Adeus, pai

Por Apoena Augusto

Esta foto é de dezembro de 1977 e foi feita durante as comemorações do meu aniversário de 02 anos. Recebi de presente da querida Regina Alves no velório do meu pai, último sábado. Dadas as circunstâncias, acredito que ela não se importará com a “cirurgia” que fiz ao cortar o Ademir, que estava à minha esquerda, assim como os amigos que amam o ofício farão vistas grossas ao “crop” absolutamente criminoso pela ausência total de proporção na imagem.

O fato é que temos poucas fotos recentes juntos. Não me pergunte o motivo. Simplesmente não sei, mesmo tendo a convicção de que deveria tê-las feito. Justo eu, dublê de fotógrafo. No entanto, a modelagem que me faltara para as câmeras jamais se ausentou da minha vida. Agora que ele se foi, além do pai, também perdi o irmão, o amigo, o exemplo e, principalmente, o cordão umbilical que nunca enxerguei motivo para cortar.

Curiosamente (ou intuitivamente), a cada ano que se passava, ficávamos mais próximos a ponto de procurar organizar as agendas para que nossos momentos não fossem maculados. E tínhamos muitos. Desde o tradicional suco verde do café da manhã (ao som do indefectível liquidificador treme terra, mais eficiente que qualquer despertador) até as séries assistidas sempre antes de dormir, passando pelos almoços de sábado na piscina ou em busca de algum restaurante de paladar digno onde, invariavelmente, discutíamos os rumos do país, a política local e nacional, artes, música, literatura ou até, quem sabe, alguma baixaria do momento. Aliás, para quem o conheceu, não é difícil imaginar o meu esforço em não ficar tão para trás de alguém que devorava informação com a mesma voracidade crítica utilizada na destilação da escrita.

No dia 13 de novembro faríamos uma viagem de férias. Destino: Chile. Quando o caos se instalou pelas terras de Casillero Del Diablo, ele já estava em coma induzido no hospital. Resolvi contar, já que repórter que é repórter quer mesmo é saber da notícia. Acho que, no fundo, acreditei que ele poderia querer sair do apagão só para viajar e voltar de lá com um baita texto contando tudo, ao sabor de um Malbec nacional. Por sinal, essa não foi minha única tentativa. Falei da maniçoba do Círio, do aniversário dele (23) e ameacei até não pagar o cartão. Em resposta, apenas 3 bocejos. Teimoso.

Sobre teimosia, meu pai exercitou a sua até o fim. O problema que ele teve (um aneurisma na aorta abdominal, que se rompeu), segundo os médicos, cancela o CPF sem choro nem vela em mais de 90% das ocorrências. No caso dele, não só ficou por aqui por mais 18 dias como sambou na cara de nada menos que quatro paradas cardíacas. Como se já não fosse o suficiente, ainda virou estudo de caso no hospital e ganhou até uns suspiros da enfermeira que lhe dava banho. Danado.

Ele se foi e eu durmo e acordo todos os dias com uma enorme angústia no peito. O alívio vem com a certeza de que ele esteve cercado de muito carinho a vida toda e, mais ainda, nestes últimos e dolorosos dias. Foram tantas e tão generosas as manifestações positivas que, a cada uma, sentia ainda mais orgulho do pai que tive.

Algumas pessoas foram e continuam sendo especiais neste momento, pois insistiram em não largar minha mão (nem a dele) um minuto sequer, seja de forma literal, seja com atitudes dignas do que há de melhor no ser humano: minha mãe, Juraci, que foi lucidamente incansável nas orações e nos conselhos; minha namorada Nayana Serrão e sua mãe, Sonia Ayres, que colaram em mim feito Super Bonder com a sensibilidade que lhes é tão latente; meus tios Carlos e Irene Souza e meu primo Carlinhos, que foram os primeiros a saber do problema e não mediram esforços para que ele tivesse o melhor atendimento possível; minha tia Maria Celi e meu Tio Edmundo, que bateram ponto no hospital quase todos os dias assim que souberam; minha prima Lorena, que estava comigo na hora da pior notícia; meus primos Nádia Lima, Fernando Lima, Rosário Lima e Roberto Souza Lima Lima, que não deram trégua no grupo da família clamando por notícias e Orly Bezerra, que tratou meu pai com o amor de um irmão até o fim. Vocês não têm ideia do quanto isso foi importante.

Cabem também generosos agradecimentos ao Lúcio Flávio Pinto, que emocionou à todos com seu discurso onde ressaltou que, com meu pai, morre uma era do jornalismo; aos moradores do condomínio onde moramos, pois formaram uma corrente positiva para torcer pela recuperação; aos amigos do “senadinho”, sempre presentes nos bons e nos maus momentos; aos amigos meus e dele que recebiam todos os dias meu “boletim médico” (e comemoravam cada pequeno avanço comigo); ao Grupo RBA, que não só se preocupou em tempo integral com as notícias a respeito do quadro de saúde do meu pai, como noticiou em todos os veículos a sua partida com as honrarias de quem dedicou mais de 40 anos da vida ao Grupo; ao Grupo Mônaco, que me concedeu o bem mais precioso num momento como esse: tempo; aos demais veículos de comunicação, blogs, colunas, páginas e incontáveis depoimentos pessoais que tive a oportunidade de ler ao longo desses dias. Vocês todos foram incríveis.

Nesta terça meu pai foi cremado. A burocracia do processo impediu que isso fosse feito antes. Na quarta recebo as cinzas que serão jogadas em Algodoal, lugar que eu apresentei e que foi paixão à primeira travessia. Em agosto, quando tiramos nossas últimas férias juntos, a ilha foi o palco do seu derradeiro porre. Estou certo de que sua lucidez vai adorar a vista eterna.

(Transcrito do Facebook do amigo Apoena)

Tocante tributo ao companheiro Guilherme Augusto, que nos deixou na sexta-feira (25), através das palavras de seu amado filho Apoena.

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