Saudade das grandes finais

POR GERSON NOGUEIRA

O Campeonato Brasileiro tem hoje à tarde sua última rodada. A bem da verdade, o Brasileiro já terminou. Todos sabem que o campeonato acabou lá naquele Palmeiras x Grêmio de duas semanas atrás que garantiu o título antecipado ao Flamengo. O que isso, na prática, quer dizer¿ A rigor, não significa nada. Afinal, torneios podem ser decididos antes do giro final. O problema da história é a completa ausência da grande emoção que cerca o desfecho dos grandes eventos esportivos.

O triunfo do Flamengo, meritório e acachapante, deve ser aplaudido por todos, mas foi sacramentado sem que o campeão estivesse em campo. Foi, pela primeira vez na história do Brasileiro de pontos corridos, um campeonato ganho no sofá. Tanto pelo time como pelos torcedores. Um verdadeiro anticlímax. Nada poderia ser mais sem graça.

Por sorte, houve a coincidência com as comemorações pelo título da Copa Libertadores, conquistado um dia antes, em Lima. A torcida aproveitou o embalo e seguiu festejando. Mas, que é um troço esquisito, é.

A propósito da rodada de hoje, cuja única e frágil emoção é a disputa entre Ceará e Cruzeiro pela última vaga de permanência na Primeira Divisão, cabe lembrar que mais de 110 milhões de torcedores – parcela da população brasileira que, estatisticamente, acompanha futebol – acompanharão os jogos desta tarde imersos em desinteresse ou tédio.

A ocasião é propícia também para reabrir a discussão sobre um tema sempre alvo de debates acalorados: o formato de disputa do Campeonato Brasileiro. Já imaginou se hoje, ao invés de uma protocolar rodada de encerramento, tivéssemos uma final eletrizante entre os dois melhores times da competição¿

O Brasil inteiro iria parar, como parou para ver Flamengo e River decidindo a Libertadores. Pelas razões que expus acima, muita gente já defende o formato misto, ideal para um país de dimensões continentais como o Brasil, ávido por extravasar paixões. Merecemos um campeonato menos mixuruca que o atual.

Uma das ideias é instituir um confronto extra entre os dois times que terminarem nas primeiras colocações. Se a diferença for de três pontos ou menos, haveria um jogo único. Caso a diferença fique entre 4 e 6 pontos, a final seria em duas partidas. Seria uma alternativa interessante, sem quebra da meritocracia dos pontos corridos e adicionando emoção à disputa.

Outra hipótese seria um campeonato com tuno único, definindo a vaga para a Libertadores e classificando para um mata-mata espetacular entre os oito melhores. Um mês, provavelmente entre 15 de novembro e 15 de dezembro, seria dedicado a playoffs de três jogos para decidir o campeão.

Há, ainda, a sugestão de um Brasileiro com 25 clubes, permitindo a participação de Estados com clubes de massa que hoje ficam de fora do banquete da elite, casso dos representantes do Pará. De longe, a fórmula mais interessante: 12 jogos fora, 12 em casa, com playoffs de 3 jogos com os oito primeiros colocados.

Tenho acompanhado na internet, principalmente, uma troca inteligente de jabs entre defensores do sacrossanto certame de pontos corridos e os que pregam a necessidade de decisões mais empolgantes. Enquanto os primeiros costumam citar a “justiça” do formato atual, os últimos advogam o conceito de “não justiça” como igualmente válido.

A catarse, sufocada com a extinção das grandes finais, é ingrediente fundamental no cenário de um esporte naturalmente empolgante. Rompantes de improvisação e arte, explosão de sentimentos, trovões de alegria. Nada disso é possível ver no desfecho de um campeonato de pontos corridos, que parece preso ao formalismo da burocracia.

Em meio a isso, viceja a sensação de que em breve o campeonato nacional tende a aceitar de volta o sistema com mata-mata. Talvez demore um pouco, mas será reinstituído quando uns 15 clubes notarem que não têm mais chance de ganhar um título e fazer festa nos estádios, como ocorre com os 18 coadjuvantes do certame espanhol.

Vive-se hoje uma situação estranha e desconfortável. Na falta de o que fazer na domingueira, metade da torcida brasileira estará torcendo pelo sucesso ou pela desgraça do Cruzeiro. Convenhamos, é muito pouco.

Homenagem justa a um exemplo de dignidade

O técnico Roger Machado, do Bahia, foi recebido com aplausos, flores e música, sexta-feira, ao entrar no plenário da Câmara Municipal de Salvador para a solenidade de entrega da Medalha Zumbi dos Palmares.

É o reconhecimento público a um dos poucos técnicos negros em atividade na elite do futebol brasileiro e que tem adotado uma postura consciente e destemida no debate sobre racismo e intolerância no esporte.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a atração, a partir de 22h30, logo depois do jogo da NBA. Participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Em pauta, as movimentações da dupla Re-Pa para formação de elenco para a próxima temporada.

Um campeonato que nasce marcado pela confusão  

Quando o torcedor busca saber algo sobre o Parazão 2020, é convidado pela FPF e pelos clubes a perder de imediato o interesse. É tanta discussão vazia, críticas em torno de datas e mandos já acertados, que fica a impressão de que Chacrinha entrou em cena. Ninguém parece a fim de explicar, apenas confundir.

Por ora, vale o que foi decidido pelo Conselho Técnico da competição, com apenas um Re-Pa na fase de classificação (disputada em pontos corridos) e mata-mata a partir das semifinais. Não seria surpresa, porém, se até janeiro surgissem novas mudanças. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 08)

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