A insustentável leveza da paixão

POR GERSON NOGUEIRA

O debate em torno dos torcedores mistos é mais ou menos antigo, mas ganhou força com a ampliação do fosso entre os clubes da elite nacional e os menos afortunados, que brigam pela sobrevivência nas divisões inferiores. No meio da semana, o Fortaleza desfechou campanha de combate aos “mistos” – aqueles que torcem por equipes de fora de sua região, além, é claro, do clube de casa.

A briga que antes ficava restrita às arquibancadas se tornou política oficial do Fortaleza, que se deu ao trabalho de preparar uma campanha de marketing, usando como cenário o restaurante temático do clube: retirou do cardápio a pizza mista, num recado direto aos torcedores de coração mais generoso.

Torcedores do Flamengo, adversário do Fortaleza na rodada do meio de semana, reagiram criticando a iniciativa do tricolor cearense, enxergando preconceito na campanha. Essa argumentação pontuou o posicionamento de quase todos os canais esportivos do Sudeste, menosprezando as históricas perdas econômicas geradas pela supremacia dos grandes clubes.

Aqui em Belém já tivemos oposição mais cerrada em relação aos mistos, mas o sentimento hostil acabou por atrapalhar a conscientização. Abordados com aspereza e truculência à porta dos estádios, os torcedores que usam camisas de clubes de fora (e até internacionais) acabam repudiando a militância agressiva dos que defendem a torcida puro-sangue.

A luta perde força por não convencer. Só faz acentuar diferenças e afastar público dos estádios. Seria mais prático e inteligente atrair o torcedor misto explicando o quanto ele pode colaborar para o crescimento do clube caseiro, normalmente mais necessitado de contribuições do que os congêneres tradicionais de outros Estados.

Acolher para convencer, jamais hostilizar. Devia ser esse o mote de qualquer campanha de valorização dos clubes junto ao torcedor. Impossível controlar a paixão e administrar a preferência de cada um, mas é perfeitamente viável usar argumentos para que o misto priorize o time da casa, normalmente com quem há um vínculo mais forte.  

Remo e PSC chegaram a encampar ações de convocação da torcida para que usasse a camisa do clube nos estádios. Tem funcionado. Muito mais gente vai hoje aos jogos trajando o uniforme do time de coração. É uma forma inteligente de consolidar a fidelização e diminuir a “mistagem”.

A hegemonia das mídias esportivas originárias de Rio e S. Paulo influiu decisivamente na formação das torcidas regionais. Nos anos 50, 60 e 70, as rádios cariocas bombardeavam o cidadão nortista com informes sobre os timaços da época e seus craques maravilhosos – Garrincha, Didi, Vavá, Dida, Nilton Santos, Roberto Dinamite, Zico, Jairzinho.

Ouvia em Baião, ao lado de meu pai José, jornadas esportivas e boletins diários de emissoras do Rio, como Continental, Tupi, Globo, Mundial. Sabia tanto sobre os treinos de Botafogo, Vasco e Flamengo quanto do que rolava na preparação da dupla Re-Pa. Como eu, milhares de outros torcedores foram doutrinados por essa disseminação de conteúdo.

Com a TV, as transmissões seletivas de jogos ampliaram o predomínio sudestino, num processo quase imperialista. Flamengo e Corinthians passaram a dominar a cena nacional, agigantando-se em relação aos demais clubes e sufocando paixões clubísticas nativas.

Sob esse ponto de vista, chega a ser heroica a resistência de torcidas de clubes tradicionais o Norte e Nordeste. Bahia e Vitória, Ceará e Fortaleza, Santa Cruz x Sport e Remo e PSC representam bolsões de luta sustentados pela rivalidade centenária.

Os clubes podem e devem encampar o esforço de suas torcidas. O exemplo do Fortaleza vale para os demais, pois representa a luta pela sobrevivência. Sem visibilidade, como ocorreu com a dupla Re-Pa na Série C deste ano, aumenta o desafio para captar patrocínios, ganhar campeonatos e – em última análise – aumentar o tamanho de sua própria torcida.

Continuo, porém, inteiramente avesso à ideia radical de proibir o acesso de torcedores com camisas e acessórios de outros clubes, a título de valorização do time mandante. Tudo que abre brecha para sentimentos de xenofobia gera riscos de confrontação. Há meios civilizados de fidelizar torcidas sem desrespeitar a liberdade de torcer por outros clubes.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta o programa, a partir das 21h, na RBATV. Presenças de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião.

Em pauta, a Segundinha do Parazão e a preparação do Papão para a final da Copa Verde.

Tapetão: refúgio para todos os dissabores

O Fortaleza surpreendeu com um recurso protocolado na sexta-feira (18) junto ao STJD. Pede a impugnação da partida com o Flamengo, realizada na última quarta-feira e vencida pelo time do Rio por 2 a 1. O clube cearense entende que foi prejudicado pela arbitragem no duelo.

Dois argumentos sustentam a apelação dos cearenses. Primeiro, há o lance que gerou o primeiro gol do Flamengo. Não teria havido o escanteio que originou o toque da bola na mão do zagueiro Quintero. Na cobrança do pênalti, Gabigol marcou.

A segunda queixa é de que duas bolas estavam em campo na jogada que levou ao gol de Reinier, aos 43 minutos do 2º tempo, virando o marcador. Segundo os advogados do clube, o lance é proibido pelas regras da Fifa (e é mesmo), o que deve forçar a anulação do jogo.

Olha, se toda situação de duas bolas em campo motivar impugnação de jogo, é melhor extinguir o futebol. Tribunais existem para reparar injustiças, mas apelações rasas deveriam ser punidas com multas pesadas o suficiente para botar freio nesse tipo de expediente.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 20)

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