O mestre do jogo bonito

POR GERSON NOGUEIRA

Baluarte da escola positivista do futebol brasileiro, aquela que deslumbrava o mundo com dribles e gols, nos deixou na sexta-feira. Vivia quase esquecido, habitando apenas a memória dos empedernidos fãs do jogo bonito. Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, morreu aos 80 anos. Foi um sujeito importantíssimo na formulação de jogo, desenhando um jeito de jogar diferente e apostando tudo na técnica e na habilidade.

Nesse sentido, lembrava muito o Mestre Telê. Ambos tinham obsessão pelo passe bem dado e a jogada mais rebuscada. Só admitiam vencer jogando bem, com encanto e arte. “Treinador brasileiro que não joga no ataque não pode ser levado a sério”, disse Cilinho, lá pelos idos de 1987.

Curiosamente, estaria na moda hoje. O Brasil acompanha, extasiado, as atuações do Flamengo de Jorge Jesus e, em escala menor, do Santos de Jorge Sampaoli. Dois técnicos vindos de outros países, com filosofias completamente diferentes das existentes por aqui.

Os times de Cilinho jogavam dessa maneira, como a provar que o gosto pela técnica refinada e a vocação ofensiva não dependem de tempo ou lugar. Popular nos anos 80 pelos títulos conquistados com o São Paulo cheio de moleques bons de bola, conhecido como “Menudos do Morumbi”.

Quase foi parar na Seleção Brasileira. Era o preferido da galera, mas foi descartado pela CBF porque era exigente e certinho demais. Havia a quase certeza de que o futebol-arte das Copas de 1982 e 1986, com Telê, devia ser evitado. Por isso, na corrida para comandar o escrete na Copa de 1990, Cilinho foi superado (imagine só) por Sebastião Lazaroni, que acabou escolhido para dirigir o escrete em gramados da Itália.

Algumas outras condições impostas por Cilinho dificultaram sua chegada à Seleção. Combatia o bagunçado calendário do futebol nacional, defendia uma seleção que atuasse todos os meses e não abria mão de coordenar o trabalho de formação de atletas. Cobranças demais para a conservadora CBF, presidida à época por Otávio Pinto Guimarães.

Cilinho viveu o auge da carreira por mais ou menos uma década. Foi quase um revolucionário, não só por revelar grandes jogadores, mas pelos métodos inusitados que usava para ensinar fundamentos e aperfeiçoar virtudes técnicas. Cultivava um carinho especial pela chamada essência brasileira de jogar futebol.

Como admirador confesso de Elba de Pádua Lima, o Tim, considerado um dos maiores estrategistas do futebol brasileiro. Era adepto de treinos específicos para o posicionamento de um time sem a posse de bola. Costumava usar bolas de tênis e borracha para que os jogadores aprimorassem o domínio de bola e a habilidade.

Um dos macetes mais empregados por Cilinho foi a célebre viseira no rosto dos jogadores para evitar que olhassem para baixo ao controlar a bola. A ideia óbvia era que o atleta jogasse sempre de cabeça erguida, olhando o jogo e não a bola. Para respaldar esse conceito, cravou uma frase que marcou época: “Nunca confie em garçom ou centroavante de cabeça baixa”.

Foi este mestre boleiro que nos deixou, sem pompas ou homenagens. Fez a glória de muitos times e encantou milhares de torcedores. O domínio do Flamengo ofensivo de Jesus prova que seus ideais não envelheceram.

Mala branca segue fazendo estragos por aí

O América-MG vacilou feio em casa diante do rebaixado São Bento, no sábado à tarde, deixando escapar entre os dedos o acesso à Primeira Divisão depois de uma brilhante campanha de recuperação na Série B. Essa é a leitura normal dos fatos, digamos assim.

Na prática, porém, fica óbvio que o chamado doping financeiro entrou em campo outra vez, impávido e impune. De campanha errante, com baixíssimo aproveitamento em jogos como visitante, o São Bento encarou a partida como se fosse decisão de campeonato.

Quem via a volúpia com que os jogadores se lançavam em todas as divididas ficou certamente sem entender como o time caiu para a Terceira Divisão. Dividindo toda, atacando em medo, o ao Bento fez dois gols ainda no 1º tempo, sofreu um gol do América, mas sustentou a vitória até o fim.

Como resultado disso, o Atlético Goianiense comemorou o acesso mesmo sem vencer seu jogo em casa contra o Sport-PE. É claro que não é errado ou ilegal um time se empenhar pela vitória mesmo já estando rebaixado.

O que não pode é a livre circulação de agrados e gratificações entre clubes para facilitar a vida de uns e atrapalhar a ascensão de outros. Como todo negócio clandestino, não há recibo nem comprovantes dos esquemas, mas que a coisa floresce a cada fim de campeonato não resta a menor dúvida.

Remédio legal para isso não há, mas com um mínimo de esforço é possível que a CBF se municie de providências para investigar os arranjos. Confiar apenas na sincronização (nem sempre respeitada) do tempo de início e reinício dos jogos é muito pouco para evitar agressões à lisura do torneio.

E as meninas invadem majestosamente o campo de jogo              

Com narração de Paula Marrocos, comentários de Karen Sena e informações de Lauany Chaliê, a Rádio Clube do Pará marcou mais um golaço histórico no radioesportivo paraense. Na decisão do Campeonato Paraense de Futebol Feminino, o trio de jornalistas comandou a jornada esportiva da emissora.

Fato inédito no rádio paraense e extremamente animador em tempos de empoderamento feminino. O jornalismo radiofônico precisa respirar novos ares e a equipe comandada por Guilherme Guerreiro sai novamente na frente.  

O jogo também marcou a participação da atacante Baião, representando com honras as tradições esportivas de nossa terra natal. Jogadora da Esmac, campeã da temporada, ela foi um dos destaques do jogo e da competição.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 02) 

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