Um fenômeno desafiador

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POR GERSON NOGUEIRA

Parece coisa de cinema. Aquelas histórias incríveis de pessoas que superaram tantos desafios pelo caminho até alcançar a glória, no mundo artístico ou nos esportes. Nos últimos dias, o Brasil vem descobrindo o que muitos de nós, paraenses, já sabíamos sobre a vida do atacante Rony, principal destaque individual do Atlético-PR, campeão da Copa do Brasil.

Como a trajetória de Rony é a mesma de tantos outros moleques bons de bola que surgem no Pará quase ninguém parou para reparar muito no sufoco que ele enfrentou ao longo da vida. Até conseguir a chance de mostrar sua habilidade e capacidade de finalização, encarou muita má vontade e falta de noção de técnicos e preparadores.

Nada que a gente já não tenha visto antes, mas os aperreios de Rony impõem uma reflexão séria a todos que lidam com futebol profissional no Pará. Refiro-me, principalmente, a dirigentes e profissionais a serviço da dupla Re-Pa.

A preocupação com os rumos do futebol local se acentuam quando surgem informações, mesmo à boca pequena, sobre barbeiragens cometidas por técnicos importados e executivos de currículo duvidoso.

Muitos atletas que despontam ainda nas categorias sub-13 e sub-15 nem chegam a ser observados ou avaliados, a sério, para uma ascensão ao elenco profissional. Perdem-se pelo caminho, desestimulados e até amaldiçoando a vocação boleira.

Conheço pelo menos uns seis casos, divididos democraticamente entre Baenão e Curuzu. Fenômenos como Pikachu, Leandro Carvalho, Rodrigo Andrade, Gabriel Lima e Rony, para ficar em exemplos mais recentes, só se tornam possíveis por força do acaso, o que é absolutamente assustador.

Mas estamos tratando aqui da caminhada do irrequieto atacante. Menino ainda foi levado para testes no Evandro Almeida, foi deixado de lado pelos coordenadores da base, largou tudo e foi resgatado pelo esforço pessoal de Walter Lima, que havia notado seu talento e estranhou sua súbita ausência.

Havia desistido da bola. Interiorano pobre (de Magalhães Barata) e sem parentes importantes, como muitos de nós, Rony precisava ganhar o mínimo necessário para se sustentar em Belém. Foi trabalhar consertando bicicletas e motos, fazendo bicos como mototaxista.

Walter Lima insistiu para que o trouxessem de volta. Lançado na Copa São Paulo, ganhou confiança e logo apareceu no time profissional, conduzido por Agnaldo de Jesus.

Antes, passou alguns perrengues, como no dia em que um grupo de baderneiro invadiu o treino do Remo e um rojão quase o acertou em cheio. Em campo, fazia gols, ajudava a ganhar título e executava a cambalhota que iria virar marca registrada.

Para o Leão e sua torcida, esse período passou como um raio. Rony ficou pouco mais de um ano no clube. Logo se transferiu para o Cruzeiro – após negócio meio nebuloso –, passou pelo Náutico, onde teve o veterano goleador Kuki como mentor, e acabou no Japão.

Quando voltou ao Brasil, vestiu a camisa do Botafogo, mas a burocracia lerda do Glorioso permitiu que fechasse contrato com o Atlético-PR, onde vive o momento mais fulgurante da carreira. Aos 24 anos, tem um cenário extremamente favorável pela frente. Pode voltar ao futebol estrangeiro e de chegar, com alguma sorte, à seleção Brasileira.

Quando se observa a história de jogadores como Rony é impossível não observar os desacertos da política de formação de atletas no futebol do Pará. Mazzola Jr. disse, há quatro anos, que o problema da base é que não há base. Resumiu precisamente a situação.

Os clubes só valorizam meninos de futuro quando precisam completar elenco ou substituir titulares lesionados ou suspensos. Nunca se viu por aqui a execução de um projeto profissional de aprimoramento técnico para lançar um jovem atleta no time principal.

