Respeito ao jogo e à plateia

POR GERSON NOGUEIRA

Fiquei anotando e registrei que o maior clássico do futebol inglês teve, ontem, quase 65% minutos de bola rolando, índice considerado até modesto para os padrões da Premier League. No Brasil, partidas da Série A patinam em percentuais anêmicos que variam entre 45% e 50% de tempo de bola, com jogos marcados por paralisações e muita cera.  

Na prática, o que o exemplo inglês traz de educativo para o futebol praticado no Brasil é a preocupação com a qualidade do pacote oferecido ao torcedor, principal cliente e fiador do negócio todo. Significa respeito a quem, em última análise, banca o circo.

Liverpool e Manchester City buscaram com afinco a vitória. Melhor time da Europa, talvez do mundo, o Liverpool empreendeu uma pegada avassaladora nos primeiros minutos. Rapidamente construiu um resultado confortável. Aos 13 minutos, já vencia por 2 a 0. Entrou na reta crítica do confronto ganhando por 3 a 0, com o gol de Mané aos 6’ do 2º tempo.

Nem assim, com o boi na sombra, desistiu de querer mais. Atacava com a mesma constância e qualidade, sustentado pelo afiado entendimento do trio ofensivo Mané, Salah e Firmino, tarefa exponencialmente facilitada pela impecável atuação do volante-meia Fabinho, gigante nas jogadas pelo meio e autor do belíssimo primeiro gol.

O City, de Pep Guardiola, pareceu desconcertado com a firme postura dos donos da casa, mas não se aquietou com o placar aparentemente definido. Os 30 minutos finais tiveram presença permanente dos avançados Sterling, Aguero (depois Gabriel Jesus) e Bernardo Silva, criando um cerco à área vermelha que raros times costumam armar em Anfield.

Com tanto empenho em reduzir o placar, Bernardo Silva fez o gol de honra (e que gol!) após avanço de De Bruyne pelo lado esquerdo. Por alguns poucos minutos, o City ainda rondou a área quase obtendo o segundo gol, mas o Liverpool soube fechar a avenida criada no lado direito da defesa e conduziu as coisas a bom termo até o final. Um jogão.

Como de hábito, chama atenção a solidez tática do Liverpool, que no Brasil só encontra alguma semelhança com o Flamengo, que procura jogar sempre do mesmo jeito ofensivo em qualquer campo. O time de Jürgen Klopp não desafina, nem apoia seu desenvolvimento de jogo apenas no trio ofensivo.

Tudo começa lá atrás, na segurança da zaga liderada por Van Dijk e vigiada por Wijnaldum. As saídas são bem articuladas, com passes certeiros. Não há firula na parte intermediária, só eficiência e rapidez.

Há muito a ser observado (e aprendido) no futebol proposto pelos técnicos europeus da nova geração. Klopp e Guardiola são estudiosos, obcecados por treinos setorizados, com repetição exaustiva de movimentos e simulação de cenários de jogo. O que os times mostram em campo reflete maravilhosamente essa humilde dedicação aos métodos de aperfeiçoamento.

Novo comandante azulino prestes a ser anunciado

Depois das conversas iniciais entre diretoria e o executivo Carlos Kila encaminharam o perfil do técnico a ser contratado pelo Remo para a temporada 2020. Uma coisa ficou bem posta: não há espaço para treinador conservador e excessivamente cauteloso. A diretoria quer um time que proponha jogo e não se intimide nunca.

Fica claro que a jornada ruim no trecho final da fase classificatória da Série C teve efeitos profundos na reformulação do futebol azulino para o próximo ano, a começar pelo executivo.

Rogerio Zimmermann, Sérgio Soares e Moacir Junior são os nomes mais especulados. Nenhum deles conhece o futebol paraense, mas todos têm currículo respeitável. A escolha deve ser anunciada até quarta-feira.

Brasileiros são as novas vítimas do ódio na Europa

Depois das manifestações racistas na Bulgária durante jogo entre as seleções búlgara e inglesa, pela fase classificatória da Eurocopa 2020, a reação imediata das autoridades do país foi no sentido de amenizar os cantos agressivos e os sons de macaco que vinham das arquibancadas para insultar jogadores negros do time britânico.

