Jesus desafia o corporativismo

POR GERSON NOGUEIRA

A presença vitoriosa de Jorge Jesus no futebol brasileiro tem incomodado a maioria dos técnicos da Série A. De vez em quando, surge um comentário enviesado ou uma observação que visa desmerecer os resultados obtidos pelo comandante rubro-negro.

Os números estão com Jesus, o desempenho do Flamengo também. Os títulos (Brasileiro e Libertadores) ainda não chegaram, mas não há hoje no país um técnico mais bem sucedido que ele. Fato.

Nenhum técnico estrangeiro fez tanto sucesso no Brasil, o que ajuda a explicar o desconforto dos treinadores, até pela falta de hábito em dividir holofotes com um profissional de fora.

O incômodo é maior ainda porque Jesus não refresca ninguém. Não é lá muito chegado a palavras amáveis e costuma ser ácido nas declarações, batendo forte quando acha que o adversário não queria jogar futebol ou quando seu time sofre marcação desleal.

Atacou publicamente Alberto Valentim, do Botafogo, pelo que considerou uma atuação de “caça ao homem” no clássico da semana passada. Em resposta, o botafoguense deu um jeito de mencionar que “aqui é assim”, bairrismo tolo no futebol globalizado de hoje.

Antes, o retranqueiro Fábio Carille, ex-Corinthians, num acesso de puro delírio, disse que seu time não jogava tão diferente do Flamengo de Jesus. Renato Gaúcho, que ontem perdeu de novo para o português, já questionou o currículo e a idade do colega de profissão.

Na entrevista concedida após o jogo com o Grêmio, Jesus botou o dedo na ferida. Afirmou que não é melhor e nem pior que os demais treinadores. Falou que veio trabalhar, não para tirar o lugar de ninguém e nem ensinar.

Aproveitou para lembrar aos distraídos que “em Portugal já trabalhou um brasileiro, Scolari, um grande treinador, que foi acarinhado por todos os treinadores portugueses. Além dele, Lazaroni, Abel, René Simões, Autuori e outros trabalharam e nós tentamos aprender, tirar algo de positivo”.

Em seguida, deixou a sutileza de lado e entrou de sola reclamando da agressividade verbal que os treinadores do Brasil têm demonstrado em relação a ele, inclusive alguns que já estão aposentados.

“Não entendo estas mentes fechadas. Não me incomoda, quero é que eles cresçam, que percebam a globalização do mundo. A globalização ainda não chegou ao Brasil? Já chegou ao Brasil, eu estou aqui… Que não se fechem e que tirem estes fantasmas da cabeça porque o Brasil tem grandes treinadores”, observou, antes de citar Camões e o pecado da inveja.

Além da contribuição como técnico, Jesus presta um imenso serviço ao futebol brasileiro ao escancarar a vaidade excessiva dos treinadores nativos que se traduz no corporativismo radical e nas constantes críticas ao lusitano.  

Classe adulada excessivamente, a ponto de merecer a designação inadequada de “professor”, técnico no Brasil raramente se preocupa com atualização e aprendizado. Talvez por isso, Felipão seja o único que até agora se destacou no futebol europeu.

Vanderlei Luxemburgo teve uma oportunidade de ouro no Real Madrid dos galácticos, mas caiu pela inabilidade em lidar com astros de primeira grandeza (Zidane, Ronaldo, Beckham) e por não falar espanhol.

Ao invés de ruminar mágoas, os técnicos brasileiros têm com Jesus uma boa chance de sair da acomodação. Não que o português seja perfeito. Não é. Tem algumas manias bobas, como reclamar sempre que seus planos não se concretizam, mas tem coisas interessantes a transmitir, como a disciplina tática e a paixão pelo futebol ofensivo.

Papão deve anunciar renovação de Hygor e Tomaz

Na semana mais importante do ano, o Papão foca na decisão da Copa Verde com o Cuiabá, mas também negocia a renovação de contrato com jogadores importantes, como Hygor Silva e Tomaz Bastos, que têm o aval do técnico Hélio dos Anjos para permanecer no elenco.

Com entendimentos bem adiantados, ambos podem entrar em campo na quarta-feira garantidos para a próxima temporada, embora a prioridade no clube seja a conquista do torneio.

Caso os acordos sejam fechados, Hélio ganha peças importantes para formar uma base consistente para reformulação do time. Além de Hygor e Tomaz, o PSC já renovou com Micael, Bruno Collaço, Nicolas, Vinícius Leite, Uchoa e Leandro Lima. Elielton e Paulo Ricardo ainda negociam a renovação.

Sampaoli e o exemplo da coerência

O argentino Jorge Sampaoli, técnico do Santos, avisou de véspera que deixaria o clube se fosse obrigado a cumprimentar Bolsonaro durante o jogo contra o S. Paulo, na Vila Belmiro, que teve a presença do presidente da República. Não cumprimentou e ninguém ousou lhe pedir isso.

Politizado e declaradamente de esquerda, Sampaoli é um crítico do uso que a classe política adora fazer do futebol na América do Sul.

Tomou atitude que a muitos pode parecer arrogante, principalmente para os que estão acostumados com a postura tradicionalmente baba-ovo dos ídolos do futebol brasileiro.

O presidente já foi recebido com júbilo por Felipão, Neymar e Felipe Melo. Acaba de ser publicamente elogiado por Renato Gaúcho.

Sampaoli, além do belo trabalho no Peixe, se tornou voz solitária em contraposição aos que apoiam o atual governo no cenário do futebol brasileiro. Para isso, não precisou ser agressivo, gritar palavras de ordem ou segurar cartazes. Foi apenas educado e coerente. 

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 18)

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