O PM que espanca rindo é a evolução do torturador da ditadura

Por Leonardo Sakamoto

Um policial militar aparece, em um vídeo, agredindo com o que parece ser um cano ou um pedaço de pau jovens que saem de uma festa na favela de Paraisópolis. Acerta muitos deles no rosto, agindo indiscriminadamente. Atinge até um rapaz que usa muletas para se locomover. Parece se divertir com o que está fazendo. A Ponte Jornalismo conseguiu o vídeo com um morador da comunidade. A PM afirmou que as imagens são do dia 19 de outubro, que a cena “não tem relação com o ocorrido no último final de semana” e que o policial foi afastado nesta terça (3) do policiamento de rua e um inquérito de abuso de autoridade foi instaurado.

Mas polícia está enganada, há uma clara relação. É exatamente esse contexto de repressão contínua e violenta que escalou até a morte dos nove jovens que estavam no baile funk na madrugada deste domingo (1). Pouco importa se foi feita há dois dias ou dois meses. Temos um policial, em tese, treinado para proteger os cidadãos claramente sentindo prazer com a tortura de jovens em um espaço público.

Durante as sessões de tortura realizadas no 36o Distrito Policial (local que abrigou a Oban (Operação Bandeirante) e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista), durante a ditadura, os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá.

As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria. Ele precisa ser freado pelo resto da sociedade.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário “quebrar” a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era e pelo que representava. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também um lugar de fala, uma visão de mundo, uma ideia.

Entrevistei várias pessoas que foram torturadas no antigo DOI-Codi. Contam que havia algo mais além da justificativa ideológica, uma sensação de prazer no que faziam. Talvez esse prazer surja da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna DOI-Codi era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. E a metodologia desenvolvida durante esse período e a certeza do “tudo pode” continua provocando vítimas em delegacias e batalhões policiais espalhados pelo país e nas periferias das grandes cidades, como em Paraisópolis, onde a vida vale muito pouco.

Dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano. Muitos dos que fizeram o serviço sujo para a ditadura e passaram pelo prédio do DOI-Codi amavam sua “profissão”. Pelo rosto do policial em Paraisópolis, podemos dizer o mesmo.

Não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Muito menos em uma missão divina porque Deus, se existir, nunca ouviu os gritos que saíram de lá. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E o mal precisa ser extirpado.

O mal precisa ser extirpado. Tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser extirpados. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro.

Protocolos de ação policiais em comunidades (que afirmam que a dignidade deve ser preservada) são rasgados hoje diante do discurso que transforma esses jovens no “mal”. Afinal, juntam-se “ilegalmente” aos milhares para corromper os valores dos “homens e mulheres de bem”.

Ah, a História se repete sim. Não como farsa, mas como delírio. Já fiz essa reflexão aqui antes, mas faço novamente. O golpe de 1964 e a ditadura ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez.

O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). Os torturados do passado são torturados novamente e todos os dias, no Brasil, sob outros nomes. Normalmente, jovens, negros e pobres.

Desejo que a história daquele período continue a ser contada nas escolas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

Nossa geração tem sido incompetente para garantir dignidade à próxima. Espero que eles nos perdoem e sejam mais capazes que nós em construir uma sociedade em que esse tipo de cena não aconteça. E, se acontecer, não venha com aplausos na forma de likes.

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