Construção semiótica da meganhagem nacional prepara próximo golpe

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Por Wilson Roberto Vieira Ferreira, no blog Cinegnose 

O “Hilbert da Polícia Federal”, o policial “hipster lenhador”, a agente federal que posa de biquíni em redes sociais. São exemplos de uma glamourização midiática diária de policiais e agentes federais, com suas armas negras reluzentes, lubrificadas, coldres, metralhadoras empunhadas ao nível da virilha prontas para entrar em ação. Em tudo se assemelha àquilo que em cinema chama-se “product placement” (inserção de produtos de forma natural em cenas) – sistemática construção semiótica da “meganhagem” (o uso do poder de polícia para fins políticos) como diagnóstico e solução para as mazelas nacionais. Assim como fez a SS na Alemanha, transformando-se em poder paralelo no Estado. E a pedra de toque dessa estratégia é a freudiana fetichização das armas – ganhar apoio da opinião pública para o golpe dentro do golpe que se prepara: o Estado policial que manterá nas rédeas a Justiça, a Política e o povo. 

O “Hilbert da PF”, o “policial gato que prendeu o Lula” como deu manchete a grande mídia em 2018; a anual “Corrida Contra a Corrupção” promovida pela Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) como parte da “Campanha pela Autonomia da PF”, com destaque na mídia com fotos de atletas correndo com camisas negras com insígnia da ADPF.

Uma matéria na revista Época  sobre “10 perguntas” ao “hipster lenhador”, apelido dado pela mídia corporativa ao policial que participou da prisão do deputado Eduardo Cunha, cuja reportagem mais parecia um editorial de moda; a garota de 8 anos, fã da PF, que ganhou uma festa surpresa dos policiais na sede de Juiz de Fora/MG (clique aqui);

A agente federal “que faz sucesso nas redes sociais” e “na imprensa internacional” pelas suas fotos de biquíni em “praias paradisíacas que vai quando está de férias”, exibindo “curvas acentuadas” (clique aqui).

Hilbert da Federal

Desde o “hip” do “japonês da Federal”, que virou máscara de carnaval ao lado do indefectível Sérgio Moro, paulatinamente policiais federais, com suas armas negras reluzentes, são plantados no noticiário diário da grande imprensa. Uma explícita estratégia daquilo que na indústria cinematográfica chama-se “product placement” – inserir um produto em cena tornando-o naturalmente parte do contexto e do ambiente dos personagens.

Ao lado do discurso do atual governo francamente favorável a posse (e futuramente também do porte) de armas e da pressão no Brasil do lobby armamentista nacional e internacional (National Rigle Association, Israel etc.) desde 1999, o que testemunhamos nos últimos anos é uma sistemática construção semiótica da “meganhagem” como diagnóstico e solução para as mazelas nacionais.

“Meganhagem”: o uso do poder de polícia para fins políticos. Estratégia que se tornou paradigmática com a SS, tropa de proteção de Hitler, que aos poucos se tornou uma organização paramilitar, se transformando em grande influência no interior do governo nazi quando absorveu a polícia secreta (Gestapo) e serviços de inteligência e de controle das polícias.

Mas a meganhagem precisa também contar com o apoio da opinião pública. Nos EUA, enquanto cigarros e bebidas alcoólicas são retirados nos filmes das mãos e bocas dos mocinhos (para ficar exclusivamente nos RAVs – russos, árabes e vilões em geral), com armas é o contrário.

Tanto lá como aqui, observamos uma fila interminável de armas lubrificadas, reluzentes, coldres, metralhadoras empunhadas ao nível da virilha prontas para entrar em ação tanto no cinema como na TV, em minisséries nacionais, telenovelas e na enésima operação da Lava Jato nos telejornais.

Gatos da federal

Armas e meganhas (soldado de polícia) se transformaram em diagnóstico de todos os problemas nacionais: indicadores sociais como educação, saúde e emprego estão caindo? Então a culpa só pode ser da corrupção e meganhas com armas brilhantes e seus óculos “thug life” são a solução – caçar e prender corruptos e expô-los às câmeras como fossem caçadores de cabeças a prêmio.

O filósofo Walter Benjamin defendia a tese de que o fascismo era um fenômeno principalmente estético com a politização da arte, cinema e fotografia através da propaganda. Então, o que acompanhamos no Brasil é a construção semiótica das armas como um fenômeno estético. Com a evidente finalidade política de construir um Estado paralelo de procuradores públicos e PF – os corvos alimentados com muito carinho pelo STF e Congresso dentro do jogo da guerra híbrida que culminou no golpe de 2016, agora vem bicar seus olhos. E com o apoio da opinião pública e grande mídia.

No nazi-fascismo, insígnias, símbolos e armas foram transformados em fenômenos estéticos através da promoção fetichista pela propaganda – a despolitização da Política por meio da promoção fetichista.

Arma, fetiche e castração

Da mesma forma, a atual guerra semiótica brasileira promove a meganhagem como a pedra de toque da ideologia que justificará o futuro Estado policial. E a fetichização das armas é a sua principal estratégia semiótica.

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O crítico cultural e escritor Stephen Marche tem algumas ideias que nos ajudam a compreender esse mecanismo. Ele defende a tese de que as armas, antes de mais nada, são uma estranha forma de expressão de beleza, uma forma clara de fetiche e simbolismo fálico (leia (MARCHE, Stephen. “Guns Are Beautiful.To stop gun violence, we need to stop fetishizing guns– clique aqui) .

Valendo-se de um largo estudo feito pela Universidade de Berkeley em 2007 que concluiu não existir uma causalidade clara entre filmes violentos com a extensiva presença de armas de fogo na tela e a violência nas ruas, Marche argumenta que a questão das armas é de outra natureza. Para começar, o autor demonstra que todo o discurso que justifica as armas não tem nenhuma aplicação prática: casas com armas são mais seguras? Estatisticamente casas com armas são menos seguras do que casas sem armas. Defesa contra um governo tirânico? Quanto tempo a melhor milícia armada resistiria contra um simples destacamento de Mariners?

Para Marche, armas são um fenômeno estético. Para começar, um óbvio símbolo fálico no sentido atribuído por Freud como uma reação do indivíduo à ameaça da castração. A possibilidade da privação fálica conduz à sedução por esse simbolismo.

Por isso, Marche argumenta que a simples legislação que proíba ou restrinja a propriedade de armas, somente alimenta esse imaginário da castração. A presença massiva e exibicionista de armas nas telas de cinema é a expressão direta dessa ameaça da privação de um simbolismo fálico tido como um dos direitos constitucionais do cidadão.

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É curioso que muitos desses filmes apresentem homens veteranos como Bruce Willis, Stallone, Schwarzenegger etc., atores que surgiram nos anos 1980 (a grande década dos filmes de ação da era conservadora do presidente republicano Ronald Reagan). Eles envelheceram, perderam a relevância e os cabelos, estão enrugados e com uns quilos a mais, mas ainda tentam provar que ainda têm munição: com as armas a impotência se foi! Quanto mais velhos, maiores as armas e o arsenal bélico.

A meganhagem cotidiana na grande mídia através da glamourização das ações de policiais federais e toda a polêmica em torno da legislação das armas faz parte dessa construção semiótica da criação do novo Estado policial: a fetichização das armas como símbolo fálico de poder e afirmação.

O País está em crise? Cresce o desalento e o desemprego? Educação e saúde se deterioram? Então, a culpa é dos ladrões e corruptos e a meganhagem (armas + força policial) é a única resposta para o País novamente se tornar forte e potente.

Então, as únicas coisas que realmente serão empoderadas no Brasil serão policiais e militares.

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