Nepotismo em larga escala: Bolsonaro corrompe o conceito de coisa pública

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Por Joaquim de Carvalho

O gráfico que O Globo publica hoje sobre a parentada que Bolsonaro empregou nos gabinetes da família é difícil de entender, tantos são os pontos e os cruzamentos. Mas não fica dúvida de que se está diante de um quadro de nepotismos em altíssimo grau.

Parentes de Bolsonaro, parentes das ex-mulheres de Bolsonaro, parentes de assessores de Bolsonaro, uma teia de relações familiares se tece a partir dos cofres públicos, que pagam a conta da generosidade de Jair.

Impressionante que um trabalho jornalístico como este não tenha sido feito antes — na campanha, por exemplo.

Talvez fosse útil para esclarecer os eleitores que estavam indecisos e pensavam, àquela altura, que o capitão merecia o voto, por passar a imagem de um político fora do sistema —  alguém que, assumindo, colocaria ordem na casa, contribuindo para acabar com as velhas práticas da política.

Afinal, não há nada mais arcaico do que o nepotismo, que remete aos tempos do papa da Idade Média, em que sobrinhos – nepos — eram nomeados cardeais apenas pelo vínculo de sangue. Eram conhecidos como cardinalis nepos.

Nos negócios fora da igreja, o nepotismo também era comum, e nem havia o conceito de coisa pública. Eram reinados, em que o poder vinha dos céus e não da vontade dos súditos.

O conceito de soberania popular surgiria mais tarde e é nesse conceito que, supostamente, se firma a república do Brasil.

Bolsonaro, entretanto, nunca separou o publico do privado. Nem na campanha, nem agora.

Basta ver o vídeo que um sobrinho de Bolsonaro, Osvaldo Campos, gravou recentemente quando ia para o casamento do primo, Eduardo Bolsonaro. Ele mostra o momento em que se dirige para embarcar em um voo da FAB. Por que o Estado tinha que ajudar a patrocinar a festa do filho do presidente?

O vídeo, depois de viralizar, foi retirado na internet  pelo sobrinho de Bolsonaro, mas já tinha sido copiado e está disponível em várias postagens no Facebook e no YouTube.

Na campanha, Bolsonaro foi questionado sobre as vantagens da classe política.

“A gente apoia o senhor, mas como é que a gente vai fazer um projeto de lei que acabe com tantos privilégios?”, perguntou um eleitor, que lembrou que existiam assessores sem qualificação.

“A gente tem que começar a arrumar a casas de cima, deputado”, observou.

Bolsonaro respondeu que não abriria mão das vantagens que o cargo oferecia e mentiu que só contratava pessoas competentes.

Segundo a reportagem de O Globo, há caso de assessores que nem foram vistas no local de trabalho, e alguns se declararam em registros públicos, como cartórios, que faziam outra coisa, não eram servidores públicos. Há donas de casa e até uma babá.

Uma possibilidade é que fossem laranjas e que nem ficassem com os salários, mas esta é outra história, bem mais grave.

“O que um deputado federal tem? 33 mil por mês de salário, está ok? 90 mil para contratar funcionários. Eu contrato meu pessoal competente. Funciona, me assessora, está ok? Você tem 40 mil para passagem aérea, transporte, carro, gasolina, almoço. Se é muito? Não sei. Eu uso quase tudo isso. (…) Para mim, é o suficiente, e não abro mão do que estou recebendo. Deixo bem claro isso daí. Não vou fazer demagogia.”

É surpreendente que Bolsonaro tenha recebido quase 58 milhões de votos, depois de dizer coisas como esta.

Recebeu votos em todas as classes sociais e teve proporcionalmente o maior apoio entre as pessoas com curso superior. Será que não sabiam que estavam votando em um político sem qualificação para ser o primeiro mandatário do país?

Se O Globo tivesse publicado este levantamento sobre o nepotismo antes, na época da campanha, teria tido alguma influência no resultado eleitoral? Difícil dizer. Talvez não, já que ele foi eleito mesmo depois de dizer que não abriria mão de privilégios.

Mas, com certeza, o jornal teria cumprido seu dever.

2 comentários em “Nepotismo em larga escala: Bolsonaro corrompe o conceito de coisa pública

  1. Na minha opinião, a inimiga de Bolsonaro, publicando tudo isto agora, não passará de uma mentirosa para os acéfalos e beócios eleitores entorpecidos de ódio a esquerda, especialmente ao PT.
    É tarde demais para desfazer a grande desgraça de ajudar diretamente na eleição do mais perigoso ser para toda a humanidade.
    Não só o Brasil corre perigo, por tabela, toda a América do Sul irá pelo ralo da extinção.

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