É sempre na marra, sem planejamento ou critério. Rony, como Pikachu, é um sobrevivente das mazelas do futebol paraense e sua consagração não deixa de ter um quê de constrangimento para quem cuida tão mal da revelação de jogadores no Estado.

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O equilíbrio delicado da relação imprensa vs. futebol

A mania de distribuir comentários elogiosos e brincadeirinhas vazias para enrolar torcida virou praga nos programas esportivos que dominam a cena do futebol no Rio e em São Paulo, contaminando o resto do país com a prática. A consequência direta disso é que jogadores, técnicos e até dirigentes ficaram mal acostumados.

Não aceitam nada menos do que a glorificação a suas atuações. Qualquer tentativa de comentário mais crítico, apontando falhas e desempenho ruim, sofre imediato rechaço por parte dos envolvidos. Recentemente, após um jogo do PSC, o técnico Hélio dos Anjos se alterou com um repórter que cumpria apenas sua obrigação profissional.

Ao invés de responder à pergunta, reagiu alegando perseguição e implicância. No final, ficou tudo por isso mesmo.

Acompanho também a treta entre Vanderlei Luxemburgo e o jornalista Mauro Cézar Pereira. O técnico reclama do tom ácido que é estilo do comentarista, refuta a fama de ultrapassado e procura fazer média com outros técnicos aborrecidos com os posicionamentos de Mauro.

Bobagem que só faz alguma marola por conta da cobertura jornalística de futebol no Brasil, extremamente refém de compadrios e gentilezas.

Nos últimos dias, Daniel Alves ressuscitou o debate, alegando que a “imprensa” desestabiliza o ambiente do futebol. Tudo porque, depois de mais um tropeço do São Paulo, alguém perguntou sobre sua produção em campo. Nem foi uma crítica, mas o lateral da Seleção subiu nas tamancas.

Curioso é que todos os que se irritam com perguntas incômodas, a exemplo de Daniel, não refutam os elogios por vitórias e conquistas. Saudado há meses, exageradamente, como craque da Copa América, Dani em nenhum momento reclamou das análises positivas.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 20)

4 comentários em “Um fenômeno desafiador

  1. Amigo Gérson, não seria momento para a FPF lançar um campeonato paraense sub-20, com jogos nas preliminares dos jogos profissionais? Seria mais um atrativo aos torcedores, colocaria os meninos da base na vitrine e justificaria minimamente o desconto da “Taxa da Federação”, 10% da renda bruta dos jogos, recurso cujo destino é duvidoso, visto que não prestam contas publicamente.

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  2. Rony na seleção não seria nenhuma extravagância, embora haja muita gente boa pelos lados à sua frente, todavia, em amistosos daqueles contra Gabão, Ilhas Faroe, Timor Leste, Haiti e congêneres bem que o endiabrado atacante atleticano poderia ter seu potencial testado.
    Daniel Alves voltou com a clara intenção de ficar perto de Tite e garantir seu espaço na seleção. No entanto, tem jogado muito abaixo daquilo que mostrou na última Copa América e isto tá com cara de efeito inverso.
    Além disso, em nada ajuda fazer essa cara de latin lover corneado que adotou, a distribuir culpas a torto e a direito sem ir diretamente ao ponto central: esse time do São Paulo está abaixo da expectativa gerada.

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  3. Comentários perfeitos. É constrangedor ver Roni e outros paraenses brilharem Brasil afora e, ao mesmo tempo, ver nossos times contratando bondes em excesso e não participarem sequer da Série B nacional. Constrangedor também ser testemunha de programas esportivos na TV onde há excesso de falantes, todos se expressando ao mesmo tempo em decibéis acima do aceitável e discutindo, muitas vezes, inutilidades.

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  4. Muito bem lembrado, amigo André. Mas os clubes, que deveriam forçar essa programação, pouco se importam. FPF não tem maior interesse em jogos na capital. O foco da entidade é o interior, buscando votos.

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