De volta aos primórdios

POR GERSON NOGUEIRA 

Todo mundo sabe que sem povo não há futebol de verdade. Só a paixão popular garante calor e emoção. Ignorar essa verdade é pecado que dirigentes e gestores interioranos não podem cometer. Quando foi instituído o sistema de interiorização do Campeonato Estadual havia a desconfiança de que a coisa não iria longe pela falta de estrutura dos clubes do interior.

O problema de então era a precariedade dos estádios, quase todos fora das especificações técnicas oficiais. Ao longo de toda a década passada, houve tempo mais do que suficiente para que os clubes e as prefeituras dos municípios tomassem as providências necessárias para cumprir as exigências técnicas, mas a situação não se alterou, salvo honrosas exceções.

Para o campeonato deste ano, que começa neste fim de semana, o quadro é desalentador. Talvez seja o pior cenário desde que o interior passou a participar mais intensamente da principal competição regional.

A maioria das cidades que têm clubes participando do Parazão está impedida de ver jogos de seus times. Ver a dupla Re-Pa de perto, nem pensar. Os torcedores irão acompanhar os jogos pelas transmissões da TV Cultura.

Dos 11 estádios previstos para sediar jogos do torneio, oito estão em situação irregular e devem ser vetados para as primeiras rodadas. A rigor, apenas os estádios Jornalista Edgar Proença (Mangueirão), Evandro Almeida (Remo) e Leônidas Castro (Curuzu), em Belém, estão oficialmente aptos a receber jogos com cobrança de ingressos.

O problema é tão grave que a torcida foi mantida de fora do jogo de abertura, previsto para este sábado. Por razões de segurança, Independente x Castanhal foi disputado no estádio Parque do Bacurau, em Cametá, com portões fechados. O estádio Navegantão, em Tucuruí, está em obras (atrasadas) e não poderá sediar jogos do Independente no Parazão.

Além do Navegantão e do Parque do Bacurau, estão com pendências de laudos técnicos os estádios Diogão (Bragança), Mamazão (Outeiro), Maximino Porpino (Castanhal), Zinho Oliveira (Marabá), Arena Verde (Paragominas) e Jader Barbalho (Santarém).

Há casos de ausência de Anotações de Responsabilidade Técnica (ART) nos laudos, situação que afeta Baenão, Diogão e Arena Verde. Já o Parque do Bacurau ainda não dispõe do laudo do Corpo de Bombeiros e apresentou documento da Divisão de Vigilância Sanitária (Sespa) que não atende aos requisitos.

Para o Ministério do Público Estadual, que firmou Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Federação Paraense de Futebol estabelecendo prazo para apresentação de laudos técnicos 10 dias antes do início do campeonato, a alternativa é que as partidas marcadas para os estádios com pendências sejam realizadas sem a presença de torcedores.

O TAC foi celebrado em dezembro passado, instituído para impor ordem numa situação problemática há tanto tempo. Pois, mesmo com essa exigência legal, os clubes não conseguiram se habilitar a tempo.

Estádios como Arena Verde e Diogão dependem de pequenos ajustes para serem liberados, mas Modelão, Mamazão, Barbalhão e Zinho Oliveira ainda têm muitos itens a cumprir, devendo ficar em condições de utilização somente a partir da metade da competição. Os documentos ainda sob análise são os laudos de segurança, engenharia e prevenção e combate a incêndio, além de documentos sobre condições sanitárias e de higiene.

No caso do Baenão, o estádio foi liberado em julho do ano passado para jogos da Série C e tem laudos com duração de um ano. Como alguns papéis foram considerados ilegíveis, a documentação foi considerada incompleta, mas o estádio está plenamente ajustado para o Estadual.

Ao mesmo tempo, floresce a desconfiança de que alguns clubes não fazem tanto esforço para jogar diante de suas torcidas preferindo abrir mão do mando de campo – expediente disfarçado pela necessidade premente de jogar no Mangueirão – em troca de arrecadações lucrativas em confrontos contra Remo e PSC.

Isso já ocorreu em edições passadas, beneficiando Independente e Castanhal, entre outros clubes. O problema é que essas escolhas punem o torcedor, mola mestra da engrenagem. A urgência em levantar recursos é compreensível em torneio tão deficitário, mas não pode ser ignorado o papel das torcidas interioranas na sustentação do caráter estadual do campeonato.

O próprio conceito de Parazão fica em xeque diante da ausência de jogos nas cidades do interior. Na prática, pelos problemas dos clubes e prefeituras, o torneio adquire indisfarçado jeitão de competição metropolitana, como era nos primórdios.

Bola na Torre

O programa tem comando de Guilherme Guerreiro, com participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Neste domingo, em edição especial de 1h30 de duração, o BT começa às 20h30, na RBATV. Em pauta, a rodada inaugural do Campeonato Paraense.

Sem figurões, clubes apostam no trivial variado

Ao contrário de outras temporadas, quando os clubes se esmeraram em trazer jogadores conhecidos, geralmente em fim de carreira, o Parazão 2020 começa sem nenhum figurão contratado. As atrações são conhecidas de outros carnavais e, na prática, a aposta é na força de conjunto. Isso vale tanto para a dupla da capital quanto para os oito clubes do interior.

O Leão, bicampeão paraense, quer conquistar o tri investindo em jogadores pouco conhecidos – Geovane, Ermel, Jackson, Charles, Dudu Mandai – e tem como peças de maior identificação com a torcida o goleiro Vinícius e os meias Eduardo Ramos e Douglas Packer.

O Papão tenta recuperar a hegemonia tendo no técnico Hélio dos Anjos o principal nome de apelo junto ao torcedor. Nicolas é outro nome fote, pela boa temporada passada, mas não chega a ser um ídolo.

No Castanhal de Artur Oliveira, no Águia de João Galvão, no Independente de Vanderson e no Bragantino de Robson Melo, também não há nenhum reforço de maior envergadura. As armas são as de sempre: velocidade, raça e imposição física para superar as dificuldades de um torneio disputado em campos enlameados e que exigem resistência, acima de tudo. 

(Coluna publicada na edição do Guia Especial do Parazão, caderno Bola, deste domingo, 19)

Atualização: A coluna foi finalizada e impressa na madrugada de sexta-feira, 17. Durante a própria sexta, o Ministério Público deu prazo de 24 horas para que a FPF preste esclarecimentos sobre o atraso no envio de laudos dos estádios. Informou também que o estádio Parque do Bacurau (Cametá), antes vetado, havia sido liberado para receber público pagante.

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