Bahia e Santos salvando a pátria

POR GERSON NOGUEIRA

O futebol brasileiro é tradicionalmente um reduto de alienação e falta de consciência política. Nesse quesito, uruguaios, argentinos e chilenos dão um banho de engajamento e ativismo quando o interesse coletivo está em jogo. O Bahia tornou-se nos últimos anos uma exceção nesse cenário, com campanhas de incentivo à inclusão social e luta inclemente contra o racismo e outras formas de discriminação.

Felizmente, nesta semana a agremiação baiana teve a companhia de outro gigante do futebol brasileiro. O Santos divulgou na sexta-feira, 18, um duro comunicado contra o preconceito e o racismo. Tudo em função de injúrias raciais proferidas por um torcedor contra o volante Fabinho, do Ceará.

O Bahia abraçou a causa da defesa da natureza. Em face da poluição provocada por manchas de óleo nas praias do Nordeste, o clube anunciou que vai fazer no jogo desta segunda-feira contra o Ceará um protesto contra a negligência dos órgãos federais de proteção ao meio ambiente.  

O time treinado por Roger Machado usará camisas manchadas de preto para simbolizar as manchas de óleo que devastam o litoral nordestino, destruindo a vida marinha e afetando quase 200 localidades. O desastre, até agora não controlado, afeta diretamente a indústria turística da região.

O problema é seu. O problema é nosso. Quem derramou esse óleo? Quem será punido por tamanha irresponsabilidade? Será que esse assunto vai ficar esquecido? O Bahia é você, somos nós, cada ser humano”, diz o manifesto publicado ontem no site oficial.

É a forma como representamos o amor, o apego, o chamego, o sagrado, a justiça. O Bahia é a união de um povo que vibra na mesma direção, que respira o mesmo ar e que depende da mesma natureza para existir, para sobreviver. Jogaremos nesta segunda-feira (21), contra o Ceará, em Pituaçu, com a camisa do Esquadrão manchada de óleo”, acrescenta.

E faz um convite à reflexão: “O que faz um ser humano atacar e destruir espaços sagrados? O lucro a qualquer custo pode ser capaz de destruir a ética e as leis que regem e viabilizam a humanidade? A barbárie deve ser tratada como tal, não como algo natural.

Em tempo: o acidente ambiental tem consequências mais graves porque, em abril, foram extintos dois comitês que integravam o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC).

Volto à mensagem do Santos, tão importante e urgente quanto a atitude do Bahia, para trazer luz e comprometimento social ao mundinho do futebol.

Na mensagem postada nas redes sociais, o Peixe não deixa dúvidas quanto aos princípios que defende: “Se você é racista, preconceituoso ou xenófobo, por favor não compareça aos jogos do Santos FC, não seja Sócio Rei e não use nossos produto oficiais. Melhor ainda: deixe de torcer para o Santos. Você não merece esse clube e não é bem-vindo em nossa casa”.

É a mais firme posição assumida por um clube nacional contra todas as formas de discriminação. Um gesto histórico se lembrarmos em que país vivemos hoje. Parabéns a Bahia e Santos pelas corajosas iniciativas. Gestos assim reforçam a resistência contra as trevas da intolerância.

Ainda o debate sobre torcedores “mistos”

A propósito do tema abordado na coluna de ontem, recebi o seguinte comentário do amigo José Marcos (Marcão Fontelles) Araújo:

“Isso tem raiz na tradição cultural. Anos atrás, na minha infância, o meio de comunicação mais arraigado era o rádio e até o jornal escrito. E, lá no rádio, transmitido pelas rádios nacionais como Rádio Globo e Rádio Nacional, se acompanhava os jogos de Flamengo, Santos, Vasco, Palmeiras e outros, como se fossem de campeonatos locais. Era comum a molecada descer para as brincadeiras, nas domingueiras, com o radinho de pilha para não perder os lances do Pelé, do Fio Maravilha, Garrincha e outros.

Esse hábito levou ao crescimento de torcidas pelos times com que convivíamos. Hoje, com a explosão da tecnologia, em tempos em que quase todas as casas têm ao menos uma televisão, onde o celular está desde cedo nas mãos das pessoas, naturalmente vai haver (está havendo) uma mudança. Ou as paixões locais são destruídas, pela presença e domínio das equipes nacionais, ou as equipes locais se consolidam, reduzindo paulatinamente a expressão e poder dos clubes de Rio e São Paulo.

A manutenção da política de times de ‘bucaneiros’ que, em hordas, invadem o estado e, mesmo com qualidade técnica sofrível, envergam os mantos sagrados, de forma ridícula em detrimento de atletas de base e até de interioranos, que cada vez mais passam direto por cima de Belém e vão direto brilhar em outras praças, é o maior inimigo de clubes locais fortes. Além de que a falta de qualidade dos que vem para cá e do ato custo para manter esses ‘jogadores’ faz com que, a cada ano, nova leva de jogadores seja trazida, não criando empatia desses com a torcida. Não se tem mais ídolos dignos desse nome, como eram Bené, Moreira, Da Costa, Alcino, Neves, João Tavares, Quarenta e outros”.

Boa fase do Vasco faz emergir o velho Luxa

Vanderlei Luxemburgo é reconhecidamente um treinador competente. Sabe montar times e ler um jogo como poucos. Ontem, por exemplo, mexeu no time do Vasco no 2º tempo contra o Internacional, após o sufoco inicial.

A mudança de posicionamento reequilibrou a marcação e o time acabou chegando ao gol (Marrony) no reinício da partida. Depois disso, armou uma retranca que lhe valeu a terceira vitória consecutiva no campeonato.

Luxa é conhecido também por não segurar a língua afiada. Na entrevista pós-jogo, depois de algumas boas frases de efeito, ele se melindrou ao ser indagado sobre se vive uma “fase de recuperação” na carreira.

Respondeu ao repórter que, pela carreira vitoriosa, não pode sequer ser perguntado sobre isso. Acrescentou ainda que é hoje um dos mais bem sucedidos técnicos do futebol mundial.

Então, tá…

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 21)

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