, poderia me botar na cadeia. 

Mas falemos de Cocaína. 

Calcula-se o consumo anual atual em 600 toneladas métricas de cocaína, metade nos Estados Unidos, um quarto na Europa, outro quarto no restante do mundo.

É droga cara, como se vê pela distribuição geográfica do seu consumo. Tem que ganhar razoavelmente bem para consumir. 36 milhões de americanos já usaram. Dois milhões de americanos usam.

Pó é a droga recreativa por definição, desde seu primeiro grande defensor, Sigmund Freud, que adorava – dizia que “é bem estimulante na genitália”.

Seu contemporâneo Robert Louis Stevenson era chegado. Retratou bem a divisão entre o médico polido e medroso, Dr. Jekyll, e a besta do id libertada pela coca, Mr. Hyde. 

Um século depois, Stephen King, o mais bem-sucedido escritor dos EUA, aspirou os primeiros 12 anos de sua carreira, e garante que isso o salvou de morrer de tanto beber. Mas hoje está careta. 

Convivi com algumas pessoas que cheiravam. A maioria seguiu funcionando perfeitamente em sociedade. Não é prova científica de nada. É minha observação.

Cocaína é particularmente útil para o popstar, porque popstar se acha demais, e tem que subir ao palco e se provar diariamente.

Não é mole para o espírito, viver cercado de puxa-sacos dizendo que você é um gênio, e sexy, e única… E ter que provar ao vivo que é tudo isso mesmo, noite após noite.

No rock, não dá nem para começar uma lista de cheiradores famosos. É mais fácil fazer uma lista dos famosos por serem caretas, porque é pequenita.

Sobre isso é difícil bater “Wired”, a biografia do John Belushi. Foi escrita pelo Bob Woodward, de “Todos os Homens do Presidente”, em 84, pouco depois da morte de Belushi em 82.

É meio moralistão. Mas captura a energia da época, Nova York anos 70, movida a cocaína. Retrata John se despedaçando, e explica os porquês, que são bem anteriores ao seu vício.

De cara limpa, ele era um filho de imigrantes albaneses durango, gordinho, inseguro, gordinho. Cheirado, era uma força da natureza.

John Belushi cheirou para ter coragem, cheirou para ter carreira, cheirou quando ficou famoso, e morreu tomando um speedball – injeção misturando cocaína e heroína.

Vejo John imitando Joe Cocker, “I get high with a little help from my friends”. É engraçado e emocionante, triste, visceral.

Cinco anos depois estava morto, com só 33 anos. Ficamos sem Belushi. 

Também fomos poupados de assistir a sua lenta decomposição e eventual volta por cima, renegando o passado, em forma, modelo de superação. Como um Robert Downey Jr., também ex-SNL, famoso junkie, hoje Tony Stark e Dr. Dolittle, conversando com bichinhos fofos, ídolo das criancinhas. 

Será? Jamais saberemos. Ficou de John seus momentos de gênio, no Saturday Night Live, no filme Animal House, e como Joliet Jake, à frente dos Blues Brothers. Sempre trincadaço de pó. 

Drogas desinibem e inspiram. Coca também pode te tornar uma besta ególatra, ou um trapo. Há quem cheire e torne a vida da família um inferno. Há quem se mate.

Não, não recomendo. Também não demonizo. Dá pena de Belushi e de tantos que afundam. Mas existem muitos outros artistas que enfiam o pé na jaca, criam coisas maravilhosas, e seguem vivendo suas vidas normalmente. 

Uma olhada na minha velha coleção de discos, na estante aqui ao lado, e não consigo deixar de pensar: obrigado pelas drogas, obrigado pela cocaína.

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