La Pulga, The Best

POR GERSON NOGUEIRA

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Vi há poucas semanas na TV um documentário sobre Cristiano Ronaldo. O filme é de 2016, com o craque português ainda vestindo a camiseta alva do Real Madri. É de impressionar a dedicação aos treinos, a fissura por condicionamento físico de alto nível, os cuidados com a saúde e a concentração máxima no jogo.

Mesmo quando aparece ao lado dos amigos, do filho, da mãe, do irmão e do empresário e mentor Jorge Mendes, CR7 parece não relaxar um instante sequer. Sua vida gira em torno da carreira. Disse, há alguns dias, que marcar um gol é até mais prazeroso do que sexo. No documentário, ele fica o tempo todo dividido entre treinos e situações relacionadas ao futebol.

A dedicação de CR7 ao ofício é impressionante. Fica, porém, a sensação de que ele precisa se doar ao máximo para atingir os resultados excepcionais que teve na carreira até hoje. Seu sucesso depende de esforço, entrega e disciplina. Nada vem de graça ou cai do céu para ele.

Vem daí, justamente, a diferença entre ele e Lionel Messi, premiado ontem pela sexta vez como The Best – o melhor do mundo na votação da Fifa.

O argentino de 32 anos é há pelo menos uma década o jogador que mais nos encanta. Pelos gols. Pelos dribles. Pela incrível habilidade de conduzir a bola caprichosamente colada aos pés

A admiração por Messi deriva da tradição brasileira, que elege a moldura artística como quesito maior na avaliação de um futebolista. Por esse prisma, CR7 é craque, pois tem controle absoluto sobre a técnica. Messi, porém, vai além: tem o controle do jogo pela força do talento.

La Pulga faz mil façanhas com a bola sem o esforço que as mesmas coisas exigem de CR7 e dos demais mortais. Para completar, expressa uma humildade rara em grandes astros.

A temporada de 2018-2019 garantiu o prêmio maior a Messi porque exibiu um jogador no apogeu da maturidade. Registrei aqui neste espaço meu espanto com os quatro gols que Messi havia feito no certame espanhol numa tarde de inspiração ímpar. Tudo com aquele ar blasée de quem é capaz de fazer coisas geniais de maneira terrivelmente simples.

Fez gols de todos os formatos. Em disparada, driblando marcadores, aparando a bola de sem-pulo e batendo falta na gaveta com incrível precisão. Deu a impressão de que estava fazendo ali uma pequena exibição de suas virtudes naturais. Azar de quem não viu.

Em 56 jogos, deu 19 assistências e fez 54 gols – 8 em cobranças de falta. Na comparação formulada pelo jornalista brasilguaio Martin Fernandez, o Brasileiro teve 190 partidas no turno com apenas 9 gols de falta.

A premiação nunca esteve em mãos melhores. Não foi nem a temporada mais genial dele, mas foi suficiente para ser muito maior que todos, até mesmo do excepcional beque Van Dijk, do Liverpool, e redime a Fifa de alguns absurdos na seleção dos melhores. (Marcelo e Sérgio Ramos, por exemplo, não mereciam estar lá).

Aliás, pobre de quem viu Messi na recente Copa América e achou que ele é só aquilo ali. Além de estar em final de temporada, exaurido e pouco entusiasmado, ainda teve que enfrentar arbitragens pífias como a daquele jogo entre Argentina e Chile. Apesar disso, no jogo contra o Brasil ele teve bons momentos e mostrou parte do repertório enquanto teve fôlego.

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Um prêmio para o amor que vence todas as barreiras

Marco Aurélio Souza, repórter da TV Globo, cobria o jogo Palmeiras x Corinthians e, ao lançar um olhar para as cadeiras do estádio palmeirense, viu algo inusitado. Notou que uma mãe narrava o que via em campo para o filho deficiente visual e autista.

Curioso, foi até lá e indagou se era a primeira vez que ela fazia aquilo. Não era. Sílvia Grecco, a mãe, faz isso há tempos porque é lá no estádio de futebol que o menino Nicolas se sente realmente feliz.

Ela revelou também que Nicolas não curtia quando ela fazia o relato usando fones de ouvido. Descobriu que ele preferia ouvir o som da torcida no estádio, o ruído da alegria. Desde então, passou a contar baixinho para ele o que se desenrolava no gramado.

Mais lindo ainda é saber que Nicolas é filho adotivo. Sílvia o adotou quando 12 casais já haviam desistido da adoção.

Chorei ao ver a matéria do Marco Aurélio e não consegui segurar a emoção ontem, novamente, quando a mãe levou Nicolas à grande festa da Fifa para receber o Troféu do Torcedor.

Um grande momento da história do futebol propiciado pelo trabalho sensível e inspirado de um repórter de verdade.

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Neymar: fosso se amplia em relação ao prêmio

Enquanto os melhores eram premiados pela Fifa, muita gente ficou a se perguntar pelas chances de um brasileiro voltar a erguer o cobiçado troféu. Neymar parecia talhado para esse papel. Jogou em alto nível por três anos no Barcelona, cercado de alguns dos melhores jogadores do planeta.

Ao escolher o PSG como destino, decisão pautada no aspecto financeiro, o jogador se distanciou da premiação consagradora. Para voltar a ser cotado como candidato terá que fazer um ano perfeito, marcando gols, esbanjando a facilidade para o drible e conquistando títulos.

O PSG não parece capaz de ganhar a Champions e Neymar não parece a fim de trabalhar sério para tentar repetir o feito de Ronaldo, Romário, Ronaldinho, Rivaldo e Kaká.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 24)

3 comentários em “La Pulga, The Best

  1. Entendo que esse prêmio da FIFA não se destina ao melhor jogador de futebol do mundo, mas ao melhor jogador da temporada. Sou fã de Messi e Cristiano Ronaldo. Messi, assim como o Barcelona, vem claudicando nos últimos tempos. Vi os dois últimos jogos do Barça, com Messi no banco, entrando somente no decorrer da partida. Parece que a idade já começa a fazer efeito no condicionamento físico do gênio. E o condicionamento físico em alto nível sempre foi fator fundamental para suas jogadas rápidas e mortais. Não acho que o troféu foi merecido, o que não quer dizer que ele deixou de ser um atleta genial. A grife Messi pesou na escolha.

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  2. A história emocionante de Nikollas é daquelas que o esporte é capaz de proporcionar.

    O PSG persegue a Champions e não tem poupado esforço e dinheiro pra isso. Ganhar esse troféu é para o time francês o seu passaporte para atingir o panteão onde estão os grandes do continente. Somente um grande jogador e, ao mesmo tempo, um grande profissional pode entender esse esforço e se propor a fazer história junto com o clube. Não é o caso de Neymar que inegavelmente é um jogador de grande talento, mas de pouco profissionalismo.

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  3. Mesmo que não tenham feito temporada espetacular como outrora, ainda assim, Messi e Cristiano Ronaldo estão muito acima dos concorrentes, emergentes e aderentes. Agora é aguardar pra ver se Mbappe, Salah, VanDjik e quem mais surgir pra disputar o trono que esses dois deixarão, depois de mais de uma década de disputa renhida.

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