Todas as músicas dos meus muitos verões

Por André Forastieri

Não sei quantos verões tenho pela frente. Uns vinte ou trinta, com perna boa? Figa, figa. Enquanto isso, há que aproveitar cada um ao máximo, o que estou fazendo no capricho em 2020.

Vou te poupar do momento “blogueiro de viagem” – só digo que o Rio de Janeiro continua lindo, e Bonito é mais que lindo. 

Também estou ouvindo muita música. Verão tem que ter trilha sonora. Cada um faz a sua. Ninguém escapa de algumas canções. Nem minha enorme implicância com Gilberto Gil me faz ouvir insensível No Woman No Cry, “Não Chore Mais”.

Foi a música que não saía do rádio no meu último verão de quase criança, meu primeiro de adolescente. Enterrei avó e avô naquele verão. Viajei sem meus pais. Primeiro carnaval pulado à noite, hormônios à flor da pele, goró alucinando.

A primeira namorada não tinha chegado, mas estava quase à vista. Dezembro de 79 – Fevereiro de 80. Tudo vai  dar pé.

Se eu for rememorar todas as músicas dos meus muitos verões que você devia ter na sua fitinha – opa, não tem mais fita, agora é playlist – escrevia até… este verão acabar.

Vou de leve, então, conforme comanda a estação. Brisinha no rosto.

Quando chega o verão eu sempre lembro desta. Do verão de 1985. Verão na gringa, porque era 13 de julho, e aqui o inverno já estava instalado; mas eram férias da faculdade, e eu suava em Piracicaba.

O maior concerto da história estava ao vivo na TV – Live Aid, Londres e Filadélfia, os maiores artistas daquela e de anteriores gerações, tocando ao vivo contra a fome na Etiópia. Depois se tornou banal show/evento/CD de caridade. Na época não, e te falo, ainda me arrepia ouvir os sinos bimbalharem no começo de Do They Know It’s Christmas.

Verão, então, e dois big big astros tinham sido originalmente escalados para um dueto intercontinental: Mick Jagger e David Bowie. Mas problemas técnicos de sincronia via satélite abortaram o plano.

Saída pela esquerda: gravar um vídeo voando, com os dois. O clipe foi exibido durante o Live Aid, incluído no VHS do evento, lançado em compacto  beneficente, e rodou sem parar nas TVs mundo afora.

A dupla, que se conhecia e se estranhava de décadas anteriores; um pouco rivais e um tanto chapas; a mulher de Bowie, Angie, diz que uma vez surpreendeu os rapazes na cama – deu show. 

Show de canastrice, show de à vontade, show de rock’n’roll. O arranjo é besta, eles cantam de qualquer jeito, a luz é uma porcaria, não tem cenário. A canção original, de 1964, é só mais uma entre tantas operetas juvenis da Motown, o maior sucesso de Martha and the Vandellas – Marvin Gaye, um dos autores.

Não importa. No meio da cantoria solene, dos hinos, da choradeira pelas criancinhas, do bom-mocismo, os ícones riam e rebolavam.

E isso é verão: levar tudo um pouco menos a sério, e levar muito a sério os prazeres que a vida tem a oferecer. A versão do Van Halen também tem essa vibe festiva, cores berrantes, birita, biquínis.

E vai ver é por isso que quando o sol começa a castigar forte, eu sempre me pego cantarolando: “summer’s here, and the time’s right for dancing in the streets”… 

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