Logo em seguida, a Uefa se manifestou dando uma espécie de puxão de orelhas na federação búlgara, mas sem qualquer punição prática, o que foi visto como uma passada de pano que só agrava o clima de racismo e neonazismo no continente.

Na semana passada, o atacante Balotelli foi alvo de xingamentos no jogo do Brescia (seu time) com o Verona. Revoltado, ameaçou sair de campo em sinal de protesto, mas foi contido até por jogadores do Verona. Depois de se recompor, deu a resposta em campo marcando um golaço.

O mais absurdo é que o jogador foi criticado publicamente por uma torcida do Brescia, a neofascista Ultras 1911, que recomendou que ele ficasse calmo e suasse a camisa. O texto atribui o incidente ao nervosismo do jogador e tenta diminuir o ato discriminatório da torcida do Verona.

Ontem, dois brasileiros sofreram na pele mais um episódio de racismo no futebol internacional. Os atacantes Dentinho e Taison, do Shakhtar Donetsk, ouviram fortes insultos raciais no clássico ucraniano contra o Dínamo de Kiev.

Os dois deixaram o campo chorando recebendo o apoio de companheiros de equipe, sendo que Taison ainda foi expulso por gestos de revolta dirigidos aos torcedores racistas.

Há uma crescente infiltração de grupos de extrema direita em torcidas de clubes europeus, com ênfase para manifestações na Itália, Espanha e países do Leste Europeu. A situação é tão grave que a Fifa vive fazendo campanha atrás de campanha, sempre de perfil educativo e sem muito resultado prático.  

A saída mais indicada para conter a onda de intolerância e ódio seria a adoção de medidas punitivas, como o banimento de times e federações. Para isso, porém, é preciso ter pulso firme e vontade política. O problema é que as entidades que comandam o futebol não parecem dispostas a comprar essa briga.   

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 11)

Um comentário em “Respeito ao jogo e à plateia

  1. Virou lugar-comum afirmar que o treinador do time vencedor de um clássico deu um nó tático no perdedor. Pior é que na maioria das vezes nem é assim.
    Ontem, por exemplo, o time de Klopp foi superior, controlou o jogo na maior parte do tempo, mas não deu nó tático capaz de engessar o adversário. Ao contrário. Soube escapar com extrema eficiência daquela pressão avassaladora que o City costuma dar e que geralmente resulta em gol logo cedo.
    Para isso foi fundamental a notável perícia de Allisson pra funcionar como líbero, assim como posicionamentos bem abertos nos dois lados do campo de jogadores aptos a receber um passe longo, na virada do jogo na hora certa, mais precisamente quando a troca de passes no campo de defesa já corria riscos.
    Foi assim que Henderson apareceu na posição de Alexander-Arnold e iniciou a jogada do gol de Fabinho, bagunçando o coreto da defensiva Guardiola e abriu caminho à uma vitória espetacular, que empurrou o atual bi campeão para o 4º lugar.
    Penso que a tarefa foi facilitada por ser incontornável o fato da defesa da equipe de Pepe ser fraca. Fernandinho não é zagueiro, não tem porte de zagueiro, embora seja melhor que o destrambelhado hermano Ottamendi, é apenas uma obsessão do treinador, que já havia transformado o apoiador Mascherano em beque no Barcelona; e o Stones faz jus ao nome pelo peso excessivo que lhe tolhe os movimentos. Walker pela direita marca mal e o Angeliño derreteu cedo demais.
    Enquanto isso, do outro lado, o corpulento mas não lento francês Lovren coadjuvava com eficiência o maior beque da atualidade Virgil Van Dijck, que dispensa apresentações. Fabinho, que já havia sido o maior nome do jogo contra o Genk, ontem voltou estar entre os melhores.
    Por fim, é um encanto ver a movimentação e fino trato à bola dispensado pelos artistas Salah, Firmino e Mané. Solistas especialíssimos a executar a sinfonia em conjunto com raro encanto, mas como se estivessem em solo virtuose. Ali está o futebol.

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