Enfim, um técnico que pensa

POR GERSON NOGUEIRA

Acompanhei com atenção entrevistas recentes de Fernando Diniz a um jornal e a um canal de TV. Em ambas, revelou com simplicidade os conceitos que têm garantido o sucesso de seu modelo de jogar futebol. Nem sempre alcança vitórias, mas é reconhecidamente um dos mais capazes técnicos em atividade no Brasil.

É um dos poucos – talvez o único – a se ombrear, em formulação ofensiva e teoria sensata de jogo, ao argentino Jorge Sampaoli, do Santos, que surpreende com ideias novas e surpreendentemente bem sucedidas.

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Diniz é direto, objetivo e tem um discurso que qualquer jogador pode entender, embora não desprovido de sutilezas e inovações que o futebol brasileiro há tempos deixou de considerar importantes.

Ao avaliar que a fase educacional da criança e do adolescente é parte essencial da formação do jogador profissional, Diniz demonstra ter uma qualidade rara entre os ditos “professores” em atividade no futebol do Brasil: ele pensa. Ao defender essa tese, ele quer dizer que atletas bem formados têm mais facilidade para entender as orientações.

É simples, mas não é pouco se considerarmos o quanto a baixa elaboração mental prejudica a noção do que é o futebol. E não estou me referindo a jogadores e técnicos. Refiro-me, também, ao entorno. Jornalistas, por exemplo. Falam muito, mas pensam quase nada.

O treinador do Fluminense leva vantagem nesse aspecto, por tornar possível a ressurreição de um futebol que faz bem aos olhos e ao coração, que não seja apenas uma muleta para torcidas ávidas por resultados.

Diniz está no extremo oposto de figuras como Felipão, Mano Menezes, Abel, Cuca, Renato Gaúcho e até Vanderlei Luxemburgo, que no Vasco assumiu de vez a persona do futebol pragmático, até mesmo pelo longo tempo de desemprego.

No Atlético-PR, Diniz aperfeiçoou o que havia ensaiado fazer no Audax e no Oeste. Colocou suas ideias em prática, fazendo com que a bola fosse trabalhada desde a saída pelos pés dos goleiros. Decretou o fim do chutão a esmo e dos cruzamentos inúteis.

Seu jeito de desenhar equipes tem um pouco a ver com o que Pep Guardiola fez com extremo sucesso no Barcelona, lembra o mago incompreendido Marcelo Bielsa e é uma homenagem involuntária aos conceitos de Telê Santana.

Mestre Telê queria seus times cultivando o drible e o toque de bola para  envolver os adversários. Pouco se afastava desses princípios, mesmo quando a pressão crescia. Foi graças a essa filosofia que o Brasil de 1982 não ganhou a Copa, mas entrou para a história.

Diniz não parece preocupado em fazer história. Quer futebol bem jogado. E explica que seus times jogam assim porque ele entende que é a maneira mais fácil de conquistar vitórias. Seus colegas de profissão apostam tudo no jeito roceiro. Bola aérea, ligação direta e briga insana no meio-campo. Que se dane a preocupação estética.

Gosto de ver o Fluminense de Diniz jogar porque a bola é tratada com carinho, respeito e consideração. O futebol bem jogado precisa muito de gente como Diniz. Que ninguém o atrapalhe.

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Um atacante à espera de um voto de confiança

Um dos mais habilidosos atacantes do PSC, Vinícius Leite andou amargando longos períodos de esquecimento nas mãos de três técnicos. Não foi muito utilizado por João Brigatti, Léo Condé e Hélio dos Anjos. Com o último parece mais próximo de um resgate, embora tenha sido lançado apenas em situações de visível aperreio, como na partida contra o Volta Redonda, quando entrou no lugar de Leandro Lima.

Mesmo tendo técnica, velocidade, boa definição e virtudes para atuar em qualquer posição do meio para a frente, segue no calvário de reserva de luxo. Wesley já entrou na equipe e Jheimy voltou a ter chances. Vinícius ainda espera por um voto de confiança. Quando isso ocorrer, tem condições de vir a ser muito útil.

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Generosidade brilha em momento dramático

Dalton Silva, torcedor do PSC, botou a camisa alviceleste e fez questão de ir ao Hemopa doar sangue para ajudar no tratamento de Carlos Alberto, meia-atacante do Remo, hospitalizado desde a madrugada de sexta-feira com problemas que indicavam anemia profunda.

Dalton fez o que todo desportista de verdade tem que fazer em momentos assim. Ignorou as diferenças clubísticas, deu um chega-pra-lá no fanatismo e partiu sem medo para um ato de solidariedade humana.

Não há espaço para briguinhas bobas e encrencas por bandeiras quando uma vida está em jogo. Dalton, sabiamente, cumpriu seu papel. Deu um tremendo exemplo de generosidade e merece ser lembrado. Carlos Alberto está melhor, iniciando tratamento para se recuperar plenamente.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, a partir das 22h, na RBATV. Rui Guimarães e este escriba de Baião participam dos debates. Os telespectadores interagem com perguntas e concorrem a premiações.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 28)

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