O Papão e seus demônios

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POR GERSON NOGUEIRA

Desde o empate com o Atlético-AC, sábado, em Rio Branco, o Papão mergulhou em debates internos acalorados que levaram à decisão de afastar quatro jogadores, por insuficiência técnica e problemas disciplinares. Marcos Antonio, volante expulso aos 10 minutos da última partida após entrada violenta sobre o jogador Everton, é o nome mais óbvio na lista.

Os demais punidos são Alex Gallo, que jogou alguns minutos contra o Remo, o centroavante Paulo Henrique e o goleiro Douglas Silva, que não chegou a ter chances. A medida, ainda dependendo de oficialização, reforça a impressão de que o clube repetiu erros na política de contratações.

A má vontade crescente em relação ao trabalho de executivos de futebol, cujo ápice ocorreu na contestada passagem de Alexandre Mazzuco pela Curuzu, volta a se manifestar em relação a Felipe Albuquerque, profissional que o PSC trouxe do futebol goiano.

Em meio a isso, o presidente Ricardo Gluck Paul encara o bombardeio da torcida, cada vez mais virulento nas redes sociais e no dia a dia do clube.

Depois da chuva de ovos após a derrota fora de casa contra o Boa Esporte, um novo incidente sacudiu o clube. Um dia antes do jogo com o Atlético-AC, um grupo de torcedores levou cartazes à sede social cobrando o afastamento do meia Tiago Primão e criticando a diretoria de futebol.

Da novíssima safra de dirigentes do clube, filho do grande benemérito Ambire Gluck Paul, Ricardo esteve presente nas duas gestões anteriores, de Sérgio Serra e Tony Couceiro.

Ao assumir, impôs mudanças interessantes na rotina do clube, investindo em transparência e contato direto com os torcedores. Acima de tudo, teve a coragem de romper com a fantasia de que o Papão era uma pujança econômica. Corajosamente, abriu os números que elucidavam a realidade financeira do clube. A ousadia pode ter lhe custado caro.

Por desfazer a imagem de “Barcelona do Norte”, que muitos torcedores adoravam cultivar, Ricardo abraçou-se de forma calculada aos riscos da impopularidade. Como os resultados em campo não corresponderam às expectativas no Campeonato Estadual, as cobranças começaram a surgir de forma ruidosa.

A caminhada trôpega na Série C completou o quadro de insatisfação da galera. A contratação de Léo Condé, que substituiu João Brigatti na reta final do Parazão, não trouxe o encaixe esperado e o desgaste se acentuou.

Mesmo com a chegada de Hélio dos Anjos, a torcida continua reticente, preocupada com os desdobramentos da campanha e naturalmente distante dos jogos do clube.

Cria-se, então, um quadro contraditório. Ricardo é hoje fustigado mais por suas virtudes do que pelos erros de sua administração – todos vinculados exclusivamente ao time de futebol. Quando expõe as dificuldades financeiras acaba por irritar o torcedor que lá atrás acreditou em bonança sem fim.

Para complicar ainda mais a situação, o rival faz uma temporada perfeita até agora. Bicampeão estadual e na liderança de seu grupo na Série C, o Remo é forçosamente alvo de comparações com o atual momento do clube alviceleste.

A questão é que o Leão nunca escondeu suas mazelas. Até por desorganização interna em gestões passadas, os azulinos ficavam o tempo todo expostos a vexames públicos, diante de dívidas e calotes.

Na Curuzu, porém, a realidade dos números era mantida sob sete chaves e até certo ponto era vendida de maneira incorreta. Seus defensores, dentro e fora do clube, argumentam que Ricardo está apanhando agora por mostrar as vísceras contábeis do clube.

Seus críticos mais ferozes – entre os quais alguns desafetos dentro da política do PSC – entendem que o maior de seus equívocos é a blindagem ao executivo Felipe Albuquerque, que é visto como principal responsável pelas falhas nas contratações para a temporada.

Os próximos irão definir se, além dos quatro afastados ontem, mais gente entrará na relação de dispensados pelo clube. De concreto, há a preocupação imediata em reabilitar o time – sem vencer há sete jogos – e reforçar o ataque, acatando solicitação expressa do técnico Hélio dos Anjos. Pode ser o remédio cabível para afastar o inferno astral e os demônios internos. A conferir.

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Seleção de Tite e o mundo da fantasia

Quem vê Gabriel Jesus dando entrevista à Globo todo feliz com os gols marcados contra a fraquíssima Honduras (com um a menos em grande parte do jogo) chega facilmente à conclusão de que Tite e seus comandados continuam fora da realidade.

O treinador também não teve pudor em saudar como altamente positiva a surra (7 a 0) sobre um dos times mais furrecas do planeta. Turbinado pelos termos superlativos adotados com fervor na narrativa pachequista da mídia amiga, Tite segue a encantar serpentes, na imagem feliz criada pelo uruguaio Lugano.

O fato é que não há mais como iludir nem mesmo o torcedor “de Copa”, o típico endinheirado que compra ingressos caros para ver qualquer joguinho agendado pela CBF. O público de 16 mil pagantes em Porto Alegre, no domingo, prova que até as lorotas midiáticas já não comovem a massa.

A poucos dias da abertura da Copa América, torneio que tem um peso importante nas expectativas de audiência da Globo, a ideia é transformar a expectativa negativa da torcida em cenário de patriotada e “pra frente Brasil” a qualquer custo.

Improvável que isso venha a se consumar, mesmo com a saída de cena do atrapalhado Neymar, mas a estratégia segue inalterada e isso foi visível no noticiário inflamado que repercutiu ontem a surra de 7 a 0 sobre Honduras. Mereceu tratamento tão especial e empolgado que, por alguns instantes, passou a ideia de algo realmente sério.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 11)